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Correio da Manhã

Cultura
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CONTEÚDO EXPLÍCITO

O cada vez mais relevante movimento hip-hop português, conta com mais um "ponta-de-lança", de seu nome J-Cap, que em "Esperança ", o seu disco de apresentação, aposta em deixar de lado inibições verbais e mostra um álbum que merecia efectivamente o famigerado rótulo "Parental Advisory-Explicit Lyrics".
11 de Agosto de 2003 às 00:00
J-Cap assina uma produção acima da média
J-Cap assina uma produção acima da média FOTO: Direitos Reservados
Com efeito, J-Cap, que assina a produção de todos os temas (à excepção da faixa-título e da linha de baixo de "Raízes") lança no mercado nacional um disco de fazer corar os mais púdicos, ou, por outras palavras, o consumidor de música "made in Portugal" acostumado a escutar a língua de Camões cantada em versos politicamente correctos, à excepção das "cantigas malandras" dos cantores populares ou a pornochachada de uns Ena Pá 2000.
Mas para quem convive de perto com a realidade dos subúrbios urbanos, não será de estranhar a dureza que J-CAP imprime a temas com títulos como "Que Sa F..." ou "P...s" - em que a relação com o sexo oposto é descrita com muito pouco romantismo -, a apologia das drogas leves ("Intro"), ou a denúncia do racismo e exclusão social ("Que Sa F..."), sempre motivo de inspiração do género que, quase uma década depois do seminal "Rapública", parece ter assentado definitivamente arraiais em terras lusas, tal a diversidade de propostas a ver a luz do dia.
A ARTE DE MISTURAR
Voltando à "vaca fria", J-Cap, cujo currículo inclui uma estada na América do Norte, soube aproveitar da melhor forma as reminiscências do género "gangsta-rap" norte-americano, que deu a conhecer ao mundo verdadeiros fenómenos da arte de misturar o ritmo com a poesia, como Snoop Dogg, Dr. Dre ou Ice Cube, e transporta a descrição do quotidiano dos bairros violentos da terra do Tio Sam para a realidade portuguesa (se é que é possivel a comparação). Paralelamente, a glorificação do estilo de vida "player" (algo como "espalha-brasas" ou "manda-chuva"), das festas, mulheres e "poder" percorre todo o disco.
Contudo, a verdade é que J-Cap se revela em "Esperança" um excelente produtor, apoiando as rimas em melodias bem conseguidas - uma pecha muitas vezes apontada a outros produtos do género - e uma métrica vocal em que privilegia a compreensão em vez do rimar "à desgarrada", num português escorreito, aqui e ali pontuado por tiradas em inglês e crioulo.
Dificilmente será um disco para o grande público, mas merece a curiosidade.
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