Com texto de Francisco Moita Flores e música de Rui Veloso e João Gil, estreou ontem, no espaço do TIO – Teatro Independente de Oeiras, sob a direcção de Carlos d’Almeida Ribeiro, a comédia musical ‘Marquês de Pombal’, um espectáculo que mistura o tom burlesco com piadas que aludem directamente, sem dó nem piedade, à nossa realidade política.
Imagine-se um empregado de mesa que um dia – porque ninguém quer assumir o cargo – se vê investido da nobre posição de primeiro-ministro (PM). Não tem qualquer talento mas “fica bem nas fotografias”. Não tem curso, mas isso também “se arranja”. Há dois mandatos que consegue maioria absoluta e o resultado está à vista: “O défice de Estado é maior do que a dívida do Benfica.”
Quando o pano levanta e a acção arranca, encontramos Bernardino Trancada, o nosso PM – Igor Sampaio, vestido meio de rosa, meio de laranja (!) – a braços com uma crise: Portugal está a ser invadido por uma praga de pulgas. Não há quem lhe valha e só a intervenção do Marquês de Pombal, o seu ídolo, salvará o herói da desgraça certa.
Como facilmente se depreende, ‘Marquês de Pombal’ é uma sequência de disparates destinados a fazer rir a plateia e recorre a vários géneros teatrais na mira de diversificar o entretenimento. No fundo, é uma farsa que, aqui e ali, tem uns quadros revisteiros e, sensivelmente a meio, uma parte histórico-trágica: quando se recordam as maldades operadas pelo Marquês, com o processo dos Távoras e o assassinato do padre Malagrida.
Importante, também, é o elenco – liderado pelos veteranos Rita Ribeiro, Igor Sampaio e Eduardo Viana, mas onde pontua o nome de Daniela Ruah (em vários pequenos papéis) – e o cenário, uma espécie de caixa mágica que, virando-se, revela uma versatilidade inesperada.
O espectáculo, que tem muitas canções de tom diverso, desde o fado ao reggae, termina com música, tendo a Bandeira Nacional como pano de fundo. Sob esta a legenda: “Manobrar com Cuidado, Preso por Arames”. Será preciso dizer mais? Para ver até 12 de Agosto.
- 1699 foi o ano em que nasceu Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde Marquês de Pombal, braço-direito do rei D. José e figura fundamental na reconstrução de Lisboa depois do Terramoto de 1755.
- 90 mil pessoas morreram no sismo que afectou a capital, que, na altura, tinha um total de 275 mil habitantes.
NA PELE DA AMANTE
Na cena de flashback em que se recordam os tempos de Pombal, Daniela Ruah dá corpo a Teresa Leonor, a amante do rei D. José, afastada pelo Marquês por estar casada com um Távora.
A FILHA BEATA
Após a morte de D. José, sucede-lhe no trono a filha Maria, que odiava o Marquês e que, assim que assumiu a coroa, lhe retirou todos os poderes. No espectáculo, D. Maria II é interpretada pela actriz Rita Viegas.
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