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Correio da Manhã

Cultura
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BOLSA DE RARIDADES

Mobiliário dos séculos XVII-XVIII e peças raras do séc. XVI, valendo de alguns milhares a dezenas de milhar de euros. Vestuário em seda da Ásia central e tapetes antigos, um dos quais Isphan, persa e com cerca de cem anos, que pode custar cerca de 75 mil euros.
11 de Novembro de 2002 às 00:01
Porcelanas da China do séc. XVI a XVIII, incluindo a específica Companhia das Índias, encomendada por famílias de brasão portuguesas. Tudo isto e muitíssimo mais, e muitíssimo caro, pode o visitante encontrar na IV Bienal de Antiguidades que decorrerá de 13 a 17 deste mês no Palácio da Bolsa, no Porto. É certo que há na Bienal objectos para compradores digamos que menos endinheirados, mas a ordem geral de grandeza é sempre dos milhares e dezenas de milhar.

Entre preciosidades, raridades e "curiosidades", há de tudo. Ver só custa cinco euros, preço do bilhete da entrada na feira que estará aberta das 16h00 à meia-noite, excepto no último dia que encerra às 21h00.

A Associação Comercial do Porto (ACP) convidou 14 de entre os mais conceituados antiquários do País a participar na Bienal de Antiguidades. Por cinco dias transferem das suas lojas para o Pátio das Nações o negócio das obras seleccionadas no seu espólio.

GARANTIA E QUALIDADE

Alguns dos antiquários apostam no sector em que são especialistas, como é o caso da porcelana chinesa, os tapetes e vestes de seda orientais, a pintura, as jóias, as pratas. Outros optam pela diversidade, sem que isso signifique quebra da qualidade da exposição. A ACP rodeou-se, aliás, de uma equipa de peritos em antiguidades e história para tratar da admissibilidade dos expositores e do mérito das peças.

O mobiliário dos sécs. XVII e XVIII, alguma pintura dos sécs. XVIII, XIX e mesmo XX, porcelanas da China dos sécs. XVI-XVIII e a específica Companhia das Índias, os exemplares de arte sacra, joalharia e prataria, tapetes orientais de diversas idades (o mais antigo dos quais remonta a cem anos de idade) e vestuário antigo de seda criteriosamente restaurado, alguma faiança apesar da raridade dos bons exemplares, parecem destinados só a um escasso número de investidores: instituições, coleccionadores e alguns compradores "apaixonados". Mas há uma gama de objectos e adereços diversos, de preço mais acessível - o que quer que isto signifique neste meio - como bengalas do século passado e, enfim, pequenos objectos decorativos de diversos materiais.

Mas para a maioria, a visita à Bienal constituirá apenas a travessia de um sonho reservado a eleitos, restando apenas a oportunidade de apreciar a beleza e o valor histórico das peças. E conhecer uma actividade e um mercado frequentado por um público muito específico, se é que o critério financeiro é uma especificidade. Verdade é que há quem não gaste em artes e antiguidades, mas em bens de menos valia e porventura mais perecíveis.

Prosperidade

A propósito do interesse comercial e do momento em que ocorre a Bienal, os antiquários mostram-se preocupados com os tempos de recessão. Afirmam que este é um mercado que acompanha a Bolsa, pelo que os investidores e coleccionadores estão retraídos.

Reconhecem, todavia, que negócios como este têm os seus caprichos. Alguns sustentam o objectivo de atrair diversas camadas do público das antiguidades com a selecção que fizeram. "Surpreender com algumas curiosidades", como disse ao CM um antiquário.

Disposição comum é compatibilizar o negócio com a tradição e estatuto deste acontecimento, defender o prestígio das firmas e o renome profissional, patentear a importância desta actividade. Como nos referiu outro antiquário, estará na Bienal para "corresponder a uma tradição do Porto burguês", participando num certame promovido pela ACP, instituição que faz parte da alma da cidade e que dispõe de um edifício histórico dos mais belos do País, como é o Palácio da Bolsa, e de um espaço ímpar de exposições que é a sala de visitas.

PRECIOSIDADES

Não é possível enumerar todas as preciosidades da Bienal, mas citem-se exemplos das peças de mobiliário: do séc XVII e XVIII é grande a variedade, mas há raridades do séc. XVI.

Refiram-se entre estas, um contador inglês e um contador espanhol, e daquelas: armário português em vinhático e pau santo, papeleira inglesa em raiz de nogueira com aplicações de talha e bronze, meia cómoda D. João V em pau santo, contador espanhol e contador indo-português com aplicações de tartaruga e marfim. Na porcelana: chinesa do séc. XVI-XVIII, incluindo peças da Companhia das Índias e peças inglesas.

Anotem-se o vestuário e tapetes históricos e restaurados da Ásia Central, nomeadamente um tapete Isphan, persa, de 4,12x3,12 m, base de seda, em lã, com cores de origem vegetal. E as preciosidades sucedem-se: taça em madrepérola com montagens de prata dourada do séc. XVI, pote chinês em grés do séc. XVII, bengalas com estoque do séc. XIX, pinturas dos séc. XVIII a XX, sendo que a naturalista é a mais valorizada, com curiosidades como os retratos de D. José e Dª Mariana de Áustria do séc. XVIII. E também arte sacra, jóias e pratas: destas aponte-se a raríssima imagem da Nª Sª da Conceição, do mestre Manuel José Dias Ferreira (meados séc. XVIII) e importante salva em prata portuguesa (fins séc. XVII ou início do XVIII). Muito mais, de idêntica valia, há na Bienal.

VALORES

A maioria dos antiquários é relutante em referir números exactos das peças mais valiosas. "Os valores são os do mercado, no momento", dizem. Mas na circunstância isso significa algumas dezenas de milhar de euros (digamos genericamente de mil a dez mil contos) para grande número de peças de mobiliário, pratas, jóia, porcelana, tapetes orientais.

Mais de 75 mil euros (até 18 mil contos) vale o tapete persa antigo. Mas o comprador poderá encontrar e adquirir peças de alguns milhares e até menos. O que decide verdadeiramente é a qualidade da peça, grande ou pequena. Há sempre a oportunidade de negociar, porque a Bienal é uma feira. Contudo, o "meio" conhece bem por quanto pode deixar ir ou quanto custa uma peça.

Os antiquários e o público das antiguidades é genericamente uma espécie de clube de investidores, sendo certo que também existem os casos de amor à primeira vista e paixão por uma raridade pela qual pagam mais. Como há os que procuram a todo o transe um preço mais em conta e uma oportunidade. É deste "jogo" entre o prazer e o investimento que se tecem estas feiras.
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