A fadista apresenta o novo disco homónimo dia 4 no Caixa Ribeira
Oito anos para um novo disco é uma eternidade. Porquê tanto tempo?
Como comecei a gravar cedo, aos 21 anos, cheguei a uma fase em que senti que não tinha muitas ferramentas de trabalho para fazer novo disco. E então fui atrasando. Fui-me reconstruindo. É verdade que sou fadista e que essa é a minha primeiríssima identidade, mas precisava de ser mais do que isso. Precisava de me redescobrir como cantora e intérprete. Viajei muito e partilhei o palco com muita gente. Passei muito tempo no Brasil, onde me apaixonei por outros géneros de música, e entretanto percebi que já não era a mesma fadista que tinha gravado o álbum ‘Bairro’, em 2008. Já tinha mais influências e mais recursos.
E o que aprendeu nesse tempo?
Aprendi a não ser preconceituosa comigo, a deixar-me levar pela música, a não me castrar nem impor regras.
Que regras?
Eu cresci no meio do fado tradicional, com algumas restrições e imposições que se calhar até fui eu que criei. Mas hoje estou mais disposta a fazer outras coisas e estou a gostar muito deste novo caminho. Por isso é que este disco se chama ‘Raquel’, porque é pessoal. Eu queria que as pessoas levassem um bocadinho de mim para casa.
Perder o tal preconceito ajudou-a a fazer um disco mais atrevido!
Sim. Saí da minha zona de conforto. Este não é um disco de fado, é um disco de música portuguesa cantado por uma fadista. O fado está lá, mas não é um disco que respeita o fado tradicional. São canções que me foram dadas por autores portugueses, tocadas por músicos portugueses, e é um disco produzido por portugueses.
Por ter estado oito anos ausente de discos, não teme ter perdido o comboio e caído no esquecimento?
Não. Há um meio de comunicação pelo qual tenho um enorme respeito, que é a televisão. Eu adoro televisão, talvez porque a minha mãe tenha trabalhado anos a fio na RTP. Sempre tive uma relação muito chegada à televisão e, ao longo destes oito anos, estive sempre presente, porque participei em vários programas.
Passam dez anos sobre a sua estreia em disco e vinte sobre o início de tudo. Está onde merece estar?
Eu acho que é a vida que se encarrega destas coisas. Eu tenho visto tudo a acontecer, os que chegam, os que vão e os que começaram comigo há vinte anos e que ninguém sabe hoje quem são. Eu acho que a vida faz uma triagem natural, e gosto de acreditar que este é o meu momento. Chegou a minha vez.
Recorda-se daquela Raquel que ganhou a Grande Noite do Fado aos 12 anos?
Sim. Ainda hoje a sala que me deixa em sentido é o Coliseu. Na última vez em que lá estive foi com o Carlos do Carmo e senti exatamente a mesma coisa que senti quando tinha 12 anos. Eu acho que ainda sou essa menina. No meu bairro de Alfama, ainda gosto muito que cuidem de mim [risos]. Gosto muito de ser pequenina. E acho que estou cada vez mais nova. É curioso, porque houve ali uma fase na adolescência em que, por causa do fado, eu era muito envelhecida.
Porquê envelhecida?
Porque eu queria ser como aquelas fadistas que via, que tinham porte. Só que elas tinham porte porque tinham idade e estatuto para isso [risos]. Eu só tinha 15 anos. Hoje não quero nada ter esse porte. Acho que aquele porte pertence a uma geração de ouro, mas que fica ali imaculada e muito admirada. Hoje eu sou uma fadista mais jovem, mais cool. Gosto de ser a fadista que usa ténis e calças jeans. Mas, por outro lado, quando chega a hora de cantar um fado tradicional, também sei ser a fadista.
E o fado é hoje uma coisa cool!
É super-cool ir aos fados. Hoje em dia, há gente nova a fazer festas de aniversários em casas de fados. Onde é que há uns anos as palavras fado e festival poderiam caber na mesma frase? Eu própria vou atuar este ano no Alive [risos]. E eu acho isto genial.
O fado soube tornar-se interessantes para os novos públicos?
A nova geração de fadistas, onde me incluo e que vi chegar, apareceu com muita determinação e respeito. Não viemos inventar nada. Eu não acredito na expressão ‘fado novo’. O que acho é que existe um fado contemporâneo. Eu acho que há letras do início do século XX, por exemplo, que já não faz sentido cantar hoje. Mas também há outras de antes da ditadura que continuam atuais. O que acho é que cada fadista soube dar uma identidade sua ao fado. E eu também criei a minha.
Começou a cantar fado ainda criança. Como é que uma criança se interessa por fado?
Não faço a mínima ideia [risos]. Eu era vítima de bullying na escola porque era a miúda que cantava o fado [risos]. Não sei explicar por que razão me apaixonei pelo fado, mas também não quero saber. Há um misticismo por detrás disto tudo que me encanta. Como é que uma criança de cinco anos se fixa naquele tipo de música e pede à mãe para lhe mostrar mais? Recordo-me que aos sete anos já chorava copiosamente ao ouvir uma guitarrada. O meu amigo Jorge Fernando diz que o fado é alquimia. É algo que não se explica, sente-se.
A história de vida da Raquel começa lá atrás, com um rapto por amor. Isto é genial e é uma coisa muito fadista!
[Risos] É verdade. É a história da minha bisavó que era sevilhana e do meu bisavô que era de Serpa, alentejano contrabandista. Conheceram-se em Sevilha, só que, como a família dela era de etnia cigana, obviamente que não a deixavam namorar e muito menos casar-se com um português. E o meu bisavô não esteve de modas: raptou-a e trouxe-a para Portugal. Ficaram a viver no Alentejo e tiveram a mãe do meu pai. Portanto, eu tenho um bocadinho de sangue da Andaluzia.
A Raquel tem 31 anos. Mudou alguma coisa com a passagem dos 30 ou isso é mito?
[risos] Mudou tudo. Eu passei pela suposta crise dos 30. Questionei-me muito quando cheguei lá sobre o que conquistei, o que pretendia conquistar, se queria ter filhos ou não, enfim, as perguntas todas que as mulheres fazem. Como eu cresci a correr, porque cresci no meio de gente mais velha e fui viver sozinha muito cedo, acho que isso me levou a questionar muito quando cheguei aos 30.
Diz que a tristeza é uma coisa boa, mas a Raquel é um poço de alegria e é só sorrisos. Como é que se gere essa quase bipolaridade?
É fácil, sou fadista [risos]. A tristeza é a minha maior ferramenta de trabalho. Difícil é cantar e fazer sentir a alegria. A tristeza é mais fácil, e eu tenho a minha tristeza guardada para quando preciso. Mas no meu dia a dia sou uma pessoa feliz, que gosta de dançar, ir à praia e pregar partidas. Às vezes até levo essa traquinice para o palco.
Raquel Tavares é sinónimo de Alfama. Sente que o bairro talhou o seu destino?
O bairro é como se fosse o pai e a mãe presentes. O bairro é o meu barómetro. Independentemente de onde a vida me levar ou me elevar, no final do dia eu estarei sempre no bairro de Alfama. Sou do povo e não tenho como me deslumbrar. Não tenho tempo para ter ataques de diva porque moro em Alfama. Ali é que é o meu lugar. É a velha frase: podes tirá-la do bairro, mas não podes tirar o bairro dela. E eu serei sempre a menina do bairro.
Um disco de grandes luxos
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