Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
2

ALICE VIEIRA: TODA A GENTE ACHA QUE É ESCRITOR

Alice Vieira, escritora e jornalista. Escreveu o primeiro livro em 79 para consumo caseiro. Ele acabou premiado. Ela acabou sem tempo que fosse seu.
19 de Dezembro de 2002 às 00:00
Correio da Manhã - Qual é a história por detrás das recentes “Duas Histórias de Natal” ?

Alice Vieira - É a história de uma encomenda da editora... Fazer histórias de Natal é muito complicado, é terrível mesmo. Fala-se no Menino Jesus e no Pai Natal e pronto, acabou-se, está tudo dito. Eu, confesso, esforço-me sempre imenso por fazer coisas diferentes mas este é um desafio que não é nada fácil. Desta vez, sairam-me duas histórias, ‘Mistério de Natal’ e ‘O Presente de Natal’, sendo a primeira, mais divertida e a segunda, mais ternurenta.

- Escreve exclusivamente para jovens porque...

- Porque gosto! Tenho escrito sempre para os leitores mais jovens e, de entre eles, gosto cada vez mais de escrever para os mais velhinhos mas penso que tudo o que escrevo pode ser lido por todos, independentemente da idade, incluindo os adultos. A partir de uma certa altura, não há muitas fronteiras. Já não gosto tanto é de escrever para os muito, muito pequeninos...

- O imaginário infantil deve ser policiado?

- O mundo não é todo cor-de-rosa e eles vivem nele, sabem disso, de maneira que não vejo razão para evitar seja que assunto for... Outra coisa, completamente diferente, é o terror e isso faz-me muita confusão. Não só nos livros. Temos, por exemplo, os desenhos animados japoneses, pavorosos para todas as idades, com toda aquela carga de violência inútil... De resto, penso que podemos e devemos falar, honestamente, de tudo.

- De que falamos quando falamos de literatura infantil?

- Penso que falamos de coisas muito diferentes conforme as pessoas. Eu, quando falo de literatura juvenil, prefiro chamar-lhe assim, falo de literatura. Ponto final.Trata-se, essencialmente, de uma coisa que eu gosto de fazer mas que me dá muito trabalho e não daria mais se eu fizesse a literatura dita para adultos. Conscientemente, o que faço, pelo menos esforço-me, é literatura... Para os outros, em regra, literatura infantil é o que se faz quando não se sabe fazer outra, à maneira de Eça que achava que essa é uma competência das avós. Mas, comum a todas as literaturas, é o facto de que, hoje em dia, toda a gente acha que é escritor. Não quero com isto dizer que as pessoas não devam escrever. Cabe é às editoras aplicar critérios de selecção, sobretudo quando gozam estatuto de qualidade. É inadmissível que, de vez em quando, descambem mas, enfim, se calhar é o mercado...

- Próximo trabalho?

- Tenho uma colecção de histórias tradicionais portuguesas com doze ou catorze volumes que a editora quer continuar, de maneira que, ainda não escrevi mas tenho de escrever mais duas... Aquilo em que estou a trabalhar, agora e pela primeria vez, é um romance. É o romance de Clara, uma miúda de sete anos, das histórias que lhe acontecem em casa, na escola, com os amigos, os avós , dos problemas do dia-a-dia que é, no fundo, aquilo de que eu gosto de falar. E tem também um lado fantástico que não é muito o meu género mas desta vez... Talvez seja influência da minha neta que tem um caderninho onde anda a esmagar as fadas que ela encontra no jardim!

PERFIL

Alice Vieira, 59 anos, dois filhos, três netos. Formou-se em Germânicas mas nunca quis ser professora apesar de ter como primeiro emprego o ensino. O jornalismo era coisa de homens e o jornalista, “alguém que nunca estava em casa”. A ideia agradava e fez-se a ela: Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias...“O cheiro do chumbo quando entra em nós já não sai”, por isso e ainda hoje, é “uma jornalista que escreve uns livros”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)