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Correio da Manhã

Cultura
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ARTE DA LACA NO MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA

O ponto de partida para esta colecção que agora se mostra ao público foi uma visita de descoberta feita à Birmânia pelo seu coleccionador, Francisco Capelo, e o processo de revelação que então teve de uma arte e de uma cultura.
5 de Julho de 2004 às 16:55
“Esta colecção nasceu do desejo de não mais coleccionar e foi esse não-desejo que permitiu que o acaso acontecesse, deixando surgir uma nova paixão, fazendo a descoberta de uma arte outra que faz e desfaz o nosso sentir de ocidentais”, escreve Francisco Capelo no texto do catálogo que acompanha a exposição.
Foi este o contraditório ponto de arranque para uma colecção de objectos que, reunindo diversas tipologias, permite uma visão abrangente sobre a utilização da arte da laca numa área específica do sudeste Asiático.
Técnica conhecida e utilizada em diversas regiões do Oriente desde tempos imemoriais, os objectos lacados subsistem até aos nossos dias, com múltiplas funções, feitos a partir de estruturas em bambu, madeira ou outros materiais. Resistente à água, a laca reforça e preserva as superfícies sobre as quais é aplicada, qualidade protectora apreciável numa zona onde o clima é quente e de grande humidade. O uso da laca para protecção dos objectos antecede assim, a sua utilização para efeitos decorativos.
Produzida a partir da resina de uma árvore, a sua cor natural é o preto, adquirindo outras cores - vermelhos, amarelos, azuis ou verdes - quando lhe são adicionados pigmentos. Ao longo dos séculos foram-se desenvolvendo diversas técnicas decorativas que transformaram simples objectos do quotidiano em magníficas peças que aliando depuradas formas à sedução do brilho da laca nos envolvem no seu fascínio.
Em termos históricos, a deportação em massa no final do século XVIII das elites do Sião, dos seus artistas e artesãos influenciou e alterou as técnicas, gostos e cultura na Birmânia. É neste período que as técnicas da decoração a ouro de superfícies lacadas, de incisão da laca para posterior revestimento de pigmentos, de molde a fazer ressaltar o desenho originalmente gravado a estilete, terão sido introduzidas e popularizadas.
Daqui resultou o surgimento de quatro tipos diferentes de técnicas decorativas da laca praticadas na Birmânia, algumas das quais podendo coexistir combinadas num mesmo objecto.
Ao contrário desta, a arte da laca na Tailândia deixou há muito de servir para fazer os objectos usados pelas populações no seu quotidiano. Porém, é sensível a influência que a arte da laca praticada nesta região teve sobre a da Birmânia, o que levou a incluir um conjunto representativo de objectos provenientes da Tailândia.
Ao longo do século XIX e XX, o gosto colonial contribuiu para uma alteração dos padrões estilísticos, com a introdução gradual de uma noção de espaço, a instalação da perspectiva, e uma definição entre motivos e cenas e o quadro onde estas se inserem, capaz de facilitar a respectiva leitura.
Através de 169 peças de tipologia variada, a exposição permite-nos acompanhar as diferentes categorias de objectos, tipos de técnicas e padrões decorativos, abordando esta fascinante arte milenar que nos últimos dois séculos conseguiu aliar a tradição à assimilação de novos elementos, estendendo o seu encantamento sobre o nosso “sentir de ocidentais”.
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