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Correio da Manhã

Cultura
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ARTISTA QUEIXA-SE DE CENSURA

A Câmara Municipal de Évora mandou encerrar uma exposição de artes plásticas no dia seguinte à sua inauguração, na Igreja de S. Vicente. O autor dos trabalhos vai agora instaurar um processo contra a autarquia por censura e um outro contra o seu professor, por coacção.
25 de Maio de 2003 às 00:00
A causa deste encerramento polémico prende-se com o facto de Roberto Lopes, finalista do curso de Artes Plásticas da Universidade de Évora, e autor dos trabalhos, “ter exposto uma série de obras que a autarquia considera que ferem a sensibilidade religiosa, não obstante ter sido previamente avisado de que aquele templo está aberto ao culto e, também, da existência de um acordo entre a autarquia e o arcebispado para que o mesmo seja utilizado para fins culturais desde que não fira a sensibilidade religiosa”, como explicou ao CM Luís Maneta, assessor do presidente.
Uma figura feminina nua no interior de uma caixa com as pernas abertas e um tampão na vagina, legendada como Santa Teresa, é um dos trabalhos que a muitos poderá chocar. Também uma imagem de Santa Paula, deitada, com uma flor de açúcar no ventre e uma fotografia do próprio autor nu, mostrando o pénis erecto, por certo chocaram aqueles que tomaram a decisão.
Confrontado com estes trabalhos, o aluno explica a inocência da sua obra: “É preciso ser muito mau para ver maldade no meu trabalho. Pelo uso dos materiais, pelas cores, é possível ver que as imagens são inocentes”.
OUTRO ESPAÇO
Apesar das portas terem sido fechadas um dia após a “vernissage”, na qual estiveram cerca de 100 convidados, a autarquia mostra-se disponível para ceder outro local para que esta exposição, intitulada “Fénix Renascida das Cinzas”, possa ser apreciada.
Roberto Lopes nem quer ouvir falar em mais trabalho com a câmara e está disposto a colocar um processo contra a mesma por aquilo que denomina de “censura”. Espantado, o assessor do presidente afirma que foi o próprio artista que, no dia seguinte à inauguração, entregou, durante uma reunião na autarquia, uma carta em que pedia desculpa pelo sucedido e ficou de pensar noutro espaço.
No meio desta polémica está também o professor do “workshop” sobre arte sacra, no âmbito do qual foi realizado o trabalho. Francis Tondeur não concordou com a apresentação das peças sem que tivessem sido tomadas precauções por ele dadas e, no dia seguinte, na referida reunião, entregou ao seu aluno a tal carta de desculpas para que ele a assinasse. Roberto fê-lo, mas afirma que foi sob coacção. Por essa razão vai também processar o professor.
'ELE ESTÁ A FAZER PUBLICIDADE'
Francis Tondeur, o professor que orientou o trabalho do jovem finalista, afirma estar “muito triste” com o desenrolar dos acontecimentos e nega a acusação que o seu aluno lhe dirige.
“Em minha opinião, com esta polémica ele está a fazer publicidade ao seu trabalho”, defende, acrescentando que Roberto sabe bem que assinou a carta de desculpas que ele lhe deu aquando da reunião na autarquia porque quis e nada mais. “Não houve qualquer forma de coacção”, garante.
Desagradado com o que viu foi como ficou Francis Tondeur quando verificou, durante a “vernissage”, que o seu aluno não tinha alterado as legendas, tal como ele lhe tinha sugerido, referindo que se tratavam de imagens profanas. “Se ele o tivesse feito, as portas não teriam sido fechadas”, desabafou.
Contra esta ideia, Roberto Lopes acha que a mesma alteraria o conteúdo do trabalho e acrescenta que, fora da escola, é ele que responde pela sua arte.
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