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Correio da Manhã

Cultura

Broadway e Hollywood mais perto que nunca

Este é um filme baseado numa peça de teatro baseada num filme. Ou, melhor dizendo, é baseado no musical da Broadway que Mel Brooks produziu e estreou em 2001, inspirada no primeiro filme da sua carreira de realizador, ‘The Producers’, de 1968.
29 de Abril de 2006 às 00:00
Se quisermos ir mais longe, é baseado numa peça criada em volta dos sons que Brooks trauteou para um gravador e depois entregou a um amigo músico para os transformar em canções. Porque o veterano comediante não percebe nada de pautas.
Não é o primeiro caso em que o caminho ‘cinema-teatro-cinema’ define e transforma uma obra. Só para citar um exemplo: em 1955, Cole Porter pegou no clássico de Greta Garbo, ‘Ninotchka’, e construiu o musical ‘Silk Stockings’, que acabaria no grande ecrã dois anos depois, com o mesmo título e Fred Astaire no papel principal.
Recentemente, os palcos da Broadway, em Nova Iorque, têm sido locais privilegiados para musicais inspirados na Sétima Arte, contrariando a tradição. Basta recordar títulos como ‘West Side Story’, ‘Cabaret, ‘Adeus Berlim’, ‘Gata em Telhado de Zinco Quente’, ‘Um Violino no Telhado’, ‘Gigi’ ou ‘Chicago’ para chegar a uma conclusão óbvia: o cinema sempre foi o ‘copiador’.
A chamada era de ouro da Broadway teve início em 1943, com ‘Oklahoma’, o primeiro ‘blockbuster’ do género, totalizando 2,212 sessões, e terminou em 1968, com ‘Hair’. Curiosamente, o ano em que Mel Brooks estreou a comédia ‘The Producers’ nos cinemas, que não haveria de fazer muito dinheiro, mas seria elevada ao estatuto de culto com o passar dos anos.
SUCESSO NEM SEMPRE REPETIDO
Naquelas três décadas, Hollywood soube aproveitar o que de melhor se fez no teatro musical. Os anos 70 começaram com um grande sucesso nos palcos da Broadway. ‘Applause’, inspirado num super-clássico do cinema, ‘Eva’, não era tão bom como o filme de Mankiewicz, mas foi um excelente veículo para Lauren Bacall. Os anos 80 e 90 confirmaram a tendência: a Broadway copiava Hollywood. E de maneira tão descarada que deixou de mudar os títulos, capitalizando assim a energia do sucesso no grande ecrã. Casos de ‘Febre de Sábado à Noite’, ‘Victor/Victoria’, ‘E Tudo o Vento Levou’ ou as obras da Disney. O que nem sempre significou repetição desse mesmo sucesso.
O filme ‘Os Produtores’ não está à frente de uma tendência, mas o sucesso nos palcos, quer nos EUA, quer em Londres, joga a seu favor. Assim como a comparação com o original de 1968 não o beneficia. Então, era uma comédia pura com tiques de musical. Agora, é um musical puro com tiques de comédia. Depende dos gostos...
PRODUTORES VERSÃO 1968
‘The Producers’ estreou em 1968 e foi o primeiro filme de Mel Brooks. Originalmente chamava-se ‘Springtime for Hitler’ e só não teve Dustin Hoffman entre os intérpretes porque o realizador deixou-o prestar provas para ‘A Primeira Noite’, onde haveria de contracenar com Anne Bancroft, mulher de Brooks.
O filme, que em Portugal teve dois títulos – ‘O Falhado Amoroso’ e ‘Por Favor Não Mexam nas Velhinhas’ – esteve para ficar na gaveta depois de pronto, pois o produtor-executivo, Joseph E. Levine, achou-o de mau gosto. Foi o actor Peter Sellers, que o viu por acaso, quem convenceu Levine. Este aceitou, desde que o título passasse a ser ‘The Producers’.
COREÓGRAFA EM ESTREIA
Susan Stroman estreia-se como realizadora. É uma prestigiada coreógrafa e encenadora teatral com prémios Tony (os Óscares do teatro) conquistados em cinco peças, incluindo ‘The Producers’, que se tornou na mais premiada na história dos galardões – com 12 – para além de ser um gigantesco êxito de público.
Curiosamente, deveria ter sido o marido a levar o filme de Mel Brooks para os palcos, mas a sua morte, em 1999, devido a leucemia, fez com que a mulher se chegasse à frente. E quando Brooks quis adaptar o musical ao cinema, não hesitou em oferecer o lugar da realização à coreógrafa, apesar da sua inexperiência atrás das câmaras.
ELENCO VEM DOS PALCOS
Na transposição do palco da Broadway para o cinema, grande parte do elenco foi aproveitada, incluindo Nathan Lane e Matthew Broderick nos papéis principais. Actualmente trabalham juntos noutra peça de teatro, ‘The Odd Couple’. Nicole Kidman disse ‘sim’ a interpretar a sensual loira Ulla, mas devido a uma agenda sobrecarregada, Uma Thurman acabou por ficar com o lugar.
A actriz teve de aprender a cantar e foi ‘dobrada’ em partes das suas danças por Angie L. Schworer, a Ulla na versão da Broadway. Brad Oscar, substituído por Will Ferrell no papel do tresloucado Franz Liebkind, surge no filme como condutor de táxi.
FOCADO
Para quem não viu o filme de 1968 e não se importa de apanhar com números cantados e dançados, encontrará entretenimento salutar. As novas canções escritas por Mel Brooks enquadram-se no espírito da história original e as escolhas de Uma Thurman e Will Ferrel para dar peso à segunda linha de personagens foram acertadas. ‘Springtime for Hitler’ continua genial.
DESFOCADO
Segundo a Imprensa norte-americana especializada, o produtor Mel Brooks terá refeito algumas sequências não musicais por ter ficado insatisfeito com a realização de Stroman, mais inspirada, por vocação profissional, para as cenas coreografadas. É nesse aspecto, de facto, que o filme perde para o original de 1968. Lane e Broderick estão demasiado ‘teatrais’.
FICHA TÉCNICA
Título original: ‘The Producers’
Realizador: Susan Stroman (foto)
Argumento: Mel Brooks e Thomas Meehan
Intérpretes: Nathan Lane (Max), Matthew Broderick (Leo), Uma Thurman (Ulla), Will Ferrel (Franz), Jon Lovitz (Mr. Marks).
CÂMARA OCULTA
Nas cenas do teatro musical, muitos dos figurantes que fazem de público são contribuintes para obras de caridade que receberam em troca a possibilidade de participarem no filme.
ONDE VER
Lisboa – Amoreiras, Vasco da Gama, Millenium Alvaláxia, Monumental, El Corte Inglés
Albufeira – Algarve Shopping
Porto – Dolce Vitta, NorteShopping, AMC.
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