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Correio da Manhã

Cultura
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Colecção de fado por 1,1 milhões

Um milhão e cem mil euros é quanto vai custar ao Ministério da Cultura (MC), à Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a um mecenas bancário (não identificado) a aquisição da colecção de discos de música portuguesa do coleccionador britânico Bruce Bastin.
14 de Junho de 2007 às 00:00
A canção popular segundo Malhoa.
A canção popular segundo Malhoa. FOTO: d.r.
A compra põe fim a um processo negocial de seis anos, com o MC e a CML a acederem à pretensão inicial do coleccionador, que sempre reclamou 1,1 milhões de euros. Até há bem pouco, as entidades nacionais insistiam nos 900 mil euros. Tanto o MC como a CML vão desembolsar 400 mil euros, cabendo ao mecenas os restantes 300 mil euros.
O espólio – que ficará à guarda do MC e deverá integrar o futuro Museu da Música e do Som – é maioritariamente constituído por discos de fado e inclui registos fonográficos efectuados entre 1904 e 1945, que estavam dados como perdidos.
Entre os cerca de oito mil discos que estavam na posse de Bastin, encontram-se algumas das primeiras gravações de artistas como José Bastos, Isabel Costa, Rodrigues Vieira ou Delfina Victor. Encontram-se ainda baladas, folclore, canções ligeiras e fados de artistas mais conhecidos, como Maria Alice, Estêvão Amarante, Ercília Costa, Berta Cardoso, Armandinho ou Alfredo Marceneiro.
A colecção estava na mira do Estado português há muito. Segundo o investigador José Moças – que a descobriu e elaborou a primeira proposta de aquisição –, apesar da antiguidade, os discos estão em “muito boas condições” e são preciosos para a reconstituição da história do fado e da gravação em Portugal. Uma opinião partilhada por Julieta Estrela, presidente da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), que se confessa curiosa para conhecer algumas vozes de que só havia memória literária, bem como a forma como se interpretava e acompanhava instrumentalmente o fado. “Para os fados tradicionais e mais antigos – Corrido, Mouraria e Menor – poderá haver surpresas”, adiantou.
E se o musicólogo Rui Vieira Nery se congratulou com a compra do Estado português, a fadista Mariza, embaixadora da candidatura do fado a património imaterial da Humanidade pela UNESCO, disse à Lusa tratar-se de “uma notícia genial”. “É um sonho tornado realidade”, disse, ela que se bateu por esta aquisição. “Estou muito curiosa em saber o que nos reserva a colecção. Resta agora saber quando a vamos poder ver e estudar”, concluiu.
UM COLECCIONADOR COMPULSIVO
Bruce Bastin nasceu a 19 de Setembro de 1939, em Chelmsford, Reino Unido, e desde a sua juventude que se revelou um coleccionador compulsivo das denominadas ‘Músicas do Mundo’.
A sua paixão maior são os blues da Costa Este dos EUA (Piedmont Blues), de que possuía uma colecção (a maior do Mundo) já adquirida por entidades daquele país. Bastin possui ainda uma licenciatura em folclore atribuída pela Universidade da Carolina do Norte e é o autor do livro ‘Crying for the Carolines and Red River Blues: The Blues Tradition in the Southeast’. Em 1976, fundou a sua própria editora (Magpie Records), especializada em blues e jazz pré e pós Segunda Guerra Mundial.
O investimento na música de Portugal começou na década de 1970. Nos anos 90, Bruce Bastin passou pelo nosso país e adquiriu imensos discos esquecidos num velho armazém do Porto. A maior parte do espólio é constituído por discos de 78 rotações e não apenas de fado. Da colecção fazem também parte repertório de Revista e até uma gravação do texto da proclamação da República, em 1910.
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