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Correio da Manhã

Cultura
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CIA desviou avião para Prémio Nobel

O Prémio Nobel da Literatura, atribuído, em 1958, ao poeta e romancista russo Boris Pasternak, por ‘Doutor Jivago’ desmascarou a abertura, proclamada por Nikita Kruschev, ao condenar os crimes estalinistas no 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. O romance foi uma denúncia política arrasadora. Sabe-se, agora, que só foi possível com o empenho dos agentes secretos americanos da CIA e também de britânicos, que desviaram um avião para a ilha de Malta para fotocopiarem uma edição clandestina em russo.
17 de Janeiro de 2007 às 00:00
Boris Pasternak caiu da glória à proibição na URSS
Boris Pasternak caiu da glória à proibição na URSS FOTO: d.r.
A missão secreta, de que se desconheciam pormenores, é contada num novo romance, ‘The Laundered Novel’ (‘A Novela Lavada’, em tradução literal). Ivan Tolstoi, sem parentesco com Leon Tolstoi, autor de ‘Guerra e Paz’, no século XIX, segue a pista dada por uma carta de um agente da CIA, sobre a operação num aeroporto da ilha de Malta, no Mediterrâneo Oriental.
O romance ‘Doutor Jivago’, no qual Boris Pasternak (1890-1960) faz uma autobiografia centrada nos tempos da revolução bolchevique de 1917, foi editado no Ocidente, quando o seu autor atingiu grande notoriedade como poeta inovador, pela Feltrinelli, de Milão, em 1957, apesar de estar proibido na URSS. O problema é que, para concretizar a candidatura ao Nobel de Literatura, era necessário apresentar livros em russo à Academia de Letras de Estocolmo. A CIA encarregou-se de resolver o assunto.
Não se sabe com que artimanhas, um avião soviético, onde se encontrava uma mala com um livro em russo, teve de aterrar de emergência em Malta. Durante cerca de duas horas, em que os passageiros se mantiveram dentro do aparelho, agentes da CIA apanharam o livro e fotografaram-no, página a página. Resolvida a ‘avaria’, o avião seguiu para o destino na URSS. A tarefa seguinte da CIA foi arranjar papel e caracteres tipográficos iguais aos russos para imprimir ‘Doutor Jivago’ em partes separadas e em oficinas de vários países para não correr o risco de a operação ser descoberta.
Passado algum tempo, o júri do Nobel recebia os livros e a obra em russo era posta à venda em vários países. A missão secreta teve pleno êxito: Pasternak ganhou o Nobel, embora não o pudesse ir receber e até fosse obrigado a ‘recusá-lo’. E a CIA ajudou à liberdade de expressão.
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