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Correio da Manhã

Cultura
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DE GEDEÃO A TAGORE

António Gedeão e Rabindranath Tagore, António Simões e João-Maria Vilanova têm em comum a poesia e obras recém-editadas e a diferenciá-los, descubra o leitor, poema a poema.
9 de Outubro de 2004 às 00:00
Numa iniciativa editorial da Relógio d’Água, uma pérola para os incondicionais de António Gedeão: ‘Obra Completa’.
Pseudónimo literário do professor Rómulo de Carvalho, serão poucos os que lhe recordam os manuais escolares mas menos ainda os que lhe não reconhecem os versos que ganharam o mundo na voz de Manuel Freire: “Eles não sabem que o sonho/ é uma constante da vida/ tão concreta e definida/ como outra coisa qualquer (...)”.
“Neste livro reúne-se, pela primeira vez, a obra (poética, novelística, teatral e ensaística) de António Gedeão”, da nota do editor, onde, a propósito, lê-se mais: “Em anexo publicam-se os seus principais escritos de infância e juventude que testemunham da sua precocidade, da persistência dos temas e de um constante amadurecimento”.
“(...) Eles não sabem, nem sonham/ que o sonho comanda a vida/ que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança”: ‘Pedra Filosofal’, o poema (de que aqui deixamos princípio e fim), foi pela primeira vez publicado no livro ‘Movimento Perpétuo’, de 1956, não obstante, ficou sempre cartão de visita de quem o escreveu e de quem o cantou.
‘Amor é um Fogo que Arde Sem se Ver’, livro de António Simões que a Campo das Letras acaba de publicar, tem este título a remeter para um outro e não é por acaso... São sessenta poemas de homenagem a Camões: “homem corajoso e sonhador”, “vencido” e “vencedor”.
Na prosa que lhe antecede a poesia, o autor dá conta da eleição do soneto como género, alegando senti-lo como “um lugar aprazível”.
“Poeta angolano da modernidade e da experimentação”, assim é João-Maria Vilanova segundo a Caminho, editora que, com esta reedição, o resgata a trinta anos de silêncio. O seu nome: ‘Poesia’.
“Com a lua cheia no meio;/ Estás sempre em paz, Eu estou sempre inquieto,/ Embora no horizonte distante/ Nos encontremos sempre”, excerto de ‘Tu e Eu’, poema de Rabindranath Tagore, retirado de uma colectânea inédita entre nós como inédito é o conhecimento da ‘Poesia’ de quem conquistou tudo e todos com a prosa com que construiu ‘A Casa e o Mundo’, a obra referência.
“A vida é outra coisa. É sobretudo isto, toda esta matéria delicada e dócil que encontrei em Tagore”, do prefácio à edição, da Assírio & Alvim, de quem lhe seleccionou e traduziu poema a poema: José Agostinho Baptista.
'ESTA VOZ É QUASE O VENTO'
José Agostinho Baptista está de regresso à poesia e o sucessor de ‘Anjos Caídos’ responde por ‘Esta Voz é Quase o Vento’, uma edição da Assírio & Alvim, apresentada ontem no café-galeria Verde Perto, em Lisboa.
“Já disse, tantas vezes,/ adeus às palavras,/ às grutas sombrias onde a serpente se esconde./ Na clareira em frente nunca bate o sol”, assim se explica quem de tanto se despedir, já só sabe regressar: “Regresso sempre pela madrugada. Ninguém me vê. A paz dos meus olhos seria capaz de trazer ao mundo uma nova ordem/ centeio, malte fumo, algumas rosas”.
Alegria breve a do encontro e o tempo é já de desencontro: “Não está certo que assim seja, que se soltem do/ nosso peito, um após outro,/ os delicados fios de ouro da ternura./ Deixo-vos as maçãs verdes sobre a mesa. Com o tempo, tudo há-de amadurecer”. E, entre uma e outra coisa, está lá tudo, sem rumo nem rota, no vento!
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