Fadista vai ao Pavilhão Atlãntico na próxima quarta-feira para homenagear Frank Sinatra ao interpretar 15 temas de entre as centenas que ele popularizou. A seu lado terá a famosa Count Basie Orchestra.
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- Lembra-se da primeira canção de Sinatra que ouviu?
- Vou cantá-la: ‘The Tender Trap'.
Lembro-me muito bem. Imagine: aos 12 anos a armadilha do amor caiu-me das nuvens.
- Saber as canções de Sinatra devia dar-lhe uma chave para o coração das meninas...
- Era muito interessante na altura em que andávamos nos namoricos ouvir Sinatra colectivamente. Elas e eles. Todos gostávamos de Sinatra. Deu-me muito jeito foi com a Maria Judite, quando namorámos. Cantava-lhe o reportório de Sinatra e ela gostava muito. Isso é que me deu jeito.
- Sim. Mas não vou cantar mais do que 15 canções e o Sinatra tem centenas.
- Como é que conseguiu seleccioná-las?
- Teve muito a ver com o meu gosto pessoal e a baliza da Count Basie Orchestra.
- Não sei avaliar. Isso tem que perguntar ao meu produtor.
- Para si o mais importante é haver condições sonoras?
- Sim. A orquestra é boa, na parte técnica há gente muito competente e queira Deus que haja público. É aquilo que eu peço.
- Quando é que a Count Basie Orchestra chega a Lisboa?
- Para si é suficiente?
- Repare que tenho estado a ensaiar os verdadeiros arranjos com a orquestra do Hot Clube. Vou-me preparando.
- Temia ficar desiludido comigo. Habituei-me, ao longo dos anos, a receber pessoas no camarim depois dos concertos e tenho ouvido desabafos que são um imenso património. Coisas de uma riqueza indescritível, quase inenarráveis de tão belas que são. Em alguns casos são confidências. Dirigem-se a mim como alguém que faz parte das suas vidas.
- De coração aberto mesmo. Vêm falar da sua vida mais profunda, mas sem dramatizar. Dizem-me como foi bonito que, num certo momento, eu tenha tido interferência nas suas vidas. Ou provoquei o casamento, ou ouviam-me na lua-de-mel ou um filho a quem os pais impingiam os discos do Carlos do Carmo e ficou traumatizado. Aconteceu-me em Tavira. Apareceu um homem e disse: "Venho aqui fazer as pazes consigo. Já não tenho cá os meus pais mas que bem me soube ouvi-lo esta noite. Você não faz ideia das secas que eu apanhei." Estas coisas todas pesam. Ser artista é isto. E eu não queria falar com o Sinatra um minuto. Precisava, no mínimo, de meia hora com ele. E ele não tinha naquela noite essa meia hora. Foi melhor assim.
- Não calhou. Ele só veio a Portugal essa vez. Tenho lá o bilhete guardado como recordação.
- Não. O fado não veio ocupar nenhum espaço. É muito natural dentro de mim. Costumo dizer que comecei a ouvi-lo no ventre da minha mãe e na infância, até à pré-adolescência. Depois fiz um percurso freudiano. Afastei-me do fado ostensivamente, declarando que não gostava. Mas quando retomei, foi com toda a base que tinha para trás, na memória, e com toda a paixão que se vai acentuando à medida que descubro os seus mistérios.
- Vê semelhanças entre um 'crooner' e um fadista?
- Completamente. Sugiro-lhe isto: ouça uma canção do Sinatra em quatro versões. Não vai acreditar. É um fadista.
- Acha que ele poderia ter cantado o 'Homem das Castanhas'?
- Ele cantou o 'Homem das Castanhas' da América. É outra coisa. Isso é que é interessante. Estamos num mundo global com culturas diferentes que se interligam. Aprendo muito com a música popular americana. Tenho-lhe um profundo respeito. Sempre tive.
- Sinatra ainda é um ídolo para si?
- Não vou ser original e irei usar um título do 'Estado de São Paulo': "O Sinatra está a cantar melhor do que nunca." (risos)
- Antes de surgir este convite com que frequência ouvia os discos dele?
- Regularmente. Gosto muito de estar sossegado na minha casa e de ouvir certas pessoas que me ajudam muito no meu recolhimento: Sinatra e Brel, cantores completamente distintas. E quando quero ouvir uma mulher que me enche completamente as medidas e me faz pele de galinha, então ouço a Elis Regina.
- Impingiu os discos de Sinatra aos seus filhos?
- E correu bem?
