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Correio da Manhã

Cultura
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CM INSPIRA VENCEDOR

Chama- se António José dos Santos, tem 58 anos e é o mais recente vencedor do Salão Internacional de Pintura Naïf, facto a que o CM não é de todo alheio.
1 de Setembro de 2003 às 00:00
CM INSPIRA VENCEDOR
CM INSPIRA VENCEDOR FOTO: Carlos Neves
Com efeito, a fonte de inspiração para o primeiro quadro foi uma das revistas de domingo do Correio da Manhã. "Como não sabia o que pintar, limitei-me a tentar copiar uma imagem dos três reis magos que saiu publicada num dos números da vossa revista", revela o artista, naturalmente, autodidacta.
Vencedor da última edição do Salão Internacional de Pintura Naïf do Estoril, António José dos Santos, é um operário da construção civil, natural de Vila Viçosa, cuja paixão pela pintura começou há cerca de quatro anos, altura em que teve de pintar uma fita de fim de curso para uma das suas filhas.
Depois, aquilo que era suposto ser uma tímida aventura no mundo dos pincéis revelou-se na grata descoberta de mais um artista da "pintura dos ingénuos", cuja progressão teve agora o seu reconhecimento público, após a atribuição do Prémio Câmara Municipal de Guimarães pela obra "Procissão do Enterro em Zamora", um galardão que tem por finalidade distinguir o melhor trabalho de autenticidade naïf.
"Foi um início engraçado, dado que se não fosse a minha filha a pedir-me uma fita se calhar ainda hoje não sabia que o conseguia fazer. Surpreendidos com a qualidade do desenho, nesse mesmo ano, no Natal, os meus familiares ofereceram-me uma tela e foi aí que tudo começou", recorda.
EM NOME DA TRADIÇÃO
Começou então a investir em telas, pincéis e tintas, tendo já pintado mais de 120 quadros nestes três anos e meio de actividade. "Para além de colecções portuguesas privadas, já consegui 'exportar' os meus quadros para a Bélgica, Espanha e Suíça, num acto muito doloroso, uma vez que sempre que me desfaço de um quadro é um pedaço de mim que se vai embora".
António José dos Santos pinta essencialmente temas alentejanos e espanhóis, mormente os ligados às tradições locais de cariz religioso, nomeadamente, as que se perderam no voraz percurso dos tempos.
A sua pintura caracteriza-se pelo preenchimento integral do espaço proporcionado pela tela e pelo conteúdo altamente simbólico das cores e desenhos.
Com dois quadros expostos na Galeria Galileu, em Madrid, este alentejano vê agora o seu trabalho ser reconhecido em termos nacionais, com o júri do XXIV Salão Internacional de Pintura Naïf, que decorreu no Casino Estoril, a atribuir-lhe o primeiro prémio.
"Sinto-me muito orgulhoso, e para além disso este prémio é um incentivo para eu continuar, mas sempre como passatempo", afirma.
Nesta edição do Salão, a maior mostra de pintura naïf do País, participaram 63 autores, entre eles 27 portugueses, 16 espanhóis e duas dezenas de várias nacionalidades, desde africanos a latino-americanos, com um total de 130 trabalhos apresentados.
Conhecida como a "arte em estado puro" por os seus autores serem habitualmente autodidactas, a pintura naïf representa, sobretudo, temas da natureza, cenas do quotidiano, reproduções do sonho e do amor.
Os pintores naïf caracterizam-se por não estarem ligados a qualquer escola ou tendência artística e são muito identificados com a arte popular.
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