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Correio da Manhã

Cultura
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É IMPOSSÍVEL SOBREVIVER COM ESTA CARGA SALARIAL

Manuel Freire presidente da Sociedade Portuguesa de Autores que comemora, em 2005, 80 anos e amanhã o primeiro com nova presidência. Um ano difícil mas com uma prenda: 550 novos sócios.
18 de Setembro de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Faz amanhã um ano que assumiu a presidência de uma sociedade em falência técnica. Que mais constava da herança?
Manuel Freire – Tudo o que está por trás dessa expressão. Herdámos 22 milhões de euros de prejuízos (somados entre 1998 e 2003), várias dívidas de grande montante (algumas tivemos de pagar ao fisco ‘in extremis’), para a Segurança Social foram 2 milhões e 200 mil euros. Tudo isto, para uma cooperativa com sérias dificuldades técnicas, foram choques grandes que muito nos complicaram a vida.
‘Mudar é preciso’ foi o seu lema de campanha eleitoral. O que mudou?
– Grande parte deste primeiro ano foi ocupada a perceber como é que isto funciona porque, como se sabe, não houve passagem de testemunho da anterior administração para a nova. Depois, contratou-se um gestor profissional, antigo director-geral da casa, estabeleceu-se um plano de cooperação a quatro anos que assenta, sobretudo, em reduzir os custos...
E como vai isso ser feito?
– Já está a ser feito! Reduzimos a gama da frota de veículos, o que permitiu a renovação da frota de serviço. Acabámos com contratos de manutenção absurdos, tais como máquinas de escrever e de calcular... Em 2003 gastaram-se seis mil euros em flores! A administração auto-impôs-se limites na utilização de telemóveis e deslocações ao estrangeiros. Quando o montante de salários excede as receitas é preciso cortar e muito.
Despedimentos iminentes?
– Não vale a pena iludir a questão: vamos ter de reduzir pessoal. Como, não posso dizer. Estamos a estudar a situação com uma empresa especializada, tendo em atenção os problemas humanos e as implicações sociais implícitas. Toda a gente sabe (e é importante que os trabalhadores também) que é impossível a SPA sobreviver com esta carga salarial. A situação era conhecida mas ignorada em nome de uma paz social que levaria ao afundamento da cooperativa. É preciso encarar as coisas de frente, o que estamos a fazer com os inconvenientes que as atitudes frontais implicam.
Gestão amadora e falta de visão para gerar receitas são críticas recorrentes...
– Temos consciência de que não sabemos de muitas coisas e temos um conhecimento superficial de outras, por isso, trabalhamos com as pessoas que consideramos as melhores. Na Informática (o nosso elo mais fraco), temos a rectaguarda do Instituto Superior Técnico e do prof. Tribolet. Na Gestão, Pedro Costa, director-geral desta casa durante seis meses, após o que foi dispensado. Ele é uma mais-valia preciosa porque conhece bem as pessoas e os problemas que, aliás, já tinha diagnosticado há anos... Quanto a gerar receitas, o momento é mau. O campo dos fonogramas (música gravada), um dos grandes conteúdos da casa, tem sido furiosamente atacado pela pirataria mas há sempre novos campos a explorar e onde crescer.
Por exemplo?
– No campo da execução pública (música difundida em espaços públicos) e também no das novas tecnologias (o digital, por exemplo). A questão dos ‘download’ nos computadores e também a cópia privada, vulgo fotocópia, em Portugal, um acto socialmente aceite mas ilegal. Contra isto, a SPA preside, neste momento a uma associação de editores, livreiros, discográficos... Temos ainda o caso do livro escolar, a tomar proporções de escândalo, com a reprodução integral de textos sem qualquer consulta prévia ao autor.
Mas se tudo o que o associado pode esperar da sociedade é a cobrança dos direitos de autor, que diferença entre ‘O Cobrador do Fraque’ e a SPA?
– É a diferença entre aquele que luta sozinho e aquele que luta integrado num grupo de pertença.
ANTES DE FREIRE ERA ASSIM...
A SPA nasceu em 1925 por iniciativa de um grupo de gente ligada ao teatro musical e à revista. Nomes como Júlio Dantas foram presidentes, cargo que, durante 30 anos, coube a Luiz Francisco Rebello, entretanto afastado na sequência de acusações várias com epicentro na gestão danosa.
O processo corre na Judiciária e o presidente cessante é recordadado pelo sucessor com muita lucidez: “Continuamos a distinguir e a respeitar o dr. Luiz Francisco Rebello, advogado, dramaturgo, ‘pai’ do código do Direitor de Autor em Portugal, assim como continuamos a dizer que foi um péssimo gestor que colocou esta casa na situação em que está, fruto da má gestão a que esteve sujeita, sobretudo, nos últimos anos.”
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