Lenine, cantor/compositor. Um dos mais talentosos músicos brasileiros volta a palcos nacionais para actuar amanhã, no Teatro Tivoli, em Lisboa. Em entrevista revelou que o espectáculo vai ter por base o disco ‘Acústico MTV’.
- Correio da Manhã – O espectáculo em Lisboa vai ser em formato acústico tal como o seu último disco?
- Lenine – Quase a totalidade do repertório vai ser como o disco e o DVD (‘Acústico MTV’). Mas tenho uma banda que me acompanha há muitos anos e é natural que experimentemos ‘novos sabores’.
- Vai ser então um espectáculo de revisitação de carreira?
- Sim. Vai ter uma parte de revisitação, o que tem uma conotação muito bacana, porque me questiono sobre o ineditismo disso. Como diz um amigo meu, “não existe ineditismo que resista a uma boa pesquisa do biográfico”. Então, tudo o que é novo só pode ser clássico. O novo, na verdade, é tudo aquilo que foi esquecido. Por isso tem sabor de novo. Nesse sentido, é tudo novo para mim, porque tive de despir as canções que já cantava para poder descobri novos caminhos com elas. E esse processo foi mais trabalhoso, porque tive de exorcizar essas canções, de descobrir o tom certo.
- O seu nome é um pouco invulgar... Foi o seu pai, o padrinho?
- Tem de perguntar ao meu pai (risos). Agora a sério: foi uma escolha do meu pai e tenho um grande orgulho. Ele é um grande sonhador e chegou ao socialismo pelo cristianismo. Era seminarista. E é engraçado porque o que separa o socialismo do cristianismo é muito ténue. O cristianismo espera ver o paraíso depois da morte e o socialista quer ver o paraíso aqui e agora. E orgulho-me muito de ser Lenine; devo ser o único Lenine em alta, porque o outro, pobre coitado, já tiraram até a estátua... Aliás, o ano passado concretizei um grande sonho ao meu pai: fui tocar a Moscovo e levei-o. Ele nunca tinha saído do Brasil, do Recife, e foi uma experiência muito gratificante para ele. Viu uma coisa que nunca existiu (o socialismo)...
- É músico, cantor, compositor, produtor... Em que papel se gosta mais de ver? O que mais o realiza?
- Divirto-me em todos os momentos. Mas não me posso esquecer de que todas essas actividades vieram a reboque do exercício da composição. Portanto, antes de qualquer coisa, sou compositor. Esse é o meu prazer mais bacano. Mas devo acrescentar que a melhor maneira de mensurar o que faço, é no palco. Só aí eu posso receber imediatamente a resposta ao que faço.
- E gosta mais de trabalhar ‘na pressão’ (título de um dos seus álbuns) ou nas calmas?
- Necessito da pressão. Chego ao cúmulo de ligar para mim mesmo, para minha casa, para dizer: “Hei rapaz, você precisa de fazer uma música assim assim...” Adoro esses estímulos. Adoro a encomenda. Não tenho qualquer preconceito com a palavra.
- Já trabalhou com músicos portugueses e produziu um disco do João Pedro Pais. Tem planos para mais colaborações?
- Para já, não. Mas tenho muitos amigos portugueses: o Pedro Abrunhosa, a Maria João, o Mário Laginha, o Rui Veloso, o João Pedro Pais... e estou sempre ouvindo. E temos uma herança romana que nos une. Eu sou um lusófono. A minha música não seria dessa maneira se não cantasse em português. A língua portuguesa é fundamental para fazer o que faço. E quando tenho oportunidade de tocar em Portugal, então tenho a certeza da compreensão, o que nem sempre acontece.
- Já cá esteve várias vezes. De que gosta mais em Portugal?
- Da possibilidade de me reconhecer andando pelas cidades. O biótipo das pessoas, os trejeitos, o modo de nos reconhecermos na arquitectura. Gosto de perceber que ‘somos daqui’. E, depois, é o país de Eça, de Camões, de Pessoa. Há anos participei em festivais de rock aí e fiquei muito impressionado com o facto de quase 80 por cento das bandas que vi (portuguesas) cantarem em inglês. Não tenho nada contra, porque a expressão é universal, mas não precisa de cantar em outra língua para ser universal. Eu tenho um orgulho tão grande nessa língua. E acho que as possibilidades são tão maiores com essa língua, inclusive no rock.
- Além do concerto no Tivoli tem planos para regressar?
- Antes do final do ano devemos regressar. Durante muito tempo fazia tournées de três meses. Agora sou um dependente do núcleo familiar e não me consigo ausentar tanto. Tenho uma prevista para Outubro, que deve dar para retornar a Portugal.
Osvaldo Lenine Macedo Pimentel nasceu no recife a 2 de Fevereiro de 1959. Cantor, compositor e produtor, estreou-se em 1981 com o single ‘Prova de Fogo’, a que sucedeu, dois anos depois, o álbum ‘Baque Solto’. Conhecido pelo seu som inovador, é um dos artistas brasileiros que mais vende no estrangeiro. Na qualidade de compositor, possui um catálogo com mais de 500 músicas que foram gravadas por artistas de outros estilos musicais como Maria Bethânia, Fernanda Abreu, Maria Rita, Milton Nascimento, Gabriel O Pensador, Daniela Mercury e Elba Ramalho.
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