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Correio da Manhã

Cultura
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A troika perfeita dos Coldplay

Cada um fará o que entender com este disco que deixa perceber de onde vem, por exemplo, o lirismo dos Keane e de outros grupos vizinhos. Por mim, sei que ‘X & Y’ vai andar a tiracolo em viagens, em férias, todo o Verão.
5 de Junho de 2005 às 00:00
A troika perfeita dos Coldplay
A troika perfeita dos Coldplay
Se ‘Parachutes’ (2000) foi a revelação, acumulando canções de referência com êxitos boca-a-boca, como ‘Yellow’, ‘Don’t Panic’ ou ‘Trouble’, se ‘A Rush Of Blood To The Head’ (2002) valeu como o crescimento uniformemente acelerado dos Coldplay – que não perderam identidade, como se provou em ‘In My Place’, ‘Clocks’ ou ‘God Put A Smile Upon Your Face’, e ganharam 16 milhões de compradores –, o álbum de 2005 valia uma espécie de tira-teimas. Simples: a banda de Chris Martin (o sortudo marido de Gwyneth Paltrow) merece ou não estar situada entre as mais marcantes desta metade de década?
Ouvido e reouvido ‘X & Y’ (que amanhã, segunda, é lançado em toda a Europa), a resposta é simples, por mais categórica que soe: claro que sim. Da primeira à última canção – e são mais do que uma dúzia, com uma ‘escondida’ décima terceira chamada ‘Til Kingdom Come’, escrita para Johnny Cash, que não teve tempo para a cantar, e aqui mostrada em jeito de homenagem, o que é mais uma prova de bom gosto –, não há tempos desperdiçados. O single, ‘Speed Of Sound’ pega rigorosamente no ponto em que os Coldplay tinham deixado a história: batida enérgica em ‘mid tempo’, piano envolvente e voz marcante de Martin, abertura para a arrepiante guitarra de Jon Buckland que, mantenho, é mais personalizado instrumentista das seis cordas eléctricas de uma banda de primeira linha desde The Edge. E o mote fica dado – é mais um ‘power play’ que nem se discute.
Dirão os manientos apóstolos da experimentação sistemática, que ‘X & Y’ arrisca pouco. Há duas boas razões para estarem errados: não me lembro de nenhum álbum de 2005 em que o nível médio das canções tenha subido tão alto, do magnetismo puro que há em ‘Fix You’ (mais uma canção sobre vidas a arder…) a ‘The Hardest Part’ (a geometria rigorosa dos Cold-play em estado puro), sem esquecer ‘Talk’ (outra vez Buckland, num tema que se confessa inspirado numa linha rítmica dos Kraftwerk) ou o tema-título (com uma melodia de abandono e uma aproximação ao que Beatles e Squeeze fizeram nas respectivas épocas). Em ‘What If’, a presença das cordas mostra, com generosidade, um dos caminhos possíveis para Chris Martin, se alguma vez se transformar num cantor de ‘standards’. E, logo a abrir, ‘Square One’, provável próximo single, esmaga, mostrando que o indesmentível líder dos Coldplay (já referi que ele é casado com Gwyneth Paltrow?) adoptou, em boa hora e com bom senso, o trabalho com os sintetizadores, que se estende a ‘White Shadows’, outro dos monumentos deste álbum que, parecendo um fecho de ciclo, é uma inesgotável fonte de prazer.
Cada um fará o que entender com este disco que deixa perceber de onde vem, por exemplo, o lirismo dos Keane e de outros grupos vizinhos. Por mim, sei que ‘X & Y’ vai andar a tiracolo em viagens, em férias, todo o Verão. E mais que venha: cada vez mais gosto de canções e não de tiques e truques. Aqui, no universo de Martin e dos Coldplay, fica garantido que há para dar e vender.
TOCA A TODOS
Se confirmação era precisa, ‘Segundo’ vai dar que fazer aos adeptos dos TORANJA. Que são – entre os grupos mais recentes da nacionalidade – daqueles que melhor trabalham melodias e palavras, revelando a enorme intuição de cruzar momentos mais ‘rock’ (guitarra) com a lentidão estratégica que puxa ao sentimento (piano). Não faltam sequer candidatas à sucessão de ‘A Carta’. É só escolher: ‘Laços’, ‘Música de Filme’, ‘Quebramos Os Dois’, ‘Confiar’. Muito bem, por mais que isso custe a alguns.
Mantêm-se como um valor seguro da música ‘pop’ feita aqui ao lado, com discos bem acabados, melódicos, a criar espaço à belíssima voz de Sole Giménez, sem atropelos em busca dos últimos truques ou das modas em voga. ‘Postales’ é o disco que assinala a reunião dos PRESUNTOS IMPLICADOS e mostra como o gosto e o espírito precisam um do outro, no mundo das canções. É um disco de amores e desamores, olhares sobre o mundo, de canções que, não será de propósito, cheiram mesmo a Verão. Fazem falta.
TOCA E FOGE
Ainda não é desta que os GORILLAZ me convencem, apesar da presença de Damon Albarn (dos Blur): ‘cocktail’ de programações, ritmos dispersos, ‘rap’ fraco, acaba sempre por soar inacabado – como se os músicos tivessem decidido passar a disco os ensaios e os projectos, pouco trabalhados, escassos de alma e ideias próprias. O desfile de convidados (De La Soul, Marti-na Topley Bird, Neneh Cherry, até o actor Dennis Hopper) não chega para fazer de ‘Demon Days’ um objecto de culto ou de interesse.
Confesso que tenho saudades dos tempos mal comportados de Shirley Manson e dos seus companheiros nos GARBAGE, de canções a rasgar regras e a afrontar, pela atitude, como ‘Stupid Girl’ ou ‘Only Happy When It Rains’. Agora, uma dezena de anos depois, ‘Bleed Like Me’ é monocórdico, em que a força arrumada das guitarras não tem correspondência no desfecho das canções. Mesmo com um single eficaz, ‘Why Do You Love Me’ (cheio de reminiscências de Blondie), o todo é tangente ao banal. Imperdoável.
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