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Correio da Manhã

Cultura
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Aniversário da Praça de Touros do Campo Pequeno

Público não aderiu a festa.
Carlos Anjos 24 de Maio de 2016 às 14:03
Praça de Touros do Campo Pequeno
Praça de Touros do Campo Pequeno FOTO: Pedro Catarino
No dia 19 de maio assinou-se o 10.º aniversário da reinauguração da Praça de Touros do Campo Pequeno. Decidiu e bem a empresa responsável assinalar essa efeméride com o mesmo cartel de há 10 anos. E foi assim que entraram naquela arena os cavaleiros João Moura, António Ribeiro Teles e Rui Fernandes, bem como os forcados de Santarém e de Lisboa, agora capitaneados por Diogo Sepúlveda e Pedro Maria Gomes, e os touros voltaram a vir da Ganadaria Vinhas.

Infelizmente, o público desta vez, por razões várias que não interessa especificar ou detalhar neste momento, não compareceu como há 10 anos. Desta vez, meia casa foi tudo o que este cartel conseguiu levar ao Campo Pequeno.

Muito se falou de minutos silêncio que se deveriam ter feito e não fizeram e de brindes que deveriam ter ocorrido e não ocorreram. Uma discussão estéril e sem razão. Não há dúvida que somos um País demasiado saudosista, demasiado agarrado a um passado nem sempre bom. É esse saudosismo que por vezes emperra o País, impedindo-o de seguir em frente. Neste momento, na festa, deveríamos estar mais preocupados com o futuro, mais preocupados em encontrar caminhos de sustentabilidade da própria festa e não em discutir pequenas questiúnculas do passado e de umbigos. Esse caminho não nos levou a lado nenhum e dificilmente nos levará a algum sitio diferente daquele onde estamos hoje.

Já quanto a brindes, estamos ao mesmo nível da música. Esta é uma consequência da lide e não uma inevitabilidade. Vamos à praça para ver um toureiro tourear e não para ouvir a banda a tocar. A música só deve tocar se a lide atingir patamares de excelência. A música é um prémio. Infelizmente, a música tem deixado de ser um prémio e passou a ser pedida ao segundo ferro. Aqui sem, em prol da verdade da festa, deveríamos pugnar pelo regresso à tradição. O mesmo se passa com os brindes dos toureiros e forcados. O brinde deve ser feito a uma pessoa importante para o toureiro. Ora não é de todo isso que acontece. É ver pedidos de brindes e ver toureiros a dedicar lides a pessoas que não fazem a mais pequena ideia de quem sejam, vendo-os a olhar para as bancadas e a perguntar pela pessoa X. Todos querem aparecer e ficar na fotografia. Falemos então de touros.

Em primeiro lugar falemos dos touros. Um bom curro de touros, sendo de assinalar pela negativa a pouca cara dos mesmos, que em muito dificultou a atuação dos forcados. Mas foram animais bravos, que transmitiam, que corriam atrás dos cavalos e que não permitiam falhas aos toureiros. Mostraram que não é necessário serem grandes e muito pesados para proporcionar boas lides.

Abriu a noite João Moura. Mostrou porque foi a maior figura do toureio a cavalo e porque 40 anos depois de ter tirado a prova de praticante (1976) e 38 anos depois de ter tirado a alternativa (1978) como profissional continua a ser uma figura impar na festa. Hoje com 56 anos, mostrou toda a sua experiência, defendendo-se quando tem de se defender, porque o físico é o que é e atacando sempre que a oportunidade se depara. Foram assim as duas lides de João Moura, ao primeiro e ao quarto da noite. Cravou como se o tempo não tivesse passado, atacou o touro de frente, com a coragem de sempre, cravou de alto a baixo e depois bregou como poucos. No Campo Pequeno voltou a estar a escola mourista, hoje seguida obrigatoriamente por todos aqueles que querem ter sucesso. Uma pequena nota negativa, no facto do excesso de utilização dos seus bandarilheiros para a colocação do touro. Este "desplante" só é permitido a João Moura por ele ter sido quem foi. Mas uma noite muito boa, como há muito não o via fazer.

António Ribeiro Teles lidou o segundo e o quinto toiro da corrida. Lides totalmente diferentes das de João Moura. Dois estilos completamente antagónicos em praça. À revolução "mourista" seguiu-se o toureio clássico e purista de António Ribeiro Teles. Nem um nem outro concederam nada no tipo do seu toureiro. Foram fiéis a eles próprios e isso é algo de grande caracter. António, dentro do seu estilo, esteve enorme no primeiro touro. Fez tudo bem feito. O mesmo se passou no quinto da noite. Citou de praça a praça, atacou o toiro, entrou-lhe pela cara e cravou ao estribo de cima a baixo. Tudo perfeito de acordo com os livros antigos desta "legis arte". Continua a tourear a gosto, ao seu gosto, não concedendo absolutamente nada ao passar dos tempos. Duas boas atuações.

