Só esse assumir da primeira pessoa, que não convém confundir com egocentrismo, permite a Sara Tavares passear a sua voz, mais madura e mais natural do que nunca.
Se poucos fossem os seus dotes e parcos os horizontes da sua forma de cantar, a Sara Tavares se aplicaria agora a – pesada – sentença: esqueçam tudo o que ouviram antes, que é ‘Balancê’ que se revela, finalmente, o estilo que, até agora, apenas se lhe adivinhava. Ao terceiro disco, cinco anos depois de ‘Mi Ma Bô’, precursor deste percurso de assimilação de culturas, linguagens, palavras e sentimentos, a menina que nos habituámos a ver como um ‘prodígio’, depois como um talento, agora como uma autora de corpo e alma inteiros, dá o grande salto em frente. De uma forma tão simples que nem deixa transparecer o tempo de procura de um lugar próprio na música. De um jeito tão firme que ficamos a saber, passadas as 13 canções de ‘Balancê’, que esta mulher merece, mais do que nunca, figurar entre as eleitas.
Cumpriu o seu percurso debaixo dos focos: ganhou o primeiro ‘Chuva de Estrelas’ sendo mais Whitney do que a própria Houston, ganhou o Festival RTP da Canção, justificando – mais do que a cantiga – que era nosso dever de ocasião ‘Chamar A Música’. Ainda era ‘teenager’, em ambos os triunfos. Não seguiu o trilho mais fácil, o das cançonetas de meia tigela condenadas ao caldo do esquecimento. Pelo contrário: fez questão de romper com a ausência de tradição nacional no ‘gospel’ estreando-se em nome próprio com os Shout!. Cresceu para lançar ‘Mi Ma Bô’, sinal exterior de que as raízes cabo-verdianas começavam a dar frutos.
Preferiu amadurecer discretamente, sem pressas, aparecendo aqui e ali em colaborações, até chegar à síntese feliz, bem-disposta, avassaladora, singular, que agora se espraia por este ‘Balancê’ que está – qualquer que seja o ponto de arranque e o universo de análise – entre os melhores discos produzidos em Portugal ao longo de 2005.
A música de Cabo Verde tem aqui presença de vulto, não só pela utilização do crioulo mas muito mais pela atitude ora dolente ora dançante, deliciosa e delicadamente ingénua, que respira em quase todos os temas.
De igual modo sentem-se os matizes do samba, do reggae, do rap, da soul – do que se queira entre as músicas de raiz, ainda despoluídas de fórmulas resolventes. Mas nada disto surge aqui como cópia, como tradução acéfala, como ‘copy paste’, já que tudo passa pelo filtro pessoalíssimo da própria Sara Tavares, responsável (com excepção de ‘Dam Bô, de Hernany de Almeida) por todas as composições, mais pela saltitante mas impressiva guitarra acústica.
Só esse assumir da primeira pessoa, que não convém confundir com egocentrismo, permite a Sara Tavares passear a sua voz, mais madura e mais natural do que nunca, com parceiros tão distintos como o ‘rapper’ Melo D, como o cabo-verdiano Boy Gé Mendes, um dos embaixadores ‘export’ da música das ilhas, ou como a fadista Ana Moura, sem esquecer o ‘diálogo’ com o mandolim de Júlio Pereira no superlativo ‘Bom Feeling’.
Muito mais do que os rótulos, é aquilo que se bebe que verdadeiramente conta. De forma expressa, este disco embala, faz sorrir, extasia, dá vontade cantarolar, abre as janelas para deixar entrar uma luz que, de tão ‘naïf’, se aproxima da transcendência. Sara canta em Português, Inglês (o ‘one love’ de Bob Marley está presente), Francês de circunstância, Crioulo de marca. Mas apetece resumir dizendo que da voz nasceu uma cantora – Sara Tavares, com este fantástico ‘Balancê’, canta em Música. Se é que me faço entender.
É ainda o mesmo homem de ‘Maiden Voyage’ e ‘Speak Like A Child’, o líder da fusão com os Headhunters, o patrono de trabalhos de paixão como ‘Gershwin’s World’ e ‘Round Midnight’. Agora, HERBIE HANCOCK e o seu piano exercitam o estilo em diálogos com Paul Simon, Sting, Joss Stone, Annie Lennox, Santana, Angélique Kidjo e John Mayer, entre outros. Merece atenção e é via rápida para o prazer. Christina Aguilera canta Leon Russell, Miss Lennox canta Paula Cole. Uma enorme festa de intercâmbios.
Nasceu em Londres, ligou-se à música na Índia, faz a ponte entre sons ‘afro’, indianos e de um jazz leve, cheio de espaços para o silêncio e para uma instrumentação peculiar (muitas cordas, tradicionais da Índia, guitarra). Venceu o prémio de revelação de ‘world music’ atribuído pela BBC e chega em perfeito estado de graça ao terceiro álbum, ‘Music For Crocodiles’. É uma boa oportunidade para conhecer a inspirada SUSHEELA RAMAN e recuperar os discos anteriores, ‘Salt Rain’ e ‘Love Trap’.
O cantor, Bertrand Cantat, está preso desde Julho de 2003, acusado da morte da actriz Marie Trintignant. O que significa que a sua colaboração para ‘En Public’, o soberbo duplo CD de palco dos NOIR DESIR, foi prestada na cadeia. O álbum, retrato da digressão que se seguiu ao êxito de ‘Des Visages, Des Figures’, é soberbo, percorre 15 anos de gravações, ensaia versões de Léo Ferré, Jacques Brel e King Crimson. O crime é, agora, que este registo de proa do melhor rock francês não chegue cá.
Outro duplo, outro registo ao vivo, outro momento alto da nova música francesa, outra aposta que ameaça ficar por fazer cá. No entanto, SANSEVERINO é um ‘entertainer’ de primeira linha, um homem que navega sem medo pelas águas do swing, da java, dos blues e da canção francesa. Depois de dois álbuns de estúdio (‘Le Tango des Gens’ e ‘Les Sénégalaises’), o projecto mostra-se maduro e de eficácia perfeita, entre tradição e modernidade. Com tempo para visitar Boris Vian e Django Reinhardt.
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