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Correio da Manhã

Cultura
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Arranque morno nas ruas

Os turistas estrangeiros que visitaram ontem a ‘baixa’ de Faro, foram surpreendidos pela actuação de centenas de artistas distribuídos por diferentes espectáculos de rua, gratuitos, com os quais arrancou a iniciativa Capital Nacional da Cultura 2005. Concentrada nas ruas do centro da cidade e no Jardim Manuel Bívar, a animação agradou aos turistas, mas foi ignorada pela população local, que revelou um desconhecimento quase total do evento.
1 de Maio de 2005 às 00:00
A 'baixa' de Faro encheu-se de espectáculos de rua para todos os gostos
A 'baixa' de Faro encheu-se de espectáculos de rua para todos os gostos FOTO: Carlos Almeida
A deficiente informação relacionada com um acontecimento cultural que nasceu torto devido à substituição do primeiro comissário e dos sucessivos ajustes orçamentais, terá contribuído para que a sua preparação e a divulgação surgisse em cima da hora, gerando, assim, algumas preocupações quanto à adesão do público até ao final do ano, uma vez que o prolongamento da programação para 2006 “ainda está em estudo”, conforme revelou ontem a ministra da Cultura.
Isabel Pires de Lima, que assistiu ao concerto inaugural pela Orquestra Internacional do Algarve no Grande Auditório de Gambelas, adiantou que, no segundo semestre deste ano, a região receberá a Convenção Cultural Europeia, que reunirá 200 personalidades ligadas à cultura, entre as quais 50 ministros da pasta, de forma a reforçar e dar maior visibilidade à iniciativa.
“Passei por aqui ocasionalmente e fiquei surpreendido. Embora já tivesse ouvido falar no evento não fazia ideia de que hoje havia espectáculos de rua e gratuitos”, confessou ao CM João Santos, um reformado que se manifestou “encantado” com a actuação do Coral Ossónoba na Porta do Arco da Vila. Um espectáculo com uma sonoridade especial que merecia mais do que a assistência de cerca de três dezenas de pessoas apanhadas desprevenidas.
Ao ritmo dos espectáculos surgiram as críticas, disparadas de vários quadrantes. Durante a inauguração, o presidente da Câmara Municipal de Faro, José Vitorino, mostrou-se satisfeito pelo facto da cidade ter “ganho a candidatura a outras três capitais de distrito”, mas fez questão de salientar a necessidade do modelo da iniciativa ser alterado: “Houve dificuldade em ultrapassar questões que já se tinham manifestado em Coimbra, por isso julgo que a organização de um evento desta natureza exige pelo menos dois anos”, referiu.
Indiferente à polémica, o comissário António Rosa Mendes considerou que o evento “está nos antípodas dos olhares parados, pois quer ser crítico e promover o debate de ideias”, para além de “contribuir para o progresso económico e social do Algarve”.
CONVITE POR BALÃO
Ricardo Moreira, aluno do 6.º ano da Escola E.B. 2.3 Santo António, em Faro, foi um entre muitos jovens daquele estabelecimento de ensino que ontem ‘abriu’ a Faro Capital Nacional da Cultura 2005.
Ao meio-dia, largaram centenas de balões no recinto da escola, onde prenderam convites elaborados durante as aulas, com poemas de autores algarvios. Uma forma simbólica de informar e convidar a população a participar no evento: “Desde o início do ano lectivo, no âmbito da disciplina da Área-Projecto, fizemos uma pesquisa de poetas algarvios para este efeito”, explicou ao CM Ricardo Moreira que, desta forma, descobriu António Aleixo: “Os seus poemas são giros. Versam temas que nos ajudam a perceber melhor os outros e a ajudar quem precisa de nós”, acrescentou o jovem de 12 anos, que escolheu um dos poemas do autor nascido em Vila Real de Santo António para ilustrar o seu convite – “Não há nenhum milionário/que seja feliz como eu/tenho como secretário/um professor do liceu”.
Esta evocação de António Aleixo ao professor Joaquim Magalhães, que estudou e divulgou a sua obra, foi ontem para os ares do Algarve, convidando à participação nas iniciativas de ‘Faro Capital Nacional da Cultura 2005’. “Só espero que este nosso trabalho seja escutado, pois gostaríamos que o evento ajudasse a melhorar a cultura na nossa cidade”, concluiu Ricardo Moreira.
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