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Correio da Manhã

Cultura
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Joias, vestidos, prazeres escondidos. A outra face de Amália

Diva do fado, ícone da moda. Amália Rodrigues criou a imagem da fadista vestida de negro, mas tinha um gosto eclético que aparece refletido nos vestidos, joias e sapatos que ainda habitam a casa onde viveu.
Máxima 23 de Julho de 2020 às 17:01
Diva do fado, ícone da moda. Amália Rodrigues criou a imagem da fadista vestida de negro, mas tinha um gosto eclético que aparece refletido nos vestidos, joias e sapatos que ainda habitam a casa onde viveu.
Por Máxima 23 de Julho de 2020 às 17:01

Amália era uma mulher elegante, de gostos requintados, dotada de uma silhueta atraente e, embora não fosse muito alta, sabia tirar partido dela. 

"Muitas pessoas têm a ideia de que a Amália era alta, mas isso era graças aos sapatos com plataforma que os vestidos compridos tapavam. Tinha 1,58 metros, mas tinha estes truques. Mandava fazer os vestidos com a cintura descaída para alongar a silhueta", explica Mariana Gonçalves, investigadora da Casa-Museu Amália Rodrigues, que conhece bem a relação de Amália com a moda.

Amália trabalhou com estilistas como Teresa Mimoso, Pinto de Campos e Ana Maravilhas e foi no ateliê de alta costura desta última que conheceu a modista Ilda Aleixo, em 1967.

A senhora Ilda, como é carinhosamente tratada na Residência Sénior de Sant’Ana, em Oliveira do Hospital, recorda com graça o momento em que conheceu Amália e lembra-a como uma mulher inteligente e encantadora.

"Trabalhava num atelier… até que um dia a Amália foi lá fazer um vestido. A Amália era um ano mais velha do que eu, mas naquela data estávamos as duas com a mesma idade. Foi aí que nos conhecemos", conta.

"Era uma coisa complicada, porque a Amália era mais baixa do que eu, portanto, os sapatos tinham que ser altos. Era preciso haver a consciência de que se ela usava aqueles sapatos. Tinha uma saia muito grande e o corpo muito pequeno, ficava desequilibrado. Fiz um molde só para ela, para que lhe ficasse perfeito", revela a modista, com saudade e orgulho evidentes no olhar. 

Fiz um molde [de vestido] só para Amália, para que lhe ficasse perfeito

Ilda Aleixo

Ilda confecionou vestidos para a fadista enquanto trabalhava para a estilista Ana Maravilhas e, em finais dos anos 80, quando o ateliê fechou, Amália convidou-a a trabalhar só para si. Amália idealizava, Ilda concretizava: "Ela fazia os vestidos consoante o que a Amália queria", sublinha Mariana Gonçalves, investigadora da Casa-Museu. Muitos dos vestidos sumptuosos que Amália envergou nos últimos anos de carreira tinham o corte de Ilda Aleixo.  

Na comemoração dos 50 anos de carreira, em 1990, Amália usou três vestidos, um deles era totalmente negro, uma das suas imagens de marca. "A Amália trouxe o negro para o fado. Antes de Amália usava-se uma camisa colorida com um xaile. Fora de Portugal, ela usava muitos vestidos coloridos", explica a investigadora. Para esta ocasião, a fadista mandou fazer o vestido negro, um vestido em forma de combinação com saia vermelha e um vestido cor de rosa.

Ficaram alguns vestidos inacabados, outros, Amália mandava fazer e não chegava a usar. É o caso de um vestido branco com rendas, que nunca chegou a usar em palco, porque assim que o vestiu achou que parecia uma noiva. Há fotografias suas com o vestido, em casa.

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Ilda Aleixo foi modista de Amália durante 30 anos

JOIAS VALIOSAS, PERDIDAS E "BUGIGANGAS"

As joias assumiram um papel preponderante na vida de Amália: adorava-as, quer fossem bugigangas ou verdadeiras. Tinha gavetas e gavetas cheias de pulseiras, brincos, alfinetes de dama, colares compridos. As joias mais valiosas, essas, estão no banco.

"As joias [de Amália] são todas muito brilhantes e dão sempre muito bem com os vestidos. No dia a dia, Amália usava joias 'aciganadas' como ela gostava de lhes chamar. A cor e os brilhos eram indispensáveis. E também adorava a cultura espanhola, inspirava-se muito nela para os seus vestidos", explica Mariana Gonçalves.

As peças mais memoráveis foram recriadas pela ourivesaria Ouronor, da Póvoa de Lanhoso, com um desafio que começou em 2008 e se tornou uma paixão em 2010, nas palavras de Aida Maria, responsável da marca. Entre as joias mais icónicas estão os chamados brincos da deusa – oferecidos pelo marido, César Seabra, antes de se casarem, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, em 1961 – ou o alfinete de estrela, que perdeu em Paris e que só descansou quando a equipa o encontrou.

"Ela usava as joias de uma maneira que, até àquele momento, não era comum (…) para além disso, naquela altura, as joias estavam muito confinadas ao tradicional português, e ela – à medida que o seu gosto se foi aperfeiçoando – foi adquirindo joias quer no mercado nacional, quer no internacional", revela Aida

"Até ali, as pessoas usavam joias para dizer que 
tinham poder, mas não se preocupavam muito com a beleza. Amália veio alterar esse conceito. A joia passou a ser um complemento muito grande da personalidade da mulher. Através das suas joias, Amália transmitia a mulher contemporânea que era", conclui a responsável pela Ouronor.

Há muitas histórias ligadas às joias de Amália e Aida vai mais longe, dizendo que foi Amália que mudou a forma como as mulheres, na época, usavam as joias.

SAPATOS E MAQUILHAGEM. OS PREFERIDOS

Amália tinha um sentido de moda muito apurado, a maioria das suas peças eram feitas à mão ou compradas a seu pedido. "A Amália não gostava de entrar nas lojas. Possivelmente via na montra, gostava, e pedia para alguém ir comprar. Sentia-se desconfortável ao entrar em lojas grandes como a Prada", explica a investigadora da Casa-Museu.

No seu guarda roupa existem camisas com padrões exuberantes, coloridos e floridos. "Havia muita gente que achava que Amália era tristonha, mas ela também tinha um lado muito divertido e passava-o para a roupa", recorda a investigadora. A roupa exposta na Casa-Museu Amália Rodrigues é uma amostra, tal como a maquilhagem, as carteiras e outros acessórios.

Os leques, os lenços, as écharpes e também os óculos de sol escuros eram os acessórios de eleição da fadista. Na maquilhagem, a preferência recaía sobre marcas como a Christian Dior ou a Yves Saint Laurent.
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