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Correio da Manhã

Cultura
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Ceramista sonha voltar à sua Aldeia

O ceramista José Franco, criador da Aldeia Típica no Sobreiro de Mafra, acusa a família de lhe impedir a entrada no espaço e de o deixar sem dinheiro para comprar o barro necessário à criação de novas peças.
15 de Abril de 2006 às 00:00
José Franco na Aldeia Típica que moldou com a sua arte e que é uma das atracções turísticas de Mafra
José Franco na Aldeia Típica que moldou com a sua arte e que é uma das atracções turísticas de Mafra FOTO: Natália Ferraz
Aos 86 anos e após uma vida repleta de sucessos que o consagraram internacionalmente e em que não faltaram homenagens e até uma condecoração presidencial, José Franco queixa-se de quase todos lhe “virarem as costas” apesar de ainda estar apto para trabalhar na sua arte. Afirma-se também “perseguido” pelo genro que, diz, o impede de entrar na Aldeia que criou, o que é negado pelo familiar.
A Lusa encontrou o oleiro a viver temporariamente num lar, na Ericeira, onde recupera de um problema de saúde. José Franco desfiou um rol de queixas, nomeadamente da família que, segundo afirma, o expulsou do ateliê na Aldeia, onde trabalhou o barro durante décadas.
O espírito do espaço – que reproduz uma aldeia mafrense do início do séc. XX – sempre foi o da partilha e generosidade. Por esta razão é gratuita a entrada no espaço visitado anualmente por milhares de pessoas, sobretudo crianças, e apresentado pelo município como atracção turística, a par do Convento ou da Tapada.
A Aldeia cresceu “aos bocadinhos” e o ceramista viu ainda o seu trabalho reconhecido nos cinco continentes. Actualmente, existem obras suas em casa de coleccionadores e até no Vaticano.
Condecorado por Ramalho Eanes e abençoado por João Paulo II, José Franco descreve-se hoje como um homem só que vive “sem um tostão”. Com limitações de mobilidade – caminha com a ajuda de umas andas – o mestre a quem o amigo e escritor brasileiro Jorge Amado chamou “artista do barro e da vida” pede ajuda para continuar a sua obra e diz “sonhar com o regresso” à Aldeia, onde o ateliê está desmontado e com as paredes manchadas de barro.
O mestre ainda trabalha, tendo a última obra sido feita no lar. Queixa--se, contudo, de ter de comprar o barro “fiado”, por falta de dinheiro, apesar de possuir 40 por cento da empresa Aldeia Típica de José Franco, gerida pelo genro.
Segundo garante, a Aldeia gera milhões de euros por ano – principalmente com a venda de pão com chouriço (1,70 euros cada), de gelados e de louça –, mas o ceramista afirma não ter acesso ao dinheiro. O genro, Armando Dias Batalha, refuta as acusações, afirmando que ele “não está bem da cabeça”. “Estragou o dinheiro todo e se não recebe é porque os lucros da empresa são aplicados na manutenção da Aldeia”, justificou.
José Franco acusa ainda o genro de violência verbal e física e a Lusa confirmou que várias queixas deram entrada na GNR de Mafra e terão sido arquivadas pelo Tribunal “por falta de provas”.
ROTARY QUER AJUDAR
A situação da Aldeia está a ser seguida pelo Rotary Club de Mafra que, em 2005, elegeu o ceramista o artista do ano. César Castro, presidente da organização, revelou à Lusa a intenção do Rotary em ajudar na criação da Fundação José Franco e que, para tal, está em curso um levantamento do património do artista.
O responsável confirmou as queixas do oleiro, mas adiantou que esta é uma “situação complicada”. Lamenta, contudo, que “a Aldeia se esteja a degradar e que hoje tenha um aspecto mais comercial do que cultural e típico”.
"DEGRADAÇÃO"
Também a par da situação e das queixas do artista o presidente da Junta de Freguesia de Mafra, António Pereira, garantiu estar a “aprofundar o assunto”. Segundo diz, “há muita gente que apoia o mestre” e lamentou o estado de degradação da Aldeia que “já não recebe as mesmas pessoas”, apesar de ser “uma atracção ao nível da Tapada”. António Pereira afirmou também conhecer “sem pormenores” a intenção de ser criada uma Fundação José Franco, ideia que vê “com bons olhos”.
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