Por fim Rui Fernandes. Para começar, sou sempre parcial, porque sou amigo e admirador dele. Nesta corrida Rui Fernandes também não concedeu absolutamente nada. Foi igual a si próprio. Corajoso, toureiro, um toureiro de tudo ou nada. Ninguém fica indiferente às suas lides. Rui Fernandes arrisca sempre tudo, arrisca mesmo para lá do desejável. Com ele em praça estamos sempre à espera ou do triunfo absoluto, dos ferros impossíveis – mas impossíveis mesmo – ou da tragédia. Rui Fernandes entra em praça e a emoção sobe a níveis brutais. E como sempre, quando a cabeça esquenta, Rui torna-se polémico e por norma perde a razão, mesmo quando a tem. Não pode protestar da forma que protesta.

E foi isso que aconteceu. No terceiro da noite, o pior toiro da corrida, um toiro muito reservado e muito complicado, Rui esteve sério, lidou com enorme seriedade, tendo posto tudo em praça, num toiro que se recusou a colaborar e que não punha nada. Neste toiro, apercebendo-se do que tinha pela frente ou do que não tinha, vimos um Rui Fernandes lidador, compenetrado no que tinha a fazer e fez tudo bem. Uma boa atuação. No sexto e último da corrida, a cara de Rui Fernandes quando saiu pela porta dos cavalos dizia tudo; vinha para comer a corrida. Recebeu o toiro à porta gaiola, cravando um excelente ferro, o melhor comprido da noite. Não escandalizaria que o Diretor Tiago Tavares lhe tivesse concedido música neste toiro. O primeiro curto é também ele um bom ferro e previu-se uma lide de êxito. Rui tentou dois ferros com batida ao piton contrário, não conseguindo reunir porque o toiro saiu demasiado solto. Os assobios começaram e Rui acabou por colocar um curto perfeitamente normal. Troca de montada e crava um curto soberbo, com batida ao piton contrário. Entre o touro e o cavalo não cabia um cabelo no momento da reunião. O Campo Pequeno levantou-se. Era o ferro da noite. Mas a música voltou a não tocar e o ferro que se seguiu ia sendo de tragédia. Ainda hoje ninguém sabe por onde passou o cavalo e o touro. E aqui entra o feitio de Rui Fernandes. Ele queria música e o diretor de corrida não lha concedia. Tiago Tavares parecia exigir pelo menos dois ferros seguidos devidamente colocados e Rui teimava no melhor e depois na fraco. E Tiago Tavares não foi coerente depois ao mandar tocar a música quando o toureiro se ia embora, aumentado a ira de Rui Fernandes. Rui troca de cavalo e crava um enorme par de bandarilhas.

Assim foi a lide de Rui Fernandes, onde esteve o sucesso e a emoção dos dois melhores ferros da noite do Campo Pequeno, os únicos que fizeram o público saltar das cadeiras, mas também esteve o insucesso. Mas Rui Fernandes é assim. Carne toda no assador e emoção ao máximo.
Mas não tinha necessidade de protestar e acima de tudo de protestar daquela forma. Quando se protesta assim, por muita razão que lhe assistisse, perde a razão. Um toureiro tem de cumprir as ordens do Diretor de Corrida. Não pode protestar no "ruedo". Quando o faz coloca a autoridade do Estado em causa, porque o Diretor de Corrida representa o Estado na praça. Quando se protesta daquela forma perde-se a razão. Por muitos erros de avaliação que tivesse cometido, Tiago Tavares não merecia aquela forma de protesto e por isso deveria ter reagido duramente e não reagiu, esse foi o seu maior erro.

Trabalho muito difícil e duro para os forcados. Na última pega em Lisboa, antes de abandonar a liderança da rapaziada de Santarém, esse enorme forcado que é Diogo Sepúlveda, merecia outro resultado. Pegou à quarta tentativa um toiro complicado, com pouca córnea e que por isso dificultava o trabalho do forcado que, fechando-se à córnea, faltava-lhe matéria para firmar os braços, um toiro que metia a cabeça muito baixa, o que dificulta sempre e muito a vida aos forcados, com os ajudas a não perceberem isso e a caírem em cima do forcado, ajudando eles próprios com a ânsia de consumar a pega a tirar o forcado da cara do touro.
Para a cara do terceiro e por Santarém saiu o forcado Lourenço Ribeiro, que fez um pegão à primeira tentativa, a um toiro que entrou pelo grupo dentro, com o forcado fechado que nem uma lapa.

Para o quinto da noite, ainda por Santarém, saiu o forcado João Brito, que à primeira tentativa, alapando-se verdadeiramente na cara do toiro, dizendo-lhe que dali só sairia quando ele quisesse, com o grupo a fechar bem.

Por Lisboa, o panorama foi em tudo igual. Para a cara do segundo da noite, primeiro do grupo, foi o cabo Pedro Maria Gomes. Pegou à quarta tentativa um toiro onde o grupo complicou o que até nem parecia difícil. Neste caso, mais do que o toiro, foi o grupo que não esteve bem.

Para o quarto da noite saiu o forcado Manuel Guerreiro, que com técnica mandou na pega desde o princípio ao fim. Citou como devia ser, carregou quando entendeu e fechou-se bem na cara do toiro, aguentando os derrotes do mesmo com o grupo a fechar. Uma excelente pega.
No sexto e último da corrida, o forcado Pedro Gil fechou a noite com uma rija pega, também à primeira tentativa, onde tudo foi feito com perfeição. No fundo, uma boa noite de touros que merecia mais público.
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