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Correio da Manhã

Cultura
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Aprender a dizer o "não"

Luís Miguel Cintra mostra peça de reflexão sobre o poder democrático.
2 de Maio de 2014 às 14:00
Luísa Cruz é uma das protagonistas da peça
Luísa Cruz é uma das protagonistas da peça FOTO: Direitos Reservados

No palco do Teatro Municipal São Luiz (TMSL), em Lisboa, tendo como pano de fundo um tecido verde e vermelho (alusão à bandeira nacional), Luís Miguel Cintra diz, citando Pasolini, que quando os governantes nos propõem recuos civilizacionais, devemos dizer "não". No mesmo palco, faz nos ainda ouvir, em silêncio, uma canção de José Afonso. E a que propósito o faz?

A propósito da peça ‘Íon’, de Eurípides, que está a apresentar até dia 4 de maio na Sala Principal e que o TMSL inclui nas celebrações dos 40 anos do 25 de Abril de 1974.

E, no entanto, o encenador refere que este não é um espetáculo de intervenção, mas antes de "reflexão". O texto, traduzido por Frederico Lourenço, conta a história de uma mulher que tenta matar o filho ilegítimo duas vezes – em bebé e já adulto – e que falha ambas, por intervenção divina.

Mas além da intriga familiar, Cintra diz ter reconhecido no clássico "instrumentos arqueológicos" que nos permitem interpretar o mundo de hoje. Sobretudo a democracia e os seus problemas de funcionamento.

O herói da peça, Íon, é convidado para assumir poder na cidade de Atenas e Cintra explica que ele "será trucidado, na sua inocência". "Em 40 anos de democracia, nunca vi ninguém ter chegado ao poder e sair de lá como vencedor", afirma Luís Miguel Cintra, que admite que os 40 anos depois da revolução foram "uma deceção no que diz respeito à condução da política".

"Quem aceita fazer parte da democracia, tem de mentir. Ou então recusa-se a participar", comenta Cintra, para quem esse é o núcleo da peça. "Obter um lugar de poder é a situação mais trágica que pode acontecer a alguém."

aprender dizer não
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