Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura

Carlos do Carmo: "Estou preparado para morrer"

Fadista dá esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o derradeiro concerto da carreira.
Miguel Azevedo 9 de Novembro de 2019 às 07:32
Carlos do Carmo
Carlos do Carmo
Carlos do Carmo
Carlos do Carmo
Carlos do Carmo
Carlos do Carmo
Esta decisão de se afastar definitivamente dos palcos é um ato de coragem?
- Não! Não vejo as coisas dessa forma...

Faz sentido a vida de fadista sem palco e gente para o ouvir?
- Tudo tem o seu limite. Desde os 50 anos tive problemas de saúde gravíssimos e estive às portas da morte três vezes. Sobrevivi e ainda bem, porque gosto de viver, mas não posso mais abusar do físico.

Quando é que sentiu que já não dava mais?
- Os médicos disseram-me que corria o risco de um dia estar tranquilamente em cima de um palco, ter um ataque de coração e cair para o lado.

E isso assustou-o?
- [risos] Lembro-me que quando um deles me disse isso respondi-lhe: ‘Epá não me diga?! Isso era uma morte gloriosa!’ Só que depois há outra parte que não menosprezo, que é a questão da decadência. Não queria deixar uma imagem decadente, estragar o que fiz. Nada o justificava. Era dar uma tristeza enorme a um público que me tem dado tanto amor. Não o posso trair.

Cantou em Braga e no Porto e despede-se agora em Lisboa. Está a ser muito emotiva esta despedida? Tem dado para segurar as lágrimas?
- Não sou de chorar em palco, mas tem sido muito difícil aguentar. Houve momentos no Porto e em Braga muito complicados. O meu neto mais novo, depois do espetáculo no Porto, deu-me o braço e perguntou: ‘O avô deu conta do que se passou aqui? O Coliseu explodiu’.

Qual será o fado que vai ficar para a história como o último cantado por Carlos do Carmo ao vivo?
- [risos] Como diria o outro: nem às paredes confesso...

Faz 80 anos a 21 de dezembro. É uma idade que pesa, assusta ou é um motivo de orgulho?
- Tenho muito orgulho na vida que tive: fui um tipo sortudo, com uma família extraordinária e uma mulher do outro mundo. E tive uma carreira bem-sucedida, cá dentro e lá fora. Mas aos 80 anos estou um bocadinho desgastado. Depois de ter estado três vezes à porta, estou agora preparado para morrer a qualquer momento.

Para o ano vai lançar novo disco. O que se pode dizer?
- Vai ter poemas de Herberto Helder, que nunca foi cantado em fado, Jorge Palma ou Vasco Graça Moura. São apenas alguns dos onze que vou cantar.

PERFIL
Carlos do Carmo nasceu em Lisboa a 21 de dezembro de 1939. No início dos anos 60, começou
a atuar para os amigos e clientes d’O Faia até que, em 1964, abraçou definitivamente a carreira artística, tornando-se numa das vozes mais importantes do fado. Despede-se hoje dos palcos na cidade que o viu nascer.
Carlos do Carmo Porto Braga Lisboa artes cultura e entretenimento questões sociais música morte
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)