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Correio da Manhã

Cultura
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Decidi que não queria morrer dolorosamente

Antigamente “fazia tudo a correr e com sofreguidão, mas percebi que o Mundo não vai acabar. Percebi que não devo ter pressa nem tentar viver intensamente”. É com serenidade que o actor Francisco Nicholson, 69 anos, transmite a sua nova forma de estar na vida, serenidade que adquiriu há três anos, após ter feito um transplante hepático.
21 de Outubro de 2007 às 00:00
Decidi que não queria morrer dolorosamente
Decidi que não queria morrer dolorosamente FOTO: Pedro Catarino
Havia anos que o fígado dava mostras de não estar a funcionar plenamente, mas o actor, segundo recorda ao CM, ignorou o problema. Lá chegou o dia, porém, em que não aguentou as dores. Correu para o Hospital Ortopédico Sant’Iago, em Setúbal, tendo sido transferido, de imediato, para os Capuchos, em Lisboa.
“Os médicos disseram-me que o caso era muito feio e complicado. Tinha varizes esofágicas e recaídas frequentes”, lembra.
A cada recaída, Francisco Nicholson acabava internado nos Capuchos. “Foi uma época muito difícil. Não tive outro remédio senão mudar os meus hábitos de vida”. Ainda assim, admite ter sido bastante relutante nessa reviravolta. “Nunca fumei, mas bebia, comia petiscos e cometia vários excessos”.
Na altura, frisa, o apoio da família foi fundamental: “O meu estado deteriorou-se e além da minha filha, tinha o apoio diário da Magda [a mulher]. Ela foi uma companheira excepcional, desgastou-se muito por minha causa”.
“RESISTI À OPERAÇÃO”
A decisão mais difícil foi a de avançar com a operação. Os médicos do hospital dos Capuchos aconselharam vivamente o actor a fazer um transplante hepático. “Tinha muitos preconceitos em relação à operação, por isso, resistia, mas a minha qualidade de vida deteriorou-se de tal maneira, que decidi que não queria morrer dolorosamente e longamente”.
Marcado o transplante, foi preciso aguardar por um órgão compatível em tamanho e tipo de sangue. “Para mim, o transplante era a luz ao fundo do túnel. Durante os meses que esperei, vivi com muita angústia e ansiedade”.
A operação – feita pela equipa do cirurgião Eduardo Barroso – decorreu no Curry Cabral: “Estava internado nos Capuchos, onde já conhecia os médicos e os enfermeiros e fui transferido na noite anterior à operação. Lembro-me das enfermeiras e auxiliares me acompanharem à ambulância e despedirem-se com muito ânimo”.
Quando esteve internado, o actor fez questão de se manter activo. “Falava para um gravador enquanto pensava no argumento de uma novela que estava no ar e outros pacientes acreditavam que eu falava sozinho!”
De então para cá, o actor mudou e cortou radicalmente com o álcool: “Sinto falta de alguns petiscos e, às vezes, não sou muito obediente”, diz.
PERFIL
Francisco Nicholson nasceu em Lisboa, há 69 anos. É actor, argumentista, encenador e dramaturgo. Estudou arte dramática em Paris, na Academia Charles Dullin e estreou-se no teatro muito jovem. Pisou vários palcos antes do 25 de Abril, entre eles o ABC e o Villaret. No entanto, é da televisão que o grande público o conhece. Participou em inúmeras novelas, entre elas a ‘Vila Faia’. Também escreveu o argumento de várias novelas, séries e canções. Neste momento, participa na ‘Imperius’, a novela que a TVI vai estrear em breve. É casado com Magda Cardoso e pai de Sofia Nicholson, ambas actrizes.
PAI DOA FÍGADO AO FILHO
A 5 de Outubro de 2006, os Hospitais da Universidade de Coimbra realizaram, pela primeira vez em Portugal, um transplante hepático em adulto com dador vivo. O transplantado era um jovem, de 23 anos, com a doença dos pezinhos, que recebeu parte do fígado do pai, então com 48 anos. Os Hospitais de Coimbra já tinham realizado intervenções desta natureza, mas com crianças. Os estudos indicam que a sobrevivência dos pacientes sujeitos a transplante com dador vivo é superior a 90 por cento. No entanto, os médicos também realçam que este tipo de transplante deve ser encarado como uma alternativa terapêutica e com prudência. A doença dos pezinhos também designada de paramiloidose não tem cura, é transmitida quase sempre por um dos progenitores e, regra geral, manifesta-se até aos dez ou a partir dos 25 anos.
APONTAMENTOS
INTERVENÇÃO
O transplante hepático foi experimentado na Suécia em 1991. Um ano depois chegou a Portugal e à Unidade de Transplante Hepático do Curry Cabral. Em 2006, realizou-se, em Coimbra, o primeiro transplante em adulto com dador vivo.
OBJECTIVO
O objectivo de um transplante é diminuir a concentração de proteína mutada no plasma sanguíneo, já que 90 por cento desta é produzida no fígado e ajuda a propagar a doença. A ideia é que deixe de progredir, aumentado assim a esperança e qualidade de vida dos pacientes com patologias hepáticas.
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