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Correio da Manhã

Cultura
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CAEM AS MÁSCARAS

João Lourenço convidou vários políticos da nossa praça para uma antestreia muito especial do espectáculo ‘Democracia’, a partir da peça homónima de Michael Frayn, e o resultado foi uma grande ovação no Teatro Aberto, em Lisboa, anteontem à noite.
6 de Novembro de 2004 às 00:00
A peça do britânico Frayn (de quem já tínhamos visto o excelente ‘Copenhaga’) baseia-se em factos verídicos: conta-nos a história da ascensão e queda do chanceler alemão Willy Brandt, cuja carreira política foi arruinada por causa de um espião que se infiltrou no seu gabinete e se tornou um dos seus homens de confiança. Em 1974, o homem que ensaiou a primeira aproximação entre as duas Alemanhas foi forçado a demitir-se.
O texto, que cruza brilhantemente o registo dramático com o narrativo, o tempo presente com o passado e dois núcleos de acção (para retratar a vida dupla do espião Günter Guillaume), pinta um retrato amargo dos bastidores da política. A acreditar em Michael Frayn, as nossas piores suspeitas sobre os políticos confirmam-se.
MANIPULADORES
Mentira, manipulação, intriga, vale tudo para ter mais poder.
E sejamos justos. É fácil extrapolar da política para qualquer organização que envolva pessoas. Onde há homens (e mulheres) há interesses e ambições, e são eles que marcam o ritmo das nossas existências.
Com estes pressupostos, João Lourenço assinou um daqueles espectáculos imprescindíveis para repensarmos o Mundo actual.
Num cenário de cores frias que reproduz a chancelaria alemã onde tudo se passou (cenografia de Henrique Cayatte e João Lourenço), move-se um colectivo de actores de onde se destacam os protagonistas: Virgílio Castelo (Brandt) e João Ricardo (Guillaume).
Brandt é um homem inteligente e carismático que, apesar das depressões, Frayn pinta com um ser demasiado perfeito para se tornar realmente interessante. O espião, pelo contrário, é uma personagem dúbia que João Ricardo torna verosímil e que nos inspira sentimentos contraditórios.
O restante elenco é de uma grande correcção, mas ‘Democracia’ pode crescer ainda mais com a rodagem.
POLÍTICOS FALAM SOBRE O ESPECTÁCULO
"OS PARTIDOS FICAM"
“Retive uma frase da peça: ‘As coligações passam, os partidos ficam’. Acho que o espectáculo retrata jogos de poder como nunca conheci em Portugal, e, pessoalmente, não permitiria aquela promiscuidade entre partido e Governo”. Cavaco Silva (PSD)
"ERA UM VITALISTA"
“O texto foca um problema de competitividade interna dentro de um partido e foi representado com grande dinamismo cénico. Não conheci Willy Brandt, mas julgo que era um vitalista, embora aqui esteja retratado como um depressivo”. Jaime Gama (PS)
"ACHEI BRANDT INDECISO"
“A peça coloca uma série de questões que revelam as contradições da democracia. Aqueles golpes... acredito que existam, em certos partidos, mas há traços caricaturais que me parecem sobrevalorizados. E achei Brandt um indeciso”. Carlos Carvalhas (PCP)
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