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Correio da Manhã

Cultura
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Costa diz que Web Summit coloca Lisboa no "coração" do debate sobre os desafios globais

Primeiro-ministro marcou presença no evento, assim como, António Guterres e Fernando Medina.
Lusa 6 de Novembro de 2017 às 21:02
Fernando Medina (CM Lisboa); António Costa (Governo); António Guterres (ONU)
António Guterres,secretário-geral da Organização das Nações Unidas
Fernando Medina (CM Lisboa); António Costa (Governo); António Guterres (ONU)
António Guterres,secretário-geral da Organização das Nações Unidas
Fernando Medina (CM Lisboa); António Costa (Governo); António Guterres (ONU)
António Guterres,secretário-geral da Organização das Nações Unidas
O primeiro-ministro considerou esta segunda-feira que a Web Summit coloca Lisboa pelo segundo ano consecutivo no "coração" do debate sobre os grandes desafios da humanidade, num discurso em que fez rasgados elogios à crescente presença de 'startup' portuguesas.

António Costa falava, em inglês, na parte final da noite da abertura da Web Summit, já após terem passado pelo palco a comissária europeia da concorrência, a dinamarquesa Margrethe Vestagen, e o secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres.

"A Web Summit não torna Lisboa apenas a capital do empreendedorismo em inovação tecnológica. Coloca-a também no coração do debate global sobre os grandes desafios da humanidade: Esperanças, medos, alterações climáticas, inteligência artificial ou combate às desigualdades", declarou o primeiro-ministro.

A parte em português do discurso do primeiro-ministro foi porém marcada por um grave erro cometido pela equipa de tradução para a legendagem em inglês. Quando António Costa falou no ecossistema das 'startup' em Portugal, nas legendas apareceu 'ecossistema do porco'.



Na sua intervenção, que antecedeu a do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, o chefe do Governo defendeu que Lisboa é a cidade "natural" para acolher o tipo de eventos como a Web Summit, "porque foi ao longo de séculos ponto de contacto entre pessoas de diferentes culturais".

"A nossa história, a nossa geografia e cultura fez de nós uma sociedade aberta, uma ponte entre diferentes continentes".

Em língua portuguesa, o primeiro-ministro manifestou-se orgulhoso com "o trabalho, com a dinâmica e vibração do ecossistema das 'statup' nacionais".

"A capacidade de inteligência, a criatividade e a energia têm transformado as oportunidades de ideias apreendidas. Aproveitem muito bem esta semana e as oportunidades que têm de conhecer pessoas de todo o mundo", disse, numa mensagem aos portugueses presentes na Web Summit.

Guterres defende conjugação de esforços para fazer face aos desafios do futuro
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defendeu esta segunda-feira em Lisboa a necessidade de combinar os vários setores da sociedade para responder ao impacto da quarta revolução industrial, marcada pela generalização da tecnologia na vida diária.

"Temos de olhar para o futuro próximo com uma visão estratégica, que combine a atuação de governos, sociedade civil, setor privado e academia para que a inovação tecnológica seja uma força para o bem", defendeu o antigo primeiro-ministro português na sua intervenção na Web Summit, que hoje arrancou em Lisboa.

"Esta quarta revolução industrial terá um impacto dramático nas sociedades e na nossa maneira de viver nos mercados, por isso é importante antecipar o impacto da evolução tecnológica", disse Guterres, exemplificando com os condutores nos Estados Unidos.

"Os condutores são a maior força de trabalho onde eu vivo, nos Estados Unidos, mas com a automatização e a robotização teremos de aprender a antecipar o futuro para evitarmos uma taxa de desemprego massiva", acrescentou.

"Não é aprender a fazer coisas, mas sim aprender a aprender, porque as coisas que fazemos hoje não são as coisas que faremos amanhã", argumentou o secretário-geral da ONU, vincando que a solução não pode ser travar a tecnologia.

"Temos de evitar a reação estúpida de tentar parar a inovação, isso é estúpido porque é impossível e porque impede que tenhamos os benefícios positivos, mas temos também de evitar a ingenuidade de pensar que as formas tradicionais de regulação para setores como a energia ou o sistema financeiro podem resolver o problema", disse Guterres.

