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Correio da Manhã

Cultura
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CINQUENTA MIL DE LÍNGUA DE FORA

Os Rolling Stones são, muito provavelmente, a única banda do Mundo a quem se pode deitar a língua de fora, sem que isso signifique falta de respeito. E assim foram recebidos ontem à noite no Estádio Cidade de Coimbra, com cartazes e "t-shirts". Mais do que ofensivas, ostensivas de uma das maiores imagens de marca do rock e da História do séc. XX. Um verdadeirio acto de devoção e vassalagem.
28 de Setembro de 2003 às 00:00
Mick Jagger voltou a dirigir-se ao público em português
Mick Jagger voltou a dirigir-se ao público em português FOTO: Jordi Burch
Por isso, quando Mick Jagger subiu ao palco, já muitos se tinham esquecido do grande calvário por que passaram para conseguir chegar ao Estádio: além dos inevitáveis engarrafamentos nas estradas principais - a A1 chegou às quatro horas de fila -, há ainda que repensar os acessos ao recinto e o estacionamento.
Verdadeiamente endiabrados, como se fossem um grupo de adolescentes, Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts abriram com "Brown Sugar" para, de seguida, interpretarem "Start Me Up", "You Got Me Rockin'" e "Baby Don't Stop". Como se alguém lhes pudesse resistir.
Em bom português, Jagger cumprimentou Coimbra e Portugal, olhou o céu e riu-se: "Que boa que está a noite!". Depois veio "Angie" e pouco mais houve a fazer, senão cair aos pés do grupo. E assim aconteceu. Uma enorme recepção ao senhor, todos a uma só voz. Num dos mais imponentes palcos alguma vez montado no nosso país, os Rolling Stones elevaram o seu estatuto acima da sua própria existência.
PARABÉNS, XUTOS
Com o privilégio de serem a primeira banda local a abrir para os Rolling Stones nesta digressão, os Xutos e Pontapés foram também os primeiros a entrar em campo. À sua maneira, descomprometidos mas visivelmente satisfeitos, especialmente Zé Pedro, aquele que, dos quatro, "mais se identifica com os Stones", segundo confessa.
A jogar em casa, o grupo fez o que tinha a fazer: dominou a plateia e, em apenas meia hora, fez alinhar alguns dos seus maiores êxitos, aqueles pelos quais todos esperavam, de "Sémen" a "Circo de Feras", passando por "Vida Malvada". De resto, à entrada do Estádio, alguém dizia com alguma graça: "Eu só venho cá para ver os Xutos..."
É verdade que a chuva ainda caiu em cima dos "Contentores", mas não chegou para dissolver o público que fez de tudo para que a banda não arredasse pé. E no final da actuação dos portugueses, já o recinto estava quase na sua capacidade máxima: cerca de 50 mil pessoas. Um orgulho. E que bem sabe ouvir gritar "Olá ó vida malvada" por tanta gente. Uma espécie de exorcismo.
Chamam-lhes os Rolling Stones portugueses - de resto, foi assim que Nuno Braancamp, da empresa produtora do espectáculo, apresentou o grupo ao "management" da banda britânica -, e eles bem merecem o título. Pelo menos, o de melhor banda rock... portuguesa. Parabéns, Xutos!
'ROCKER' EM DIA SIM
Poderosos, é tudo o que se pode dizer dos Primal Scream que, gozando de alguma popularidade entre nós, fizeram do Municipal de Coimbra gato-sapato. Demolidor, o grupo fez a ponte ideal entre os Xutos e os Stones.
Bobby Gillespie, o vocalista, foi o exemplo do "rocker" em dia sim e cantou como se o palco fosse seu. Nada de novo para quem o conhece e o viu, por exemplo, no Festival do Sudoeste.
É verdade que o público esteve menos efusivo do que durante a actuação dos Xutos, mas é sabido que a questão do bairrismo pesa sempre um pouco nestas coisas. Ainda assim, merecem nota quatro pela forma como aqueceram as hostes, ora com os seus contagiantes ambientes piscadélicos ora com o seu corrosivo sentido de guitarra.
Por esta altura - em que muitos aproveitaram para comer uma "bucha" e beber uma cerveja -, já estávamos todos de parabéns e ainda faltava a melhor parte.
No início, porém, uma graça: Gillespie surpreendeu tudo e todos quando, ao microfone, declamou, em bom português, a lenga-lenga "pim pam pum, cada bola mata um".
OS DOIS ÚLTIMOS BILHETES
Afinal, ontem, ainda havia bilhetes para os Stones. Uma remessa de 200 unidades, proveniente de sobras de lojas em Lisboa, foi posta à venda junto ao Estádio Cidade de Coimbra, num autocarro amarelo onde também se trocavam os recibos do Multibanco. António Garcia Bueno (38 anos) e Miguel Angel de Lera (40), dois funcionários públicos de Salamanca, compraram os últimos, às 13h30. Depois disso, só na “candonga”.