- Tive sorte. Quando o Sinatra veio ao Porto os meus filhos estavam numa idade complicada e foi difícil convencê-los a ir. Disse: "Pago os bilhetes, a viagem, as portagens, o almoço e o jantar. Pago tudo, mas por amor de Deus venham ver o Sinatra, porque o homem provavelmente já não vai voltar a Portugal e vocês não terão oportunidade de o ouvir. Massacrei-vos a vida inteira com o Sinatra. Venham ver." Em boa hora o fiz, porque eles perceberam que estavam perante um homem já idoso, que entrou no palco trôpego, cantou as três primeiras canções com muita dificuldade e que,
de repente, como que num golpe de asa, começou a cantar bem, bem, bem, bem a valer. Olhei satisfeito para os meus filhos e pensei: não os enganei, felizmente.
- Há um determinado momento, quando se atinge o topo dos topos, em que a pessoa parece ter dificuldade em entender que de vez em quando é preciso vir cá abaixo. E ele não era homem para isso. Mas houve uma altura em que ele quis parar e eu julguei que ele iria fazer isso. Pensei que ele era tão inteligente que iria deixar a saudade.
- Seria uma questão financeira?
- Ele era muito rico, um verdadeiro império. O bichinho do palco é um caso muito sério. Parar é algo que se deve fazer como quem deixa de fumar. Deixei de fumar há dez anos e penso deixar de cantar há cinco. A minha mãe tinha 60 anos e avisou-nos a todos: "Não volto a cantar." Estava no auge e cantava como nunca. Nunca mais cantou, excepto para os netos na varanda lá de casa
- A minha mãe tinha uma personalidade fortíssima. Quem é que a ia dissuadir? Nem o pai dela, que ainda era vivo. Nem os netos. A neta manobrava-a bem. Parece que estou a ver a cena: ela dizia "Cila, já acabei". Portanto ninguém conheceu a minha mãe a cantar de forma decadente. Isso é inteligente mas requer uma certa coragem, não é?
- Muita. Pensa mesmo em deixar em cantar?
- Sinceramente, sim. Continuo a cantar aos 70 anos porque deixei de o fazer há dez. Estive para morrer e tenho bebido muita água e chá de camomila. Isso fez-me bem à saúde e a minha voz retomou uma cor que já não tinha. Tenho-me sentido bem mas canto pouco. Não posso fazer mais de 20 concertos por ano. Dão-me muito prazer. Para mim, cada concerto é uma sublimação. Mas tenho uma família de que gosto muito, amigos e coisas que me interessam e em que posso ser útil. Se tiver que deixar de cantar não é um drama. Não queria deixar de cantar com as pessoas a mandarem-me porta fora.
- Que público espera encontrar no Pavilhão Atlântico?
- Não faço a mínima ideia. Não sei quantas pessoas lá estarão. Se são duas mil, cinco mil, as que forem... Há uma coisa de que todas podem ter a certeza: vou cantar tudo o que tiver dentro de mim para cantar. É o meu preito ao Sinatra.
- A minha saúde. E a Count Basie Orchestra vai tocar e tem os seus trechos de actuação. Tive há dois dias a honra de saber que nesta digressão, que começa agora em Lisboa e termina em Março na cidade de Tóquio, o único convidado sou eu.
- Como se sente?
- Muito honrado. Humildemente honrado.
Há amigos meus que costumam dizer-me que sou um homem com sorte. Costumo dizer que a sorte dá um bocado de trabalho.
- Brel, tranquilamente. Gravei agora um disco com o meu amigo Bernardo Sassetti onde ele está muito presente. Seria uma lacuna gravíssima se não estivesse.
- O concerto vai ser gravado?
- A RTP teve a gentileza de dizer ao meu produtor que gostaria muito de o gravar. E ajudou a promovê-lo, porque este é um concerto sem 'sponsor'. Aquelas companhias que dão os dinheiros e que para o Carlos do Carmo normalmente não dão.
- Acredita que o espírito de Sinatra estará lá no Atlântico?
s sinatristas que lá forem. O Sinatra deu-nos muito prazer. Grandes momentos de prazer. Sou um coleccionador de discos de Sinatra e de cada vez que chegava um disco dele era um ritual: convidava amigos para minha casa e ficávamos até às oito da manhã a dissecar trecho a trecho. Em vinil tenho quase a pressunção de dizer que tenho a colecção completa
PERFIL
Carlos do Carmo nasceu em Lisboa há 70 anos. Filho da fadista Lucília do Carmo, deu início à carreira em 1964, ano em que casou.
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