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Correio da Manhã

Cultura
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“É preciso acabar com o subsídio a fundo perdido”

Celso Cleto, encenador e empresário, fala do sucesso que tem em Espanha, discorre sobre política teatral e anuncia os seus projectos para o futuro.
16 de Fevereiro de 2010 às 00:30
“É preciso acabar com o subsídio a fundo perdido”
“É preciso acabar com o subsídio a fundo perdido” FOTO: Jorge Paula

Correio da Manhã – Acaba de regressar de Madrid, onde obteve mais um grande êxito, desta vez com ‘Hedda Gabler’, espectáculo protagonizado por Sofia Alves...

Celso Cleto – Fomos surpreendidos: meia-hora antes de estrearmos tínhamos esgotado e estávamos com lista de espera. Foi emocionante e acho que é algo de que nenhum dos actores se vai esquecer até ao fim da vida.

 

O facto de ter um espectáculo em cena em Espanha há seis anos (‘A Curva da Felicidade’) ajuda a explicar este interesse que o seu trabalho suscita?

Acredito que sim, que já sou visto como um encenador da casa. Aliás, tenho outra encomenda: vou encenar outra peça do Galán e fazê-la em Espanha e depois em Portugal.

 

Assim até parece fácil fazer sucesso em Espanha...

Apesar de não haver qualquer apoio das entidades portuguesas... O Instituto Camões, que está no papel há 33 anos, é uma miragem em Madrid! Nunca passou do papel. Quem lá trabalha, quem lá vive, quem lá passa, não encontra nada de Portugal. Nem sequer um jornal. Os jornais espanhóis vendem-se aqui nas bancas... Não tem havido visão política que passe pela internacionalização dos nossos valores. Mas em Espanha há uma adesão incrível do público aos espectáculos teatrais. Algo que cá não existe.

 

A que crê dever-se essa diferença?

Para já a uma diferença abismal entre as políticas culturais espanhola e portuguesa. O teatro em Portugal é excessivamente dependente do Ministério da Cultura (MC). É claro que o MC só subsidia determinado tipo de projecto, quase sempre os mesmos, o que tem impedido a necessária renovação no tecido teatral nacional. Resulta daqui um controlo efectivo do teatro por parte do Estado que me parece prejudicial. Por outro lado, acredito que é preciso acabar com o subsídio a fundo perdido...

 

Pedir contas às companhias que recebem apoio do Estado?

Claro. Neste momento, os dois teatros nacionais recebem 11 milhões de euros por ano e nem sequer sabemos a que custo fica cada espectador. Por outro lado, há que incentivar o nascimento de empresas teatrais, como já existem em Espanha. Em Madrid, 95 por cento dos teatros são empresas privadas – pontualmente apoiadas pelo Estado, mas que têm de produzir resultados. Aqui, o Teatro Aberto, a Cornucópia, o Teatro Experimental de Cascais são empresas privadas, com apoio total do Estado, mas ninguém lhes pede contas.

 

Mas as experiências de teatro não apoiado pelo Estado existem e têm sucesso. Há o seu caso, o caso do La Féria...

Sim, mas não podemos concorrer com os teatros nacionais quando estes recebem os subsídios e depois montam peças comerciais... É concorrência desleal. 

 

Está a falar de que espectáculos, concretamente?

Quase todos. Excepção feita dos clássicos, quase tudo o resto. Peças com quatro ou cinco actores, que estiveram na Broadway e no West End, que receberam prémios... Essa franja de mercado tem de ser para os produtores privados.

 

Aos teatros nacionais restariam os clássicos?

Aquelas peças que raramente temos oportunidade de ver e que os empresários não têm condições para fazer por falta de recursos. Estamos a falar de Shakespeare, Molière, Gil Vicente... Estamos a falar do apoio a dar à dramaturgia portuguesa. Há dez anos o apoio estatal às companhias seria reforçado no caso de se montarem peças portuguesas. Deixou de o ser e a situação nunca mais foi reposta.

 

Põe em causa a programação dos teatros nacionais?

O Nuno Carinhas e o Diogo Infante são pessoas com talento. O problema é que falta definir o papel de um teatro nacional, e isso é função do MC. As programações do teatro nacional não podem depender da habilidade dos seus directores artísticos, do seu grau de popularidade...

 

Por onde passam os seus próximos projectos?

Do ponto de vista artístico, fazer um ciclo de peças encomendadas directamente a sete grandes escritores portugueses e, até 2014, apresentá-las em Portugal e, idealmente, noutras cidades europeias: em Espanha, França, Inglaterra... Depois, está em construção um grupo de trabalho – que virá a ser a Associação de Produtores Independentes – e de que já fazem parte o Filipe La Féria e o Paulo Dias.

 

De quem estamos a falar?

Apelei ao bom senso de sete autores de quem gosto muito e que já deram provas de grande qualidade