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Correio da Manhã

Cultura

“As pessoas sentem-se abandonadas por quem as governa”

CM entrevistou João Pedro Rodrigues em Toronto, Canadá
19 de Setembro de 2013 às 15:22
João Pedro Rodrigues: "Curiosamente, num ano em que se não quase não houve cinema em Portugal eu fiz muitos filmes"
João Pedro Rodrigues: 'Curiosamente, num ano em que se não quase não houve cinema em Portugal eu fiz muitos filmes' FOTO: D.R.

João Pedro Rodrigues está em grande. Depois da curta de 90 segundos exibida no festival de Veneza, dentro do projeto ‘Venice 70: Future Reloaded’, intitulado ‘Allegoria della Prudenza’, mostrou em Toronto ‘O Corpo de Afonso’, um outro filme em formato curto. Entretanto, em novembro irá com o parceiro João Rui Guerra da Mata à Coreia do Sul apresentar uma instalação sobre a curta ‘Manhã de Santo António’. Isto antes de começar a rodagem da longa ‘O Ornitólogo’.

Correio da Manhã – Ainda antes de Toronto, exibiu uma curta no festival de Veneza...

João Pedro Rodrigues – Sim, foi uma encomenda do festival para fazer um filme entre um minuto e um minuto em meio. Foi filmado entre o Japão e Ovar.

- Como descreveria este filme, ‘Allegoria della Prudenza’?

- É um filme que é também uma homenagem ao Paulo Rocha. Como eu não estava em Portugal quando ele morreu, decidi dedicar-lhe este filme. É um filme sobre o realizador japonês Mizoguchi, que está enterrado em túmulos diferentes: um em Kyoto e outro em Tóquio. Imaginei uma espécie de terceiro túmulo, o do Paulo Rocha, como se fizesse parte desse mesmo corpo. Por outro lado, o filme começa com uma ligação a Veneza. Quando era miúdo, fiz uma viagem a Veneza, e uma das coisas que vi foi uma pintura do Ticiano. Um dos quadros dele, que está em Londres, é precisamente ‘Allegoria della Prudenza’, formado por três cabeças, um jovem, um homem maduro e um velho, que é um auto retrato do pintor. Foi aqui que me lembrei desse corpo tríplice, os dois túmulos do Mizoguchi e o do Paulo Rocha.

- A curta que traz a Toronto é ‘O Corpo de Afonso’. Existe alguma ligação?

- Existe, porque é também sobre um túmulo. Quando o João Lopes me convidou para fazer um filme para Guimarães Capital da Cultura, lembrei-me que uma investigadora tinha desejado abrir o túmulo de D. Afonso Henriques no mosteiro de Santa Clara. Mas no último momento não a deixaram. Há então o lado de não revelar a lenda, não desmistificar. Surgiu-me então a ideia: como seria o corpo do nosso primeiro rei? Li as descrições antigas e achei que deveria procurar este corpo na Galiza, pois na altura ainda não existia Portugal.

- Porquê a ideia de tornar o filme num casting?

- Porque é um corpo impossível de retratar e porque é também uma amálgama de vários corpos.

- O que descobriu nesse casting?

- Tinha várias perguntas-tipo que fazia, mas descobri que várias pessoas falavam na falta de emprego e no desemprego. Muitos apareceram no casting porque procuravam trabalho. Eu não estava à espera disso, mas tornou-se num retrato do que se está a passar agora em Portugal. Eu sabia que não iria encontrar o rei de Portugal, mas encontrei várias histórias individuais. No fundo, as pessoas sentem-se abandonadas por quem as governa.

- É o que se passa em Portugal...

- As pessoas estão alheadas da política, mas não é de agora. Mudam os políticos mas as coisas mantém-se na mesma.

- Ultimamente, tem feito várias curtas, como ‘Mahjong’. São curtas porque não há dinheiro para longas?

- Não. Curiosamente, num ano em que se não quase não houve cinema em Portugal eu fiz muitos filmes. No entanto, o ‘Mahjong’, que fiz para o festival de Vila do Conde, e ‘O Corpo de Afonso’, foram encomendas. À partida, não os teria feito se não tivessem sido encomendados. E tenho uma longa aprovada pelo ICA há dois anos. Só não a pude fazer porque os financiamentos estavam congelados. Para além de não gostar de estar parado, estas curtas permitem-me experimentar várias coisas.

- No ano passado, apresentou ‘Manhã de Santo António’...

- Sim, em Cannes. Curiosamente, eu e o João Rui fomos convidados para fazer uma exposição com esse filme na Coreia do Sul, em novembro, durante dois meses. Peguei no ‘Manhã de Santo António’ e fiz outra montagem, transformando-o numa instalação. Será o meu primeiro trabalho para um museu. O filme tem um lado mais abstrato, que se adequa a esse ambiente. A ideia será ligar a minha instalação com os desenhos do João Rui.

- Quando começará a rodagem de ‘O Ornitólogo’?

- Estamos em plena pré-produção, a procurar os locais de filmagem e a fazer o casting.

- Qual é a história de ‘O Ornitólogo’? Sei que tem um lado pessoal...

- Sim, eu era ornitólogo quando era miúdo e estudei biologia antes do cinema. Nesse sentido, é um regresso às minhas origens. A história é sobre um ornitólogo que viaja pela natureza, e se descobre a si próprio. Ao longo do caminho, irá encontrar outras personagens que o irão afetar.

- Onde irá decorrer a rodagem?

- O filme será todo rodado em Trás-os-Montes, onde a natureza é avassaladora. Por outro lado, tinha vontade de sair da cidade. É um filme todo passado em exteriores. A minha ideia é fazer um filme em película e em cinemascope.

- Quando começará a rodagem?

- Gostava que fosse em abril.

- Só para terminar, existe alguma ave com a qual se identifique?

- Por acaso há um animal com o qual me identifico e que tem neste filme algum peso. A cegonha preta. É uma ave mais solitária, que vive sozinha com um casal, e que são muito emblemáticas dessas paisagens do Douro internacional.

- Será este o filme mais pessoal da sua carreira?

- Acho que todos os filmes são pessoais. É difícil fazer cinema ou outra atividade artística sem pensarmos em nós próprios. O que eu tenho feito é pensar em mim através de outros personagens. Os meus filmes não são autobiográficos.

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