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Correio da Manhã

Cultura
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ARRANQUE MORNO

Porque quinta-feira era dia de recepção ao campista, o Festival do Sudoeste começou morno. Quando Rodrigo Leão entrou em cena, o povo estava sereno, muita gente esticada na relva, outros balançando o corpo, a maioria sentada.
7 de Agosto de 2004 às 00:00
Neil Hannon deixou transparecer a sua personalidade rebelde
Neil Hannon deixou transparecer a sua personalidade rebelde FOTO: J. M. Simões
Acompanhado ora pela vocalista dos Gift, Sónia Tavares, ora por Ana Vieira, que alternaram vozes em diferentes idiomas, o concerto incidiu no seu novo disco, ‘Cinema’, sentindo-se uma certa falta da voz de Beth Gibbons, da doce melodia de ‘António’, interpretada por Sakamoto, da brasileira Rosa Passos, da sensualidade de Helena Noguerra.
Manteve-se, no entanto, o apelo das imagens, como se de uma banda sonora se tratasse, a chama discreta da bossa nova, as cordas e os teclados em sintonia, um toque de valsa outro de pop. No final ficou um travo a melancolia misturado com uma leve decepção.
SÍNDROMA DE VARIAÇÕES
Neil Hannon, a face visível dos Divine Comedy, não aprecia a fama, nunca gostou de ser reconhecido por possuir uma inconfundível imagem de marca. No segundo concerto da noite, ele voltou a deixar transparecer o seu espírito ‘avant-garde’, personalidade carismática, rebelde e algo desajustada do tempo e da realidade, mas nunca conseguiu criar grande empatia com a plateia. Entrou com dois copos de cerveja preta na mão, fumou cigarros – coisa rara –, elogiou os atributos de uma menina em dia de aniversário e pediu para que ninguém contasse à sua mulher.
A sua voz possui ainda uma estranha religiosidade, provavelmente herdada do pai, diácono, interpretando letras que, tal como ele mesmo afirma, “contam histórias que utilizam personagens dentro do vasto tema de vir, ir e não ter bem a certeza onde queremos estar”.
A sonoridade, contudo, mudou de orientação – mais intensamente sentida em ‘National Express’ e ‘Generation Sex’ – tomando um rumo que indicia uma opção estética que descaracteriza o som do próprio grupo, agora com menos brilho e intensidade.
Um grupo de jovens que partilhavam um copo de cerveja lamentavam que a música não os fizesse mexer, entretendo-se a contar histórias familiares: “O meu tio, alentejano, morreu aos três anos com uma doença conhecida por cesões, apanhada no leite de uma cabra febril que o alimentava”. O outro, com um sorriso cínico, responde que, “com aquela pele de bebé e pálido como está, se calhar este (Neil Hannon) também apanhou essa doença”.
PERCALÇOS
Como os Soulwax, liderados pelos irmãos Stephen e David Dewale, não fizeram ‘check sound’, o concerto começou com meia hora de atraso e com alguns percalços. Com guitarras ruidosas, mistura de rock áspero com desvios electrónicos e ritmos inspirados na música de dança, faltou ali a voz da japonesa Nancy Whang, mais estrada – há muito que a banda não tocava ao vivo – e mais ensaios.
No final da noite, o comentário de um jovem com sotaque do Porto era elucidativo: “Estes gajos vêm para aqui sem terem os instrumentos afinados, tocam dez ou 11 canções, não fazem ‘encore’ e, de repente, desaparecem da nossa vista”.
ZAMBUZEIRA NA EXPECTATIVA
A organização do Festival estimava que estivessem dez mil pessoas acampadas e entre 25 e 30 mil no recinto – agora com menos pó e mais relva – mas a verdade é que as perspectivas mais optimistas apontavam para um número, ainda assim, abaixo de 20 mil.
Quinta-feira à tarde, o ambiente na Zambujeira do Mar era tranquilo, com os habitantes a estranharem a falta de movimento nas ruas da aldeia que, noutros anos por esta altura, abarrotava de gente. D. Maria da Graça, comerciante, espera que durante o fim-de-semana cheguem mais festivaleiros, mas aponta o dedo “ao dinheiro caro, ao excesso de festivais, ao Euro e, pelo que tenho ouvido dizer, ao cartaz deste ano que é mais fraco” para justificar a fraca afluência registada no primeiro dia do maior acontecimento de massas do Alentejo.
No posto de Turismo local, “que este ano está quase às moscas”, uma senhora que pede anonimato, aponta um outro motivo: “É que disseram que o festival ia ser transferido para Sagres e muita gente desistiu de vir”.
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