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Correio da Manhã

Cultura
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'ACHAMOS QUE SOMOS AMERICANOS'

Actual responsável pelo ‘site’ do Benfica, Leonor Pinhão é a autora da ideia do filme ‘A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América’, de João Botelho. O filme estreia-se hoje nas salas portuguesas e, em entrevista ao CM, a ex-jornalista e estudante de cinema explicou a pertinência de uma comédia como esta.
21 de Março de 2003 às 00:00
Correio da Manhã - Como surgiu a ideia para este filme?
Leonor Pinhão - Foi na sequência do último filme do João, "Quem És Tu?", uma adaptação do Frei Luís de Sousa, de Garrett, que teve determinado efeito. Interrogámos sobre o que havia de se seguir a uma tragédia tão portuguesa e fomos levantando as questões da actualidade, porque o João diz sempre que um filme dele tem de responder ao momento. Começámos a interrogar o que havia à nossa volta, o que é que as pessoas querem ser e o que julgam que são. Fazendo exclusões, achámos que tinha que ser uma comédia política. E apercebemo-nos que há uma coisa que se chama Estados Unidos da América, um Império, que deixou de ter rival com a queda do Muro de Berlim, e é absolutamente dominador. E todas as pessoas na Europa Ocidental pensam que são americanas: os meus filhos vestem-se como eles, eu visto-me como as americanas da minha condição social e da minha idade. Ou seja, somos completamente americanizados e colonizados e nem sequer damos por isso. Há uma ilusão enorme no Mundo e levando isso ao extremo – porque a intenção de uma comédia é essa – inventou-se uma mulher que acreditava que era presidente dos EUA. E com isso responde a algumas questões que nos preocupam a todos. A ideia de fazer só com mulheres é um desejo antigo do João e anterior ao filme.

- A inspiração surgiu com a Rua Washington, que existe mesmo?
- Só descobrimos a Rua Washington dois meses depois da história circular entre nós. Foi um acréscimo, mas fica lá muito bem. Fundamental é o título. Se lhe chamasse "a mulher que queria ser presidente do Egipto, ou da Síria", ninguém ia acreditar, porque as pessoas só se interessam minimamente pelo que lhes é próximo. E depois a imagem da Alexandra Lencastre é muito forte.

- Foi uma escolha imediata?
- Não houve dúvidas. A actriz seria sempre a Alexandra Lencastre. Numa fase inicial, achámos que havia duas mulheres, figuras públicas, que poderiam fazer muito bem. Uma chegou a ser contactada, mas imperou o bom senso. A outra nem sequer foi contactada...

- Podemos saber quem são?
- Não! (risos) De maneira nenhuma. Mas ambas fariam muito bem. E também são louras.

- O papel exigia uma loura?
- Porque não? Uma comédia vive de imagens. Se mostrar uma americana afro ou com os olhos chineses não cola, apesar da população americana ser o mais multirracial possível. Uma americana tem de ser loura.

- Acha que os espectadores entendem o que se quer com este filme?
- Se vir um filme de Jacques Tati é muito difícil contar a história.O "Mon Oncle", de Tati, é sobre um miúdo que tem um tio que é um bocado excêntrico e o miúdo vive com os pais que não são nada excêntricos. Não há mais história do que esta e depois são pequenos acontecimentos em torno deste conceito. Este filme é um pouco assim. As pessoas têm que aceitar que há narrativas que não são tão clássicas e lineares e sobretudo não têm mensagem. Este filme não tem mensagem nenhuma.

- Mas há uma crítica clara aos EUA?
- Não diria que é uma crítica aos EUA, porque adoro os EUA. É uma crítica às pessoas que acham que são cidadãs, funcionárias e zeladoras dos interesses e das fortunas e dos princípios geo-estratégicos dum país que não é o deles.

- Em Portugal há muitas pessoas assim?
Há imensas. São hilariantes! Vêmo-las várias vezes por dia na televisão.

'O BENFICA SERÁ SEMPREO MEU CLUBE'

- Qual é o seu cargo no Benfica?
- Não tenho cargo nenhum. Sou responsável pelo ‘site’ do Benfica na Internet, mais nada. Agora pensem o que quiserem.... O Benfica será sempre o meu clube.

- O Benfica está melhor?
- Já esteve muito pior. Está mais sólido, tem melhores jogadores, uma situação fiscal que já não envergonha ninguém e está a caminhar devagarinho... Não tão rápido como todos desejaríamos.

- Desde a sua entrada no clube, o porta-voz João Malheiro deixou de aparecer...
- Tão maus! Eu não sou porta-voz do Benfica, nem porta-voz de ninguém, jamais o seria na minha vida. Não sou directora de comunicação do Benfica. Não tenho nada a ver com o João Malheiro, que é um óptimo benfiquista e um óptimo profissional, que muito estimo. Se ele se calou quando entrei é apenas coincidência.

- Esse afastamento de Malheiro foi imposição do novo treinador, Camacho?
- Não respondo a perguntas provocatórias. Dou-me muito bem com o Malheiro, há muitos anos.

- Ainda tem acções de “A Bola”. Quanto valem actualmente?
- Não respondo a perguntas sobre a minha vida privada (risos).

PERFIL

Leonor Pinhão, 45 anos, três filhos: de 22, 16 e 12 anos. Filha de um jornalista desportivo (Carlos Pinhão, de “A Bola”), estudou Direito e Cinema no conservatório de Lisboa, onde conheceu o marido, o realizador João Botelho. Não acabou nenhum dos cursos e optou pelo jornalismo desportivo - contra a vontade do pai.

Colaborou para o “Expresso”. Foi a primeira mulher a entrar nos quadros de “A Bola” e foi editora de desporto do “Público”. Passou pelo “Semanário”, onde se desencantou com o jornalismo, e aos 40 anos aceitou o desafio do programa televisivo “Os Donos da Bola”, na SIC. Decidiu dizer adeus à carreira jornalística e assumir, sem isenção, a sua costela benfiquista. Actualmente, trabalha cada vez mais, em casa, mas é dona do seu tempo. O cinema é uma paixão, como espectadora. Escreveu a meias com Botelho, o filme ‘Um Adeus Português’.
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