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Correio da Manhã

Cultura
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Adrenalina à portuguesa

Primeiro vemos uma mãe, brasileira, pobre, boa gente. Num momento de aflição, no aeroporto, entrega a filha a uma hospedeira portuguesa. Passa mais de um ano entretanto. Reencontramos aquela mulher, agora de olhos tristes ainda mais tristes, ainda no aeroporto, à espera de descobrir a outra, a que lhe roubou a menina.
16 de Março de 2005 às 00:00
‘Um Tiro no Escuro’, que se estreia amanhã em Portugal, é o mais recente filme de Leonel Vieira. O cartaz que o publicita mostra um revólver, um homem (Joaquim de Almeida), uma mulher (Vanessa Machado), uma criança pelo meio. Um filme de acção? Errado.
“O cinema de acção puro e duro não pode ser feito por portugueses, nem sequer por espanhóis. É necessária uma quantidade de dinheiro, técnica e saber fazer que nós não temos“, argumenta Leonel Vieira. “Mas isso não significa que não possamos fazer histórias simples que, depois, tenham momentos de acção e adrenalina, com tanta emoção como 50 carros a explodir”.
Há assaltos em ‘Um Tiro no Escuro’, três para sermos exactos. Há também polícias, ladrões, tiros sangue e sexo. “O guião nasce de um drama policial, que por si só podia ser a coisa mais sem sal à face da Terra”, declara o cineasta. “Mas a partir da história começo a imaginar um universo e uma forma de contar. Começo à procura do que ali pode ser puxado para outro território”.
O realizador, que antes tinha explorado a Amazónia em ‘A Selva’ (2003), aventurou-se pelo drama. As imagens da mulher no aeroporto, dia após dia à espera da filha, servem como separadores. O resto é típico Leonel Vieira – aquele cinema directo, violento, sem concessões, que começou com ‘A Sombra dos Abutres’, em 1998, e que em ‘Zona J’ se converteu num enorme sucesso de bilheteira.
“Gosto de filmes de intriga, urbanos, que falam do lado marginal, do submundo.... Porquê? Não sei. Acho que permite uma linguagem fotográfica própria, inspira-me a fazer planos, acho que as imagens resultam mais fortes. Há pessoas que acham fantástico filmar uma manequim; eu prefiro a parte de trás de uma casa degradada, uma rua com buracos...” Mas casas habitadas por gente, sem elas também não há história: “Cultivo as personagens perdidas, no limite”.
Facto que muito agradou a Joaquim de Almeida. “Tinha vontade de filmar com ele desde ‘O Tempo dos Abutres’”, recorda o realizador. “Quando lhe propus um polícia como o deste filme, que é bom, sensível, cheio de problemas, e que como qualquer ser humano peca pelo sentimento, foi fácil convencê-lo”.
CM VIRA ESTRELA
Já o filme vai a meio quando vemos Joaquim de Almeida (no papel de um inspector) a fazer uma espera. Está no carro e lê... o Correio da Manhã: “Achei que seria o jornal que um inspector da Judiciária estaria mais interessado em ler”, explica Leonel Vieira. “Foi uma escolha por instinto”, remata.
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