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Correio da Manhã

Cultura
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AMAR EM PORTUGUÊS

Quando, no dia 6 de Agosto de 2000, Virgul pisou pela primeira vez o palco do Sudoeste, estava longe de imaginar que, ao tentar uma cambalhota, ia escorregar e fracturar uma perna. Antes de entrar na ambulância pediu aos companheiros que voltassem à cena e dessem um grande concerto.
9 de Agosto de 2004 às 00:00
No final, não fizeram a prometida festa e o cantor acabou por passar parte do dia do seu aniversário no hospital. Sábado, quatro anos depois, de novo aniversariante, viu-se que Virgul entrou em palco para se desforrar, soltar o verbo, entregar-se ao espectáculo como se fosse o último da sua vida, aproveitando para dizer à namorada que a amava e a todos os presentes “para fazerem amor de formas diferentes”.
Mesmo que, como nos confidenciou no final Pacman (o outro vocalista dos Da Weasel), “o concerto não tivesse corrido muito bem, “pois demos alguns ‘pregos’ – leia-se notas fora do lugar –e desafinámos um bocado”, a verdade é que foi com uma banda portuguesa que a Herdade da Casa Branca assistiu aos momentos mais aplaudidos dos três primeiros dias de festival.
Onze anos depois de se terem iniciado nestas andanças – abdicando do inglês para se tornarem na primeira banda nacional a gravar um disco de hip hop, ‘Dou-lhe Com a Alma’ –, os Da Weasel contemplaram-nos com ambientes equilibrados de rock, hip hop, cenas ‘groovy’, ‘beats’ actuais, malhas pesadas, em 24 canções com carisma, vivas como letras que são ‘Pedaços de Arte’, de ‘Essência’, de ‘Paixão’ e ‘Força’.
A noite terminaria, no entanto, sem chama, com a actuação dos Groove Armada que, como alguém dizia, ao contrário de outras bandas presentes – concerteza referindo-se a Zero 7 e Massive Attack –, que “parecem ter um passe vitalício para os festivais portugueses”, nunca nos tinham visitado. Apesar de momentos de algum fulgor como ‘I See You Baby’ ou ‘Purple Haze’, e de personificarem uma cidade que é centro multicultural do mundo por excelência, faltou ao colectivo londrino o brilho que destingue os génios dos esforçados.
SEM CABEÇA
Entre os inúmeros estrangeiros que por aqui se encontram, Manolo Hernandez, de Barcelona, interrogava várias pessoas até que, finalmente, alguém lhe solucionou a dúvida: “Não, o Arthur Lee não está a tocar porque nos EUA não o deixaram embarcar”, afirma a lisboeta Marta Soares, sem disfarçar o orgulho na sua sapiência.
“Pudera, já esteve preso seis anos, quis pôr fogo à casa da namorada e apontou uma arma ao vizinho...”, ilustra para concluir: “Afinal, disse que queria explodir o cérebro de quem o ia ouvir no Sudoeste mas quem parece que tem o cérebro já explodido é ele”...
Mesmo sem o mestre, os Love subiram ao palco com o seu folk acústico misturado com blues-rock eléctrico, pop sinfónico e baladas jazz, cumprindo como se fossem uma espécie de homem sem cabeça. O guitarrista dos irlandeses Ash entrou em palco com a guitarra a arder mas a euforia não viria a ter continuidade. Sem perder a jovialidade e a frescura inerentes, o quarteto tentou contagiar com o seu rock californiano, o que injectou mais potência e densidade ao manifesto pop.
Enquanto alguns degustavam sandes e enalteciam a excelência dos Two Banks of Four - que actuaram à mesma hora dos Da Weasel mas noutro palco -, os britânicos Zero 7 davam um espectáculo com mais soul e menos electrónica, com alguns momentos, como ‘Home’, bonitos mas não mais que isso.
Até ao início da tarde de ontem, o Sudoeste ainda só tinha assistido a dois grandes concertos: os de Franz Ferdinand e Da Weasel que, desta vez, também cantaram o amor. Em português.
MASSAGENS GRATUITAS
“Tira a camisa, agora o cinto, desaperta os botões das calças, deita-te na cama, relaxa”, afirma, serenamente, Joana Godinho. Alto, não é o que estão a pensar. À entrada do recinto do festival, uma tenda oferecia, durante cerca de 10 minutos, o reino da tranquilidade a todos os que por lá passaram. Ao som de uma banda jazz ou de um DJ, e gratuitamente, das 20h00 às 23h00, os festivaleiros puderam receber uma massagem dada por mãos habilidosas. Coube-nos Joana Godinho, 28 anos.
Pergunta-nos se preferimos uma massagem terapêutica, de relaxamento ou oriental. A diferença, diz, está na pressão, na frequência e no tempo. Lentamente, conduz-nos por um mundo de fantasias até que – a realidade por vezes é crua... – termina a sessão.
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