Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
6

CINCO ANOS DE AFECTOS

Ermelinda Dias tem 89 anos, Ivone Rute, 87. Une-as apenas a condição de residentes da Casa do Artista, em tudo o resto são diferentes. A primeira não esquece os “dias de alegria e glória do passado”, a segunda, sacode as recordações: “apaguei o passado. O meu negócio é o dia-a-dia”.
5 de Maio de 2004 às 00:00
No teatro de revista, Ermelinda Dias foi costureira, Ivone Rute corista e cançonetista. Uma e outra são apenas duas dos 71 residentes que a Casa do Artista alberga na Pontinha. Uns são artistas de circo, outros locutores, técnicos de rádio, actores, músicos, bailarinos, encenadores, dramaturgos…
A doença, a debilidade física, a solidão ou, simplesmente, a necessidade de descansar são algumas das razões que levam os artistas reformados a optar por viver na Casa.
“MAU PORTUGUÊS”
Afonso Henriques trabalhou 33 anos na ex-Emissora Nacional. Com a mulher, instalou-se há dois anos. “Quem não tem limitações físicas e não está doente, não pára. Eu e a minha mulher passeamos, vamos a espectáculos, à praia…”, explica o técnico de rádio, de 73 anos.
Natural de Viseu, Afonso Henriques compara os seus tempos com a rádio que se faz hoje e diz que a diferença é “abismal”: “O que me fascina são as novas tecnologias. Ainda me lembro das dificuldades quando queríamos emitir um trabalho a partir de Angola. Era preciso fazer um pedido aos CTT e depois à Marconi, e se alguém se atrasava perdia-se a oportunidade de fazer a ligação. Hoje, com o satélite, tudo é possível…”
Mas nem tudo é perfeito na rádio que hoje se faz e Afonso Henriques aponta as falhas: “Fala-se muito mau português. E há pouco ouvi o noticiário na Antena 1. O locutor deve ter dito umas 200 palavras num minuto… Num país com tanto analfabetismo, quem entende um homem que debita tanta palavra em tão pouco tempo?”.
O fundador da companhia de teatro infantil do Gerifalto, António Manuel Couto Viana, ex-colaborador do Correio da Manhã, é escritor, dramaturgo, encenador, crítico literário. Um homem cheio de afazeres.
Colaborador da Fundação Gulbenkian, onde passa algumas manhãs a trabalhar, Couto Viana, de 81 anos (que publicou recentemente um álbum de poesia), faz parte de várias tertúlias e passa muito do seu tempo a escrever: “Ainda tenho livros na gaveta”, explica.
Entre a Gulbenkian, os almoços com os amigos, as visitas da família e dos amigos, e o convívio com os demais residentes, confessa: “Não me aborreço nesta Casa”.
Sobre o universo da representação, onde foi mestre de Rui Mendes, Irene Cruz, Lídia Teles, entre outros (“até o Vítor Constâncio foi meu aluno”), Couto Viana desabafa: “A nova geração de actores vai para os palcos matraquear os textos. Muito poucos interpretam o papel com alma, técnica e direcção”.
Há cinco anos, Ivone Rute foi das primeiras a instalar-se na Casa. Anda sempre a correr e queixa-se da falta de tempo. Depois do pequeno-almoço sai para a rua: “Vou às minhas consultas, passear, ao supermercado…”
Na Casa do Artista também não tem mãos a medir: “Faço massagem e bicicleta no ginásio, três vezes por semana. Leio, faço ‘crochet’, tricô, arranjo as flores e só desespero por não ter um gato para lhe poder passar a mão pelo pêlo”. Ivone Rute trabalhou 40 anos no Brasil, onde voltou há três meses para passar férias e matar saudades.
TRINTA EUROS ANUAIS
Instituição particular de Solidariedade Social, a Casa do Artista começou a funcionar a 5 de Maio de 1999 e o actor Luís Pinhão foi o primeiro residente. “Às 09h00 estava aqui à porta com a mala na mão”, lembra Maria Júlia Guerra, ex-locutora e membro da direcção. “As primeiras pessoas entraram logo que foi ligado o gás”.
Com 40 pessoas em lista de espera, a Casa, que cobra apenas 30 euros anuais aos sócios, sobrevive com o arrendamento dos muitos e bem dimensionados espaços que tem: o auditório com 300 lugares, a galeria de exposições, a sala para ensaios, o centro de formação e o estúdio de dança.
“A comparticipação dos utentes é de 75 por cento das pensões auferidas durante 12 meses”, explica Raul Solnado, presidente. “Este valor fica muito aquém do custo real de cada utente”, adianta Linda Silva, também da direcção. Além da comparticipação da Segurança Social, conta ainda com ajuda financeira da Câmara de Lisboa.
A Casa está apetrechada com posto médico, fisioterapia, cabeleireiro, salas de convívio, refeitório, capela e biblioteca. E, além do lar de idosos, tem ainda um centro de dia com 15 utentes e um café entregue à exploração.
MÃE CORAGEM
Ermelinda Dias, mãe de Ivone Silva e Linda Silva, também actriz, era costureira de alfaiate e foi por um acaso que aterrou no teatro de revista, onde, durante anos, tratou do guarda-roupa das filhas.
“Fui durante anos a ‘mãe Silva’, a costureirinha das horas de aflição. Foi o senhor Carlos Avilez quem me deu a carta profissional”, recorda. Aos 89 anos, Ermelinda Dias ainda não aposentou a linha e a agulha: “Sou eu que arranjo as minhas roupas e as dos meus netos e bisnetos”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)