Os espanhóis saíram de Salamanca às 10h00 com a esperança de ter um dia de sorte e estavam obviamente a transbordar de alegria quando o sonho se concretizou. “Estivemos toda a semana a tentar comprar bilhetes na Internet, mas pediam 200 euros”, explicaram. António, que tem a discografia completa dos Stones, incluindo edições piratas, assistiu ao primeiro concerto da banda em 1982, em Madrid, tinha 16 anos. Miguel, que ficou com o último bilhete, estreou-se em Bilbau, nesta digressão. “Fiquei encantado, por isso quis repetir”, afirmou.
Em redor do Estádio, desde manhã, vários “candongueiros” montaram um mercado paralelo de venda de bilhetes, apesar da apertada vigilância policial, sobretudo junto ao “autocarro-bilheteira”. Desta vez as contas parecem ter saído “furadas”. “Não há procura, toda a gente tem bilhete. Logo à noite vendem-se a cinco euros”, disse um deles, desanimado, ao CM.
VIERAM DA BÉLGICA DE PROPÓSITO
Estão, provavelmente, na lista dos fãs mais loucos em todo o Mundo. Patrick Sternotte (49 anos), Henri Warnants (43) e Dominique Chantraine (41) voaram da Bélgica de propósito para o concerto de Coimbra. Partiram ontem às 07h00 e regressam hoje ao meio-dia. Este é o 18.º espectáculo a que assistem da actual digressão “Forty Licks”. Patrick, o mais fiel dos três belgas, viu Mick Jagger e companhia em palco pela primeira vez em 1973, em Bruxelas. “Não me lembro de quase nada”, confessou ao CM .
Desde aí, a lista soma dezenas de concertos. “Não sei quantos são e recuso-me a contá-los”, disse. Há um, no entanto, que lhe ficou bem gravado na memória. Foi em Haia, na Holanda, há cinco anos, quando conheceu a banda e tirou uma fotografia ao lado de Keith Richards. “Foi um sonho. É a mais bela foto que tenho”, afirmou. Quando os espectáculos são na Bélgica, Patrick e a mulher, Dominique, dormem à porta do recinto, para garantirem um lugar “colado” ao palco. Desta vez, compraram os bilhetes pela Internet e nem a distância até Portugal os demoveu. “Temos o vírus dos Stones, que não se cura” e “esta pode ser a última digressão”, justificam. Keith Richards é o seu elemento preferido. “Ele faz coisas em palco que eu não conseguia quando tinha 25 anos”, justifica Patrick.
QUEM CORRE POR GOSTO NÃO CANSA
DORMIR NA RUA
A tarde de ontem ia a meio e ainda Horácio Fernando, de 30 anos, dormia num colchão à porta de um prédio com vista para o Estádio Cidade de Coimbra. Ele e dois amigos vieram de Fafe na sexta-feira e dormiram na rua, em frente ao recinto. “Cá em Portugal este é o último concerto de certeza”, disseram, justificando a viagem.
MAIS BARATO
À volta do estádio multiplicavam-se os vendedores ambulantes de ‘merchandising’ dos Stones. Os artigos mais vendidos eram as ‘t-shirts’, a 15 euros, seis vezes mais baratas do que as oficiais, que só podiam comprar-se depois de passada a primeira barreira de segurança. Os vendedores, clandestinos na sua maioria, são estrangeiros que acompanham a digressão.
O PRIMEIRO
Envergando uma ‘t-shirt’ do Super-Homem, Henrique Macedo, de 18 anos, não conseguia esconder o cansaço nem o entusiasmo. Com bilhete para a relva, foi o primeiro a chegar ao Estádio, para ser o primeiro a entrar, ficar bem junto do palco e guardar espaço para os amigos. Ocupou o seu lugar às 15h00 de sexta-feira e só de lá saiu por uma hora para ir a casa tomar banho e mudar de roupa.
A madrugada foi passada em branco, apesar dos colchões e das almofadas que levou. “A ansiedade era tanta que nem dava para dormir”, disse, convencido de que valeu a pena. “É uma oportunidade única. Quem corre por gosto não cansa”, confessou.
CASAMENTO
Dois jovens de 28 anos, de Mira e da Figueira da Foz, casaram-se ontem na Igreja de S. José, perto do Estádio, mas a cerimónia teve de ser antecipada. A pedido da Igreja, o enlace foi às 15h00 e não às 16h30, para que o final não coincidisse com a abertura das portas e alguns dos cerca de 300 convidados deixaram o carro longe e fizeram o trajecto a pé.
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