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Correio da Manhã

Cultura
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A versejar é que eles se entendem...

Começou à desgarrada o primeiro Encontro Regional de Poetas Populares do Alentejo, que decorreu ontem, no restaurante Monte Alentejano, em Évora. Vindos de todas as zonas da região, os 38 participantes mostraram a sua arte e defenderam a cultura tradicional.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
O Encontro de Poetas Populares vai ter mais edições em vários pontos do Alentejo. Deste primeiro, resultará a publicação de um livro
O Encontro de Poetas Populares vai ter mais edições em vários pontos do Alentejo. Deste primeiro, resultará a publicação de um livro FOTO: Pedro Galego
Despiques e desgarradas – que até deram para um pequeno baile... –, deram o mote ao convívio, acompanhado pela gastronomia tradicional bem regada com o vinho da região. Era frequente ouvir um acordeão que, logo de seguida, dava lugar às pequenas picardias carregadas de escárnio. No entanto, os poetas garantem que é tudo “uma brincadeira”.
Muitos foram os que se mostraram preocupados com a pouca divulgação daquela que consideram ser “uma das mais tradicionais formas de arte do nosso país”, como referiu ao CM José Luís Esturrado, que, embora escreva poesia, se recusa a ser tratado como poeta.
“Poeta não é quem quer, só o é quem pode. Preocupa-me que haja cada vez menos iniciativas destas e nós que vamos desaparecendo. Se não forem os jovens a agarrar estas tradições, elas têm tendência a desaparecer”, explicou.
Quase todos de improviso e alguns sem sequer saber ler nem escrever, os poetas foram expondo a obra ao longo do dia. Como António Poeiras Valério, natural da Urra, concelho de Portalegre. “Nasci numa família pobre, sempre criei gado e nunca pude ir à escola. Herdei esta arte do meu pai, não escrevo nada, trago tudo na cabeça”, confessou.
Os costumes populares, a vida em família e o trabalho no campo constituem a temática dominante dos versos recitados à atenta plateia, como esta quadra de António Gonçalves, vindo de Santo André, Santiago do Cacém: “Meu Alentejo tão querido/Eras o celeiro da nação/Hoje estás abandonado/Não há trabalho nem pão.”
PUBLICAÇÃO EM LIVRO
Iniciativa da Fundação Alentejo Terra-Mãe organizada em parceria com a Câmara Municipal de Évora, o Encontro teve como objectivo principal a divulgação dos poetas populares e da sua arte, do que irá resultar a publicação de um livro com as obras dos intervenientes, oriundos de 22 concelhos alentejanos.
“Pedimos que trouxessem as suas obras. Os que não as têm escritas irão gravá-las e tudo será compilado numa obra literária”, adiantou ao CM José Flamínio Roza, presidente da Fundação.
O sucesso do evento abriu já as portas às próximas edições. “Será um encontro itinerante que queremos realizar anualmente em vários locais do Alentejo”, rematou José Roza.
“Neste encontro houve alegria/e também muito calor/para além da qualidade/nos poetas o valor”, já lá diz o poeta Silvais...
DE IMPROVISO
MARIA MOITA
“O Correio da Manhã / é muito especial / Não é uma leitura vã / pois nada tem de banal”.
ANTÓNIO VALÉRIO
“O Correio da Manhã / gostava de ler todos os dias / A comunicação mais pura e sã / que nos dá tantas alegrias.”
MANUEL CARVALHAL
“Sou o Manuel Carvalhal / e vim aqui agradecer / à comunicação social / que nos dá a conhecer.”
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