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Correio da Manhã

Cultura
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Abbas Kiarostami: “Espero voltar a Portugal”

Encontrámo-nos com o famoso realizador iraniano, Abbas Kiarostami, autor de filmes como ‘E a Vida Continua’, ‘Através das Oliveiras’, ‘O Sabor da Cereja’ ou ‘Cópia Certificada’. Desta vez para apresentar, em Cannes, ‘Like Someone in Love’, o filme com o título da famosa canção de Jimmy van Heusen, imortalizada por nomes como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald ou Björk.

29 de Setembro de 2013 às 18:43
Abbas Kiarostami: "Acho que poderia ter sido arquiteto. Penso sempre nos edifícios. É uma arte estranha e muito bela"
Abbas Kiarostami: 'Acho que poderia ter sido arquiteto. Penso sempre nos edifícios. É uma arte estranha e muito bela' FOTO: D.R.

Rodado em Tóquio, o filme gira em torno de uma prostituta que vive uma ligação muito especial com um idoso. Falando sempre em farsi, com ajuda de uma intérprete e sem tirar os óculos escuros, Abbas refletiu sobre o filme, o gosto em viver no Irão; recordou a sua infância e a passagem por Portugal, em 2010, no Estoril Film Festival.

Correio da Manhã – Como decorreu esta experiência em japonês? Perdeu-se algo na tradução (‘Lost in Translation’)?

Abbas Kiarostami – Sim, perdi os meus nervos... (risos) E arranjei uma dor no joelho. O problema foi a comunicação, sobretudo com a equipa.

- Porquê o desejo de filmar no Japão? O que foi o que descobriu no país?

- Belas histórias, com pouca probabilidade de ocorrerem noutros lugares. Uma geração que quase desapareceu no Mundo. A ideia ocorreu-me quando estava no Japão, e vi uma rapariga na rua a falar ao telemóvel. Isto há 18 anos. O resto veio de acordo com a minha experiência.

- O que foi que o inspirou nessa imagem?

- Foi algo que me surpreendeu. Ela deveria ter uns 17 anos, e estava vestida como um rapaz. Foi uma imagem muito forte. Nada dramático aconteceu, apenas esta imagem que me acompanhou durante muito tempo.

- Uma das sequências mais bonitas do filme é quando a jovem escuta as mensagens no telemóvel durante aquela viagem de carro. Como lhe ocorreu essa cena?

- Escrevi-a. Quando ouvimos uma mensagem, ocorre algo simples e sensível. Vemos o rosto dela iluminar-se. Por isso digo que deveria ter feito este filme há 18 anos. Fiquei fascinado pela imagem de uma rapariga a ler sms. Queria que essa fosse uma sequência circular, em redor da praça. Mas acredita que não existia nenhuma praça assim no Japão? Se calhar, foi por isso que não fiz o filme.

- Sente que a passagem de tempo ajudou ou prejudicou essa ideia?

- Ajudou, porque eu não conseguiria ter feito o filme antes. Não teria compreendido as personagens, como o velho professor. Agora compreendo-o muito melhor. Acho que a praça foi uma desculpa para não fazer o filme na altura.

- Como foi dirigir atores numa outra língua?

- Isso foi muito fácil. Acho que a equipa estava familiarizada com a forma como trabalho. Talvez isso tivesse ajudado.

- Sentiu-se de alguma forma influenciado pelo cinema japonês?

- A única forma em que me aproximei da estética japonesa foi ao usar planos fixos, bastante abertos. Mas a raíz do meu cinema está lá.

- Imagino que carrega consigo várias histórias. É verdade?

- Se soubesse quantas carrego... Não que queira fazer filmes a partir delas. Sou uma pessoa muito curiosa. Todas essas histórias são verdadeiras.

- Esta é uma história verdadeira?

- São todas verdadeiras. Eu não crio nada. Nunca adaptei uma história. Apenas coleciono coisas.

- Como é que trabalha esse material? Em algum bloco de notas?

- Não, apenas na minha memória. Quando pensamos em algo com alguma profundidade, repetimos para nós e vai-se tornando cada vez melhor. Depois há uma verdade perdida que torna as histórias mais verdadeiras.

- Quando parte então para um filme, já o tem na cabeça?

- Digamos que tenho os elementos que irão fazer parte do guião.

- E de que forma a sua experiência enquanto artista o ajuda?

- Tento não usar isso. Seria perturbador. Cada filme deveria ser feito à parte de tudo o que fiz antes. Os bons filmes são elementares. Todos os outros estão cheios de falhas.

- Quando era ainda criança e lidava com a sua criatividade, acha que poderia ter sido outra coisa que não cineasta? Talvez pintor?

- Tenho pensado nisso. Pensei que se não tivesse sido realizador, poderia ter sido camionista... (risos)... Porque gosto de conduzir sem ir para lado nenhum. Mas talvez houvesse outras coisas que pudesse fazer. Recentemente, pensei nisso e achei que poderia ter sido arquiteto. Penso sempre nos edifícios. É uma arte estranha e muito bela.

- Diz que gosta de ver filmes de locais altos. Por isso, pergunto-lhe como encara o trabalho de Ozu, em que a câmara está sempre mais baixa que as personagens?

- Esse é um ponto de vista pessoal. Se ele não vivesse no Japão, certamente teria um ponto de vista diferente, com a câmara ao nível do rosto das pessoas. O Ozu foi influenciado pela sua gente, por isso baixou o nível da sua câmara.

- Vive atualmente no Irão?

- Sim, vivo no Irão. Desloco-me apenas para trabalhar, mas regresso sempre a casa. É lá que gosto de viver.

- Esteve recentemente Portugal. Como foi a experiência?

- Sim, gostei muito do Lisbon Film Festival. Espero voltar.

Cultura entrevista Abbas Kiarosami Festival de Cannes 'Like Someone in Love'
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