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Correio da Manhã

Cultura
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DE PRIMEIRA LINHA À TERCEIRA VOLTA

Por excepção, apenas "localizadora" do que a seguir se escreve, um aviso prévio: respeitando a integridade dos Silence 4, aplaudindo o êxito alcançado junto de uma imensa maioria, nunca fui fã do quarteto.
11 de Maio de 2003 às 00:00
Talvez porque as catadupas de "angst" pareciam maiores que o próprio grupo para serem verdadeiras. Depois, por palpite de que aquele seria mais um "one hit wonder", um sucesso meteórico e rapidamente atirado para o esquecimento. No limite, é essa "distância" que me permite agora apostar que "Sing Me Something New" (ed. Universal, a lançar amanhã, segunda, 12), estreia a solo da voz e alma dos Silence 4, ficará entre as melhores marcas nacionais de 2003. Para já, serve como sinal exterior de um cantor e autor em crescimento "uniformemente acelerado", capaz de divertir, comover, ironizar, contagiar e multiplicar temas que, de uma vez por todas, o colocam no posto de "caso sério" da criação.
Muito bem: David Fonseca continua no inglês, a respeitar o formato da canção, a adoptar um estilo confessional que se aproxima da criação na primeira pessoa. Mas, quase por instinto, apetece dizer que estas canções são tão claras, rigorosas, abertas e apetecíveis como as fotografias que se espalham ao longo do encarte do CD. Porque ele está mais velho e as histórias e ideias se moldam, feitas por medida, à personalidade que lhe imagino? Sim. Porque o álbum, 70 minutos, 14 canções e vinheta introdutória, foi concebido com tempo e sem a pressão que os antecedentes numéricos poderiam inflingir-lhe? Claro. Porque, neste exercício solitário, só "desmentido" pela extraordinária "sagesse" do produtor e músico ocasional (aqui…) Mário Barreiros, mais um par de participações avulsas, o autor descobre novos horizontes para desenhar os cenários do que quer dizer-nos? Evidentemente.
Parece-me um erro limitar as influências de David Fonseca a um núcleo restrito de grupos de culto. Este álbum demonstra, de jeito abundante, que este músico é também um atento ouvinte e que, talento reservado a poucos, é capaz de aproveitar pedacinhos "das melhores proveniências" para modelar uma personalidade própria. Vejam-se os casos de "The 80's", um fantástico somatório de "déjà vu" que até acaba por gerar um tema original. Ou "Playing Bowies With Me", uma homenagem (?) a um dos grandes.
Os golpes de génio, aquelas canções "condenadas" a fazer-nos companhia durante muito tempo e sem hora marcada, são múltiplos: "So You Want To Save The World", que toca a todos, mais tarde ou mais cedo; "U Make Me Believe", que começa quase à Sylvian e que também tem guião universal; "Haunted Home", um declarado supra-sumo do intimismo, a abrir portas a uma "sequela" notável, "Summer Will Bring You Over"; a cadência avassaladora de "Sing Me Something New", outro desafio ganho, com contornos autobiográficos; para o fim, deixo a obra-prima deste álbum, aquela que será - pelo texto, pelo arranjo debruado a cordas, pela alma e pela forma - a mais "eterna" das canções, a genial "Someone That Cannot Love", com entrada directa para a lista dos "clássicos".
Talvez excluísse os "pequenos cantores" de "In Love With Yourself". Talvez, num par de casos, tivesse reduzido mais o envolvimento à essência. Mas o que importa isso? Celebremos este disco de que, por experiência própria, é difícil separarmo-nos sem uma pontinha de desgosto, até porque vai precisar de tempo para o descobrirmos em toda a sua enorme beleza. Merece a "chapelada" incondicional. E será que há clube de fãs?
TOCA A TODOS
A próxima sexta-feira, 16, não dá para ficar em casa: na Aula Magna, Lisboa, JOE JACK-SON reúne os músicos originais da banda que lhe valeu fama e proveito em plena "new-wave"… há 25 anos. Graham Maby, Gary Sanford e Dave Houghton voltam ao "rock" irónico e desabrido de "Look Sharp!" e "I'm The Man!. O disco novo, "Volume Four", já anda por aí. O concerto promete ser uma celebração, com mistura de nostalgia e novas vibrações. Há dois anos, no mesmo palco, o homem estava em plena forma. Festa! n Na mesma noite (e na véspera de uma escala de palco nos Açores), o Auditório Olga Cadaval, Sintra, recebe um dos expoentes da nova música do Brasil, lado-a-lado com Marisa Monte, Carlinhos Brown ou Lenine: o paraibano CHICO CÉSAR. Que vem mostrar, em formato radicalmente acústico, só com voz e viola, algumas das canções do recente "Respeitem Meus Cabelos, Brancos" (ed. Som Livre) e alguns dos hinos de uma carreira sem mancha. O concerto chama-se "Voz, Violão e Você" e promete tudo de bom.
TOCA E FOGE
Olha-se para o "top 30" da semana e até parecemos um país normal: ali "moram" 12 referências da produção nacional (40% do total), a que se juntam mais duas em Língua Portuguesa. Dessa dúzia, seis estão entre os dez mais vendidos da semana. Além da festa que merece Sérgio Godinho (estreia absoluta no lugar cimeiro), outro disco merece destaque: "Letra e Música – 15 Anos Depois", de CARLOS PAIÃO. Agora imagine-se onde estaríamos se a rádio não usasse o preconceito disfarçado de "segmentação"…
n No "top" de colectâneas, o panorama é o mesmo: duas colectâneas da "Operação Triunfo" (ed. BMG) em primeiro e terceiro lugares provam que o rigor na produção compensa e que a TV pode ser um enorme empurrão aos discos. Vale a pena estar atento à presença única de SOFIA BARBOSA. Em segundo, sem surpresas, as canções de "Saber Amar" (ed. Farol). Por acaso, o programa mais visto na TV portuguesa. Sem acaso, a mais coerente das bandas sonoras de telenovela já publicadas. Mais Portugal, perceberam?
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