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Correio da Manhã

Cultura

Bertrand já fala alemão

A Bertrand, a maior editora livreira nacional, vai passar para as mãos do gigante alemão Bertelsmann. A revelação de que o consórcio alemão, já proprietário do Círculo de Leitores, acabava de adquirir a Bertrand foi feita ontem em comunicado emitido na Alemanha e na véspera do anúncio formal em Lisboa mas os números do negócio não foram, contudo, revelados.
28 de Junho de 2006 às 00:00
Contactado o Círculo de Leitores, não foi possível ao CM ouvir o presidente da editora, João Carlos Alvim, “ausente e incontactável”.
A Bertrand, recorde-se, é não só a maior cadeia de livrarias nacional (com um total de 48 lojas distribuídas por 18 cidades) mas também uma das mais fortes editoras, nomeadamente com a representação de autores como Dan Brown: ‘a galinha dos ovos de ouro’ do mercado editorial dos últimos anos. Só o ano passado o volume de vendas da editora foi de 40 milhões de euros.
Em comunicado, o presidente da Bertelsmann, Ewald Walgenbach, explicou que a compra da Bertrand insere-se na estratégia de crescimento da companhia que pretende, agora, ganhar novos clientes, nomeadamente através de “uma combinação mais estreita entre o clube livreiro e o comércio de livros”. Uma realidade que, acredita a Bertelsmann, “cria sinergia e acelera, simultaneamente, o crescimento”.
A Bertrand (rede de livrarias e distribuidora além das editoras Bertrand e Quetzal) tinha, até agora, como principal accionista um grupo luxemburguês. Com a sua compra, o grupo alemão ganha “uma posição cimeira na venda de livros em Portugal” e amplia “os seus canais de distribuição” ou seja passa a ter lojas de venda directa ao público... Concorrentes directos, só a Fnac!
Vale a pena recordar que, durante mais de dois séculos, a Bertrand foi mais do que uma simples livraria. Ponto de encontro de escritores e local privilegiado de tertúlias, por ali passaram notáveis como Alexandre Herculano e Oliveira Martins, Eça de Queiroz e Antero de Quental ou Ramalho Ortigão. Mas, foi só mais tarde que, logo à entrada, um deles ganhou lugar cativo: ‘O Cantinho do Aquilino (Ribeiro)’.
UM ROMANCE DE MUSSOLINI
Ao longo da sua existência a Bertrand publicou obras de autores de renome mundial e figuras históricas. Foi o caso de ‘A Amante do Cardeal’, um romance do ditador italiano Benito Mussolini (1883-1945), lançado no início do século XX. A revelação foi feita pelo jornalista e escritor Baptista-Bastos, que vê com bons olhos a passagem da editora para mãos germânicas: “A Bertrand como editora praticamente acabou. Há muito que só vive dos autores comerciais, perdeu o Aquilino, o Urbano Tavares Rodrigues... um escândalo”. E acrescentou: “Os alemães vão tomar conta da Bertrand, mas vão fazer um projecto de edição que, estou em crer, vai ser benéfico para a cultura portuguesa. Basta ver o exemplo do Círculo de Leitores.
QUEM É QUEM
BERTRAND
Livraria fundada em 1732, na Rua Direita ao Loreto, renasceu do terramoto de Lisboa no local onde ainda hoje se mantém a casa-mãe: Chiado. Hoje são 48 lojas e 400 empregados.
C. LEITORES
Fundado em 1971, tem 340 mil sócios e um volume anual de vendas superior a 33 milhões de euros. Detém uma editora e uma revista e estendeu o negócio ao mercado de CD e DVD.
BERTELSMANN
Emprega 13 500 funcionários e, só em 2005, produziu vendas na ordem dos 2,4 milhões de euros. Ao mercado livreiro soma o discográfico (BMG) e o televisivo (Media Capital/TVI).
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