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Correio da Manhã

Cultura
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Beauvoir à beira do divórcio

'Mal-entendido em Moscovo' é um lançamento da Quetzal.
A.M.R. 17 de Janeiro de 2015 às 12:00
Pormenor da capa do livro, lançado este mês
Pormenor da capa do livro, lançado este mês FOTO: D.R.

Quem conhece minimamente a biografia de Simone de Beauvoir sabe que decalcou, para os textos literários, as suas próprias experiências de vida, ao ponto de ser acusada pelos amigos de usar abusivamente de memórias comuns. Em ‘Mal-entendido em Moscovo’, novela que a Quetzal acaba de lançar no mercado, o leitor saberá ler na personagem ‘André’ o alter-ego de Jean-Paul Sartre e em ‘Nicole’ o da própria Beauvoir. É com essas premissas que se lê o livro.

A história resume-se em poucas palavras: André e Nicole deslocam-se, no final da década de 60, à União Soviética, para visitar Macha, filha do primeiro casamento dele. A páginas tantas, André decide, juntamente com a filha, prolongar a estada, esquecendo-se de avisar a mulher – o que desencadeia uma pequena crise conjugal. Nicole sente que se quebrou, para sempre, o elo de confiança que os unia e o casamento parece ameaçado.

Ao leitor é dado acompanhar, com algum pormenor, pensamentos e emoções das personagens – tanto que poderá facilmente antecipar um final feliz para ambos (acontecerá assim que perceberem que não estão tão longe um do outro quanto imaginam).

Mais interessante é o ‘outro’ mal-entendido que a novela contém: aquele que levou muitos militantes ativos de esquerda – como o eram Sartre e Beauvoir – a não perceber a contradição contida no seio do comunismo soviético. Quando André se queixa que em vez de abrirem fábricas para construir carros particulares os responsáveis soviéticos deviam antes estar a investir nos transportes públicos, um russo responde-lhe "já basta de austeridade". E explica que os russos também medem o seu nível de felicidade pela posse de bens de consumo "burgueses".

Tema não central mas nem por isso menos interessante nesta novela é também o do envelhecimento. Simone de Beaouvoir nunca escondeu quão difícil lhe foi tornar-se velha, perder a beleza e os atrativos sexuais. Neste livro deixa-nos entrar na cabeça de uma mulher que recusa o seu próprio corpo, com o qual já não se identifica, e se limita a arrastá-lo, como a um velho amigo em tempos difíceis.

Nas livrarias, 'Mal-entendido em Moscovo' custa 13,30 euros.

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