Numa intervenção onde passou em revista alguns dos principais problemas que, na sua opinião, a Humanidade está confrontada, como as alterações climáticas, o crescimento económico, a pobreza ou as migrações resultantes das desigualdades, Guterres defendeu que "a globalização é uma força para fazer o bem, e as novas tecnologias também", mas admitiu haver danos colaterais.

"A resposta aos danos colaterais é uma globalização justa, mas a boa notícia é que a ciência está do nosso lado", defendeu o diplomata, vincando que "a economia verde é a economia do futuro, por isso pode-se fazer dinheiro e fazer o bem".

Na intervenção, Guterres salientou ainda a importância da discussão sobre estes problemas, defendendo que "é bom que os participantes aqui comecem a discutir o impacto da quarta revolução no futuro, porque a ciência e a tecnologia não são neutras, podemos erradicar doenças com engenharia genética, mas também podemos criar monstros; podemos usar o ciberespaço para melhorar a vida das pessoas ou para facilitar o terrorismo", alertou.

Medina presenteia fundador com astrolábio, que marca uma nova aventura
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, ofereceu esta segunda-feira um astrolábio a Paddy Cosgrave, o fundador da conferência de tecnologia e empreendedorismo Web Summit, que simboliza uma aventura, a par dos descobrimentos.

Medina subiu hoje ao palco da Websummit, ao lado do fundador e do primeiro-ministro, António Costa, para dar as boas-vindas a todos os participantes da conferência naquela que "é também a vossa casa", disse.

"Espero que tenham tempo para conhecer melhor a cidade, senti-la, amá-la e vivê-la como um amigo", disse o presidente da Câmara, dirigindo-se aos participantes em inglês.

Ao oferecer o astrolábio, um instrumento utilizado pelos navegadores durante os descobrimentos portugueses, Medina apontou que a prenda é "em nome da cidade, em nome de todos", que simboliza duas coisas.

"Lisboa era a capital do mundo há cinco séculos, daqui partiram rotas para descobrir novos mundos, novas pessoas, novas ideias. De Lisboa partiu uma grande aventura que conectou a raça humana", apontou.

Hoje renova-se a aventura a partir de Lisboa, continuou o presidente, apontando que a parceira de Lisboa com a Websummit "é a longo prazo".

"Há 500 anos os navegadores cruzaram os mares. Hoje são vocês, os engenheiros, os empreendedores, os criadores, os inovadores, as start-ups, todas as empresas", disse o socialista aos 15 mil presentes.

Fernando Medina aproveitou também para marcar o caráter acolhedor da sociedade lisboeta e portuguesa, atirando que "a inovação que Lisboa atravessou há 500 anos deveu-se ao facto de a cidade e Portugal terem uma sociedade aberta".

Apontando que Lisboa "era o local para aqueles que escapavam a outras partes do mundo", o presidente elencou que o próprio astrolábio "foi desenvolvido por alguém que fugia de Espanha naquela altura".

Medina quis deixar então a mensagem de que é importante "para o futuro manter todas as sociedades e as cidades abertas".

"Liberdade, tolerância, diversidade, capacidade de compreensão e de falarmos uns com os outros são os valores de Lisboa e os valores que queremos manter", vincou.

Já no ano passado, o líder do executivo tinha oferecido a Paddy Cosgrave a chave da cidade.

Comissária europeia para a concorrência defende regulação para evitar "selva"
A comissária europeia para a Concorrência, Margrethe Vestager, defendeu esta segunda-feira a necessidade de regular o mercado empresarial com "as ferramentas certas", evitando que se torne numa "selva".

"Para nós o desafio é criar as ferramentas certas. Necessitamos de uma concorrência justa para ter um mercado justo" e de "ser rápidos" a atuar, declarou Margrethe Vestager, que falava na sessão de abertura da cimeira de tecnologia e empreendedorismo Web Summit, no Parque das Nações.

A responsável, que estava a ser entrevistada em direto pela editora executiva da publicação digital norte-americana Recode, Kara Swisher, confidenciou que nunca se sente "tão europeia" como quando está nos Estados Unidos, pelas diferenças entre o mercado europeu e o daquele país.

"Construímos um mercado enorme [na Europa], mas é um mercado em que nos preocupamos com o ambiente, condições de trabalho", enumerou, falando na necessidade de intervir para evitar que impere "a lei da selva, mas sim as leis da democracia", numa altura em que os Estados Unidos assistem à revogação de vários quadros legais.

Questionada sobre as novas revelações do caso 'Paradise Papers', no qual foram divulgados documentos referentes a paraísos fiscais, Margrethe Vestager foi assertiva: "Isso tem de mudar".

E isso passa, a seu ver, por obrigar os países a divulgar os seus rendimentos, "em nome da transparência".

Depois das multas aplicadas pela União Europeia à Google, Margrethe Vestager referiu também que as empresas não devem temer a concorrência, exemplificando que "todas as empresas" queriam ter o sucesso desta gigante norte-americana, mas isso implica regras.

"Quando tu cresces, não deves rejeitar os teus concorrentes nem achar que não há mais desafios", observou, adiantando que aí cabe às autoridades atuarem para "dizerem como é que o mercado tem de funcionar".

Já aludindo a uma das vertentes da tecnologia, as redes sociais, salientou que "é necessário recuperar a democracia".

"Não podemos deixá-la [ser guiada] pelo Facebook, pelo Snapchat ou por outra rede social. A sociedade foca-se nas pessoas e não na tecnologia", adiantou.

Também presente na ocasião, o fundador da empresa que cria produtos de Inteligência Artificial (IA) Kernel, Bryan Johnson, sustentou que "o futuro é complexo".

"As coisas estão a mudar muito rapidamente e está a tornar-se incrivelmente difícil lidar com a sociedade", admitiu, vincando que, ainda assim, é possível lidar com a Inteligência Artificial (IA)sem que esta se torne numa "inimiga".

Cientista Stephen Hawking otimista, mas lança avisos sobre Inteligência Artificial
O cientista Stephen Hawking manifestou-se esta segunda-feira, na Web Summit, otimista sobre o uso que se dará à Inteligência Artificial (IA), mas lançou sérios avisos porque este processo pode ser o "melhor ou o pior para a humanidade".

Através de uma mensagem vídeo, divulgada nos dois ecrãs gigantes do palco principal da cimeira de tecnologia, o renomeado físico teórico e cosmólogo britânico afirmou o seu otimismo e a sua crença de que a IA pode tornar o mundo melhor.

"Apenas necessitamos de estar cientes dos perigos, identificá-los e empregar a melhor prática e gestão e preparar as consequências (da AI) com bastante avanço", comentou o cientista, numa posição divulgada na cerimónia de abertura da Web Summit, que fez esgotar a capacidade de 15 mil pessoas na Altice Arena, no Parque das Nações (Lisboa).

Recordando a sua própria experiência de uso de tecnologia, uma vez que é tetraplégico e sem possibilidade de falar, o cientista, que ajudou a compreender nomeadamente o papel dos buracos negros, referiu que esta nova revolução tecnológica talvez possa fazer anular os danos infligidos no mundo natural pela industrialização.

"Nós poderemos ansiar finalmente a erradicar a doença e a pobreza. Todos os aspetos das nossas vidas serão transformados", admitiu o professor, que argumentou sobre o papel que todos têm para garantir que esta e a próxima geração "têm não só a oportunidade, mas a determinação para se comprometerem inteiramente com o estudo da ciência num nível antecipado para se alcançar o potencial e criar um melhor mundo para toda a raça humana".

O cientista enumerou algumas eventuais consequências pelo mau uso, como armas autónomas, que podem destruir seres humanos, para resumir que a AI pode ser o "melhor ou o pior que acontece à humanidade".

O vídeo da intervenção do cientista foi lançado pelo português Nuno Sebastião, fundador e dirigente da Feedzai, que opera na área da Inteligência Artificial para prevenir fraudes.

Na sua intervenção, Nuno Sebastião recordou a herança que os exploradores deixaram aos portugueses, exemplificando com o navegador Fernão de Magalhães.

"A minha própria viagem começou na agência espacial europeia, a ultrapassar novas fronteiras", referiu o CEO, que comentou a sua atual atividade na IA, na qual continua a querer "ultrapassar fronteiras" com inovação e conhecimento.

"E também para construir um novo mundo", referiu o português, garantindo que neste caminho há responsabilidades, riscos e desafios, sublinhando a importância de colocar a IA com "bom uso".

E assim deixar "filhos e netos agradecidos pelo pioneirismo", concluiu.
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