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Correio da Manhã

Cultura

Cuca Roseta tem novo disco

‘Riû’ é novo trabalho da fadista.
Miguel Azevedo 16 de Maio de 2015 às 22:56
Cuca Roseta
Cuca Roseta FOTO: Pedro Catarino

Este é o disco menos fadista da Cuca Roseta e o mais ‘cançoneteiro’. Foi pensado para ser assim ou aconteceu?
Foi um pouco das duas coisas. Este foi um disco pensado para ser mais world music. O Nelson Motta, o produtor, pensou neste disco como um fado para o Mundo.

Mas o fado já é do Mundo!

Sim, é verdade. O fado conquista o Mundo todos os dias, até porque nós cantamos mais lá fora do que cá dentro. Mas foi por isso que pensámos em fazer um encontro de fado com várias culturas e falar um pouco da raiz do fado. Este disco tem, por exemplo, muito de África, do Brasil, de Espanha ou de Itália. Tem muitos compositores estrangeiros que trouxeram este lado mais de canção ao disco.

E será que quem acompanhava a carreira da Cuca vai perceber esta ideia e esta intenção?

Acho que sim, porque este disco foi feito a pensar naquilo que o público me tem dito ao longo dos últimos anos: que sou uma fadista fresca, leve e positiva. E com este disco quis precisamente mostrar o lado positivo do fado. Este ‘Riû’ é um disco que tem muita intensidade e que tem letras que me dizem muito, e acho que isso é o mais importante no fado. A mensagem do fado é sempre a verdade que nós pomos nas letras, a declamação de poesia. Isso tem de estar lá sempre. E isso está uma vez mais neste disco.

Mas está a criar um fado muito seu, é isso?

Já se viu fadistas a cantar outras músicas e a dar o seu cunho pessoal. Tudo tem a ver com a forma como nós interpretamos as letras. É aí que a música deixa de ser superficial para passar a ser profunda. E este é um disco muito profundo.

Com uma Cuca também muito profunda?

As pessoas vão encontrar uma Cuca mais positiva e com ritmos mais alegres.

Porquê ‘Riû’?

Este título tem muito a ver com o facto de todos os meus discos terem uma ligação à natureza. No primeiro, havia uma pena; no segundo, uma raiz; e agora, a água.

E porquê a água?

Porque o fado é uma coisa muito pura, muito genuína e natural. E aquilo que o fado me dá é exatamente o mesmo que a natureza me traz. Eu sou uma pessoa que precisa de estar muito no meio da natureza. Sou uma pessoa que faz, por exemplo, muitas trilhas, porque preciso mesmo de encontrar o meu equilíbrio e a minha paz.

Por associação, o fado também lhe dá isso?

Sim, sem dúvida nenhuma. Por isso, este título, ‘Riû’, simboliza duas coisas: alegria e água. Uma água que pode unir Portugal ao Brasil, mas também Portugal ao Mundo.

Esperança é uma palavra que tem usado recorrentemente para definir este novo disco. Esperança porquê?

Porque o fado também é esperança, não é fatalismo. Claro que o fado pode ser visto de uma forma mais triste por aquelas pessoas que se focam mais no momento da tristeza. Mas também pode ser visto pelo momento que se segue à tristeza, que é o que nos faz crescer. E eu sou uma pessoa que, apesar de ser melancólica, nostálgica e romântica, e de ser muito emocional, também sou muito positiva. Eu vejo sempre o que vem a seguir. Nunca me foco no cair, foco-me sempre no levantar.

E é possível o fado passar essa mensagem?

Sim. Este disco tem, por exemplo, um fado chamado ‘O Fado Fé’, que tem uma letra antiquíssima do Fernando Farinha que é muito positiva. No fundo, o que este fado mostra é que ainda existe um preconceito em relação ao fado. O fado não é sempre triste. O fado é intensidade e sentimento.

Mas sente que ainda existe muito esse preconceito?

Existe. É capaz de ter deixado de existir para muita gente, mas ainda há muitas pessoas que vêm ter comigo a perguntar-me porque é que canto fado, que isso é para as pessoas que se queixam da vida. Dizem-me que é horrível e que não tem nada a ver comigo.

E como é que reage a isso?

Parto sempre do princípio de que quem diz isso fá-lo porque nunca ouviu fado com atenção e, sobretudo, os novos fadistas.

Mas há cada vez mais gente nova a ouvir fado. Os festivais de verão até já têm uma componente fadista. E se têm é porque há público.

Sim, o fado já está nos festivais e já há fadistas com letras novas e diferentes a tentar encontrar o seu próprio caminho, como o António Zambujo, a Ana Moura ou a Gisela João. Por causa destes novos fadistas, há público que se vai identificando com estas novas letras e que vai chegando mais perto do fado.

Mas há quem diga que determinados fadistas não fazem fado!

Sim, pois há. Mas eu não concordo. Há quem diga que o que o António Zambujo faz já não é fado. Mas eu acho que é o fado dele. Há pessoas que se dizem puristas e que não se cansam de dizer que nenhum de nós é fadista, que a Carminho, porque usa bateria, já não é fadista, que o Camané, porque cantou com não sei quem, já não é fadista, etc. E isso é um absurdo, porque o fado é e deve ser sempre o grito do povo. O fado deve acompanhar aquilo que nós vivemos. Não podemos esquecer que nós estamos nesta época, falamos das nossas vivências, e o fado tem de acompanhar isso. Pessoalmente, acho maravilhoso o que está a acontecer com o fado.

Mas não se está a desvirtuar?

Não, na minha opinião não se está a estragar a raiz ou a essência do fado, porque é isso que continua a conquistar o Mundo.

Já disse que os fadistas tocam cada vez mais lá fora. Sente que o fado é cada vez mais universal?

Sim, completamente. Acho que posso falar por muitos dos meus colegas, todos nós cantamos mais lá fora do que em Portugal. É verdade que já se começa a valorizar mais o fado em Portugal; veja-se o Norte, por exemplo, onde não há grandes referências fadistas, que começou a interessar-se pelo fado. Só que a paixão que se tem lá fora pelo fado é incrível. Chega a ser emocionante. E é isso que nos faz perceber que esta música é especial e mágica. É isso que nos faz apaixonar-nos por ela. Se formos ver, o fado ultrapassa todas as barreiras e todas as fronteiras, vai para lá da língua e para lá das culturas. Emociona toda a gente.

E isso é fácil de explicar? Como é que o fado toca um alemão ou um nipónico que não entende uma única palavra cantada?

Eu não sei explicar bem. O fado vive muito da letra, mas lá fora vive da intensidade que nós conseguimos impor às palavras e da emoção que conseguimos passar. E quando isso acontece, para mim, é como se acontecesse magia. Por isso é que para cantar o fado é preciso ser-se apaixonado por esta música. E é por cantarmos precisamente com paixão que nunca deixamos de ser fadistas.

Portugal está na moda por causa do fado?

Sem dúvida. Há muitas pessoas que não sabem onde é Portugal, e quando nós levamos esta música toda a gente quer saber do nosso País, quem nós somos e de onde vem o fado.

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