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Correio da Manhã

Cultura
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Assaltar um banco à maneira nova-iorquina

O detective Frazier (Denzel Washington) fala ao líder dos assaltantes do banco: “Tu viste ‘Um Dia de Cão’. Estás a empatar.” No contexto, significa “estás a tentar ganhar tempo e eu não sei porquê.”
15 de Abril de 2006 às 00:00
Willem Dafoe e Denzel Washington numa sequência de ‘Infiltrado’
Willem Dafoe e Denzel Washington numa sequência de ‘Infiltrado’ FOTO: David Lee
Spike Lee também parece estar a empatar a sua carreira com um filme de subgénero (assalto a bancos), mas é uma abordagem demasiado leviana. O que o realizador fez foi revitalizar o tema.
A referência à obra (1975) de Sidney Lumet não podia ser mais apropriada. Al Pacino, como Sonny Wortzik, um homem desesperado para pagar a operação de mudança de sexo do seu amante, resolve assaltar um banco em Brooklyn, a zona de Nova Iorque onde cresceu Spike Lee. A situação evolui para a tomada de reféns e o cerco da polícia, como acontece em ‘Infiltrado’.
O cinema há muito que se fascinou por assaltos a bancos, mas a maior inspiração sempre veio da realidade, casos de ‘Um Dia de Cão’, ‘The Great St. Louis Bank Robbery’ (1959) ou ‘Bonnie e Clyde’ (1967). Mas nem sempre se glorificaram os actos falhados.
A ideia de um assalto profissional, tecnicamente irrepreensível, ambicioso, baseado num plano inteligente, disfarces, bom ‘timing’ e uma fuga limpa fascina os escritores. ‘Infiltrado’ está, pois, na categoria de ‘Um Assalto Genial’ (1990).
Alguns géneros cinematográficos populares no século XX tornaram-se obsoletos devido ao avanço da tecnologia e à simples evolução dos tempos. Não se fazem musicais sobre dança moderna, por exemplo. Da mesma forma, é difícil congeminar um filme sobre assalto a um banco sem se entrar no mundo da ‘inteligência online’, como acontece em ‘Firewall’, a estrear na próxima quinta-feira em Portugal, em que um grupo de vilões ultramodernos usa telemóveis e computadores para ameaçar um decrépito Harrison Ford. Já não há explosivos, máscaras, nem o tradicional ‘mãos ao ar, isto é um assalto.’
Spike Lee opta pela tradição. Os ‘gadgets’ são reduzidos ao mínimo (diferente do roubo do casino em ‘Ocean’s Twelve’) e o mais importante são as pessoas, a forma como se relacionam. Os reféns são uma fatia da massa popular nova-iorquina e o pavor que sentem por terem armas apontadas à cabeça é convincente, numa espécie de metáfora para o pós-11 de Setembro.
Sim, é um filme de assalto a banco. Especificamente, é um filme de assalto a um banco de Nova Iorque. Mas podemos ir mais fundo: é um filme de assalto a um banco de Nova Iorque feito por Spike Lee. Como Scorsese, Lumet ou Woody Allen, é, na essência, um realizador nova-iorquino. A cidade não é apenas um local, mas também uma personagem.
DE ATLANTA À 'BIG APPLE'
Nova Iorque, sempre Nova Iorque. Qualquer espectador mais distraído diria que Spike Lee nasceu na cidade onde vive e que não se farta de retratar no cinema. Mas Shelton Jackson Lee, nascido a 20 de Março de 1957, é filho de Atlanta. No entanto, mudou-se com a família para Brooklyn era ainda criança.
O pai, Bill Lee, toca jazz e amiúde trata da música para os filmes do filho, um admirador confesso de Martin Scorsese, outro realizador novaiorquino, e dos NY Knicks, equipa de basquetebol. Sentado junto à linha lateral, bastas vezes é o primeiro adepto a chatear os adversários. Também gosta de futebol, sobretudo do Inter de Milão e Arsenal.
QUARTO ENCONTRO
Os afro-americanos dificilmente poderiam encontrar um melhor duo de ícones. Spike Lee, realizador, e Denzel Washington, actor, cada um, à sua maneira, porta-estandartes da luta pela justiça racial nos EUA. Esta é a quarta vez que se unem no cinema.
O primeiro encontro aconteceu em ‘Mo’ Better Blues’ (1990), depois do segundo ter lançado a carreira ao ganhar o Óscar para actor secundário em ‘Tempos de Glória’. Seguiu-se o mais ambicioso ‘Malcom X’ (1992), que valeu a Spike Lee ameaças de morte da parte da Nação do Islão, e ‘Tudo em Jogo’ (1998), filme que passou directo ao mercado de vídeo em Portugal.
O SOCIAL PRESENTE
Um filme de Spike Lee sobre um assalto a um banco? Mas onde está a temática social? Dissimulada, por vezes – como na frase “We will never forget”, repetida em três cores, vermelho, branco e azul, formando o que aparenta ser a bandeira norte-americana –, directa noutras ocasiões, como a rábula do indiano (Sikh) que é confundido com um terrorista árabe só porque usa um turbante na cabeça.
Ao queixar-se da forma como costuma ser tratado, especialmente em aeroportos, Frazier (Denzel Washington) responde-lhe: “Sim, mas aposto como consegues apanhar um táxi”, numa alusão aos taxistas indianos de Nova Iorque. Spike Lee não dorme em serviço…
FOCADO
É um filme comercial de subgénero, ou seja, de assalto a banco, mas a realização de Spike Lee tem momentos inspirados e nunca cai no estereótipo. Se não dermos muita importância ao conteúdo do cofre, evitaremos alguma desilusão pelo argumento e aproveitaremos os pormenores e Denzel Washington, um actor que não sabe ficar mal na fotografia.
DESFOCADO
O argumento tenta surpreender, sobretudo no ‘como’, mas basta ter um pouco de imaginação para se apanhar o fio à meada. O final alonga-se em jeito de anticlímax, tendo em conta o que o resto do filme construiu. Jodie Foster tem demasiado estatuto para uma personagem sobrevalorizada e inócua. Clive Owen nunca nos convence de que pode ser um vilão.
FICHA TÉCNICA
Título original: ‘Inside Man’
Realizador: Spike Lee (foto)
Argumento: Russell Gewirtz
Intérpretes: Denzel Washington (Frazier), Clive Owen (Dalton), Jodie Foster (Madeline), Christopher Plummer (Arthur), Willem Dafoe (Cap. Darius)
CÂMARA OCULTA
Podem-se descobrir duas referências a ‘Não Dês Bronca’ (1989). A pizza entregue aos reféns é da Sal’s Pizzeria e o personagem de Denzel Washington diz uma frase do filme.
ONDE VER
LISBOA – Amoreiras, Colombo, Vasco da Gama, Twin Towers, Fonte Nova, Millenium Alvaláxia, Londres, Monumental, Olivais, El Corte Inglés
FARO – Fórum Algarve
PORTO – Cidade do Porto, Dolce Vita, Norteshopping, Gaiashopping, AMC
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