Esta semana continuamos o tema do artigo passado, mas agora de uma perspectiva mais histórica.
Esperamos que desta forma todas as ideias erradas sobre Tantra – sempre tão ligadas a sexo – fiquem de uma vez por todas resolvidas e que consiga perceber que Tantra está pouco relacionado com sexo, sendo muito mais que isso, como começámos a explicar a semana passada.
Os povos da Índia, de época dravídica e pré-dravídica, viviam numa sociedade onde a mulher ocupava um lugar de destaque.
O carácter feminino das divindades no hinduísmo, nada mais é que o retorno, sob uma forma mitológica e simbólica, das tradições matriarcais. A Shaktí chega a ser descrita como residente no Céu e como aquela que sustenta a Terra; “considera a tua mãe como deusa”; ou como conclui Mircéa Eliade em “Yôga, Inmortalidad y Liberdad”: “O que existe na Índia actual, em relação ao culto às divindades femininas, nada mais é que um segmento da herança matriarcal dos povos antigos.”
A palavra Shaktí significa energia ou força. Pode ser interpretada sob três aspectos. O primeiro, popular, é simbolizado pelas imagens e expressado na devoção às divindades femininas do panteão hindu, tais como Saraswatí – deusa do Conhecimento e das Artes –, Lakshmí – deusa da Prosperidade –, Kalí – deusa da Morte e da Sexualidade –, Parvatí – deusa-mãe da mitologia hindu, tida como a primeira reencarnação de Shaktí e personifica a suavidade e o instinto maternal –, etc. Ainda, dentro desse aspecto, a Shaktí é chamada também mãe divina, como sendo aquela que gera, nutre e protege. O segundo aspecto, refere-se à própria mulher, como esposa ou companheira. E, o último, fala-nos sobre a energia adormecida em cada ser humano, a energia chamada kundaliní.
Por força da característica matriarcal do Tantra, evidenciam-se as outras duas, que são a sensorialidade e a desrepressão.
No Tantra não existe censura nem sentimento de culpa, como é hábito frequente numa cultura brahmácharya – filosofia comportamental patriarcal, repressora e anti-sensorial – que dá valor, principalmente à castidade. Por exemplo, no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, o desenvolvimento interior só pode ser obtido pelo sofrimento e pelo controlo dos impulsos, desejos e sentimentos. Ao contrário, a cultura tântrica, provavelmente a única deste tipo no Mundo, demonstra que a evolução do Ser Humano acontece através da desrepressão e do prazer.
Existem, no hinduísmo, dois movimentos culturais que cainham paralelos e que, por isso, estão próximos mas nunca se tocam. Um deles, mais recente (com cerca de 3.000 anos!), chama-se váidika. E refere-se àquilo que está nos Vêdas – escrituras sagradas do hinduísmo. O outro movimento, mais antigo, chama-se tantrika e refere-se a um agrupamento de tradições, cujos ensinamentos originais não estão compilados em livros. Quase todos os hindus seguem a tradição váidika, enquanto uma ínfima minoria segue a tradição tantrika. Segundo o hinduísmo, ”os Tantras estão para os Vêdas assim como o perfume está para as flores”
Uma máxima tântrica diz: ”quando caímos ao chão, levantamo-nos com o auxílio do chão”. Tal afirmação é dirigida especialmente aos opositores do Tantra, os quais dizem que para atingir a espiritualidade deve negar-se o corpo. Para os tântricos, se a Natureza dotou-nos com instintos, emoções e sentidos, consequentemente, tudo o que tenha a ver com isso deve ser naturalmente utilizado e, ainda, valorizado, pois é uma eficiente ferramenta de evolução.
Nascemos com um corpo e com ele viajaremos no nosso breve espaço-tempo até que se transforme em pó, na terra da qual surgiu. Haveremos de cuidar bem dele e explorá-lo nos seus recursos e potencialidades. E somente aquilo que nos é mais íntimo, a nossa presente morada de carne e osso, é que compreenderemos o Universo como nosso lar e conceberemos a Natureza como nossa mãe.
Outro importante provérbio tântrico diz: ”Tudo o que está aqui, está em outro lugar; e, o que não está aqui, não está em lugar algum”. Tal aforismo aproxima-se das últimas descobertas da Física moderna: a matéria nada mais é que energia condensada. Aqui, a Natureza, é abordada como um organismo vivo, cuja manifestação se divide, multiplica-se e eleva-se à infinita potência.
O principal axioma do shaktismo, uma das linhas do tantrismo moderno, diz: Todos os deuses estão no nosso próprio corpo. Isso significa que todos os processos químicos, biológicos e físicos da Natureza são semelhantes, quer seja numa folha de erva no nosso jardim, quer seja num coral fixo aos recifes de uma praia. Tudo o que está do lado de fora está também do lado de dentro.
A base filosófica das escolas tântricas é o conceito de Shaktí e Shiva. Shaktí e Shiva representam os princípios feminino e masculino, energias de polaridade negativa e positiva, poder estático. São os dois pólos opostos que mantêm a coesão universal, sem os quais não haveria harmonia no cosmos.
Uma outra afirmação tântrica diz: Shiva sem Shaktí é shava. Sem Shaktí, Shiva não teria como agir, falar, pensar, ver ou sentir. Sem Shaktí haveria apenas um cadáver (shava), algo sem vida. Sem ela, a Natureza não teria forma; sem ele, a Natureza não teria como manifestar-se. até para acender uma lâmpada é preciso que haja duas cargas de energias opostas que se atraem. O poder criador manifesta-se devido à presença da criação e vice-versa.
Com base no livro “Yôga, Sámkhya e Tantra”, de Mestre Sérgio Santos, Presidente da Federação de Yôga do Estado de Minas Gerai e, Director Geral da Unidade Savassi, em Belo Horizonte
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