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Correio da Manhã

Cultura
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BRINCAR À VOLTA DO MUNDO

Um Pinóquio milanês datado de 1900 e um engenhoso pássaro egípcio, que pia deliciosamente e esvoaça quando é puxado, são dois dos muitos brinquedos, alguns "feitos de quase nada", agora expostos em Sintra e que falam de diferentes tempos e lugares.
30 de Junho de 2002 às 21:47
Bonecas, fantoches, carrinhos, piões, papagaios de papel de 60 países, de cores garridas e materiais tão básicos como os retalhos de pano, linhas e botões, restos de latas, cartão ou madeira, dão cor à exposição "Brinquedos do Mundo", patente no Museu do Brinquedo, que desperta as fantasias da imaginação das crianças e a memória dos tempos de pequenino.

"Numa época em que tudo se consome rapidamente, quisemos mostrar a força e o interesse da diversidade, convidando crianças, jovens e adultos a contactar com a criatividade e realidades tão diferentes como as da Guiné-Bissau, Índia ou Portugal", declarou Ana Alcântara do Departamento de Cultura da Câmara de Sintra, organizador da exposição em parceria com o Museu do Brinquedo.

A ideia surgiu quando Ana Alcântara viu o filme de Carlos Barroco "Com Quase Nada". Daí foi um passo para os primeiros contactos que começaram em Julho de 2001.

"Ao princípio houve uma certa falha de respostas, mas penso que se ficou a dever a um efeito sazonal, pois, a partir de Outubro, as embaixadas começaram a apoiar, quer as dos vários países com representação em Portugal, quer as portuguesas nos diferentes destinos", explicou a coordenadora geral do projecto.

Além disso, foi a "teimosia" que muitas vezes lhe valeu, pois "sempre que falhavam os contactos com as delegações das embaixadas estrangeiras em Lisboa, partia logo para as portuguesas lá fora que falavam por exemplo com museus".

"Onze dos 60 países fizeram-se representar por museus, o que dignificou ainda mais o projecto. De salientar por exemplo o Museo del Giocattolo e del Bambino (Milão), o National Museum of Ireland (Irlanda) e o Museu del Joquet (Catalunha)", frisou Ana Alcântara, que costumava dizer por brincadeira que tinha posto toda a gente a "comprar" bonecos para a mostra.

De uma "perspectiva simpática" em Dezembro, a ideia passou definitivamente ao terreno cerca de dez dias antes da abertura da exposição no passado dia 15. "Foi um desafio até que os brinquedos cá chegassem, depois a sensação de estar a abrir presentes. Em alguns casos já tínhamos visto fotografias, mas noutros foi uma completa surpresa", conta Ana Alcântara.

HERANÇA NACIONAL

Nesta exposição, a boneca adquire um especial destaque, já que 32 países enviaram bonecas com graus distintos de elaboração e, em alguns casos, mais susceptíveis de se deixarem entregar a brincadeiras do que noutros.

Feita à imagem do homem, é possível encontrar desde a boneca de madeira ou argila a que os primitivos prestavam um culto religioso, à mais sofisticada, passando pela rudimentar boneca de pano, que as avós costumavam põr nos berços dos recém-nascidos.

"Quando a sua cabeça se inclina um pouco para o lado, temos a melancólica, se levanta os braços para o céu, está feliz e pronta a saltar, se baixa a cabeça, cometeu alguma falta. As suas atitudes como as do corpo humano, definem-na toda inteira e então, vive, sofre e alegra-se", refere Ana Alcântara com base no catálogo da exposição.

A "Nega Maluca" é uma boneca feita de retalhos de pano, também chamada de Bruxa no interior de algumas cidades brasileiras, já o "Mané Gostoso", em madeira, é um boneco que gosta de fazer malabarismos.

Mas há também a vendedora de frutas ou com traje folclórico; a cubana, que representa o passado de escravatura; a filipina, que trabalha na apanha do arroz; ou ainda o casal de bonecos nacionalistas do Irão "Dara e Sara".

"Foram desenhadas pelo Instituto para o Desenvolvimento Intelectual da Criança e do Jovem, para reforçar e enriquecer a herança nacional e os valores do Irão. Estão vestidas com trajes das diferentes etnias nacionais, são perfumadas e mexem a cintura, os pés, as mãos e a cabeça", salientou Ana Alcântara, comparando-as às Barbies.

E como onde há bonecas há sempre uma "casinha", no centro da sala destaca-se uma casa dinamarquesa, oferecida como brinde pela revista "Famillie Journalen" em 1916, e que tem a particularidade de toda a sua mobília ser feita à mão.

De Portugal, há a destacar a “Piroga” elaborada por Virgínio Moutinho em 1985, com cartão pintado, arame, tecido, pele, espelho, cordão, missangas e chapa de latão e que produz vários movimentos quando se dá à manivela.

A exposição pode ser visitada, até 31 de Outubro, de terça-feira a domingo, incluindo feriados, entre as 10h00 e as 18h00.
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