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Correio da Manhã

Cultura
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Air muito quente enche Coliseu

Entraram discretos em palco, com a timidez que lhes é reconhecida, mas o Coliseu dos Recreios, apinhado como poucas vezes se viu, recebeu os Air de braços abertos. O intimismo instalou-se bem como uma noção clara de espectáculo sofisticado. Se é certo que não são bichos de palco, sabe-se também que quem vem ver a banda ao vivo só pede entrega. E foi esse presente que os franceses deram.
17 de Janeiro de 2010 às 00:30
Pouco faladores, os músicos franceses conquistaram a multidão que foi ouvir as suas músicas
Pouco faladores, os músicos franceses conquistaram a multidão que foi ouvir as suas músicas FOTO: Sérgio Lemos

Lisboa é a porta de entrada internacional da nova digressão da dupla, depois dos primeiros dias do ano terem sido ocupados em salas francesas. A energia notou-se na postura de Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin, cheios de vontade em mostrar uma veia mais pop, ou seja as canções do último álbum ‘Love 2’. 

A declaração de ‘amor’ em forma de disco foi mesmo o ponto de partida de um serão para fãs, que já não os viam no Coliseu dos Recreios há três anos: ‘Do the Joy’, ‘So Light is Her Football’ e ‘Love’ vieram logo no início do concerto. O espaço dado aos clássicos de uma carreira à beira dos 12 anos chegou pouco depois com ‘Remember’, pérola retirada do melhor trabalho dos Air, ‘Moon Safari’, que foi muito ‘lembrado’ ao longo da jornada melódica.  

Só lá para o meio veio o contacto mais próximo com o público, além dos obrigatórios agradecimentos. Apesar de assumirem não se recordar se a anterior passagem por Lisboa tinha sido há dois ou três anos, os Air redimiram-se ao dizer que “Lisboa é muito doce e as pessoas muito calorosas”. Sobre a única palavra que, além de ‘obrigado’, sabem dizer em português, a resposta foi, no mínimo, delicada: “beijos”. 

Vestidos de branco, Dunckel e Godin mostraram que o seu som é envolvente, mas que também sabe palmilhar o difícil território do concerto acústico, recorrendo, além dos sintetizadores, à guitarra eléctrica e à bateria. Quanto às vozes, foram asseguradas pelos próprios. Apesar de ter faltado o clássico ‘All I Need’, famoso pela colaboração com Beth Hirsch, a dupla impressionou com ‘Venus’, tema que remeteu para ‘Talkie Walkie’. 

De fora ficaram as canções do mal-amado ‘Pocket Symphony’, algo que foi interpretado como um sintoma de que a dupla quer romper com o passo em falso que representou esse disco. Os fãs também não sentiram a sua falta. 

Banda sonora preferida da realizadora de culto Sofia Coppola, os Air lembraram ‘Highschool Lover’, que consta no filme ‘As Virgens Suicidas’. Mais à frente, outro momento memorável: o assobio de ‘Alpha Beta Gaga’, que a banda simplificou dizendo que era um tema “que tanto pode ser cantado em português como em francês”. 

No meio do espectáculo, uma constatação: os Air encontram-se num lugar único em matéria de temporalidade sonora. Tanto parecem adeptos de uma modernidade rítmica, feita de muitos desvios electrónicos, como datados pela omnipresença dos sintetizadores. Além disso, são hábeis a gerir o repertório. Ao deixarem para o fim canções como ‘Sexy Boy’ e ‘La Femme d’Argent’ conseguiram que o público saísse da sala ainda em delírio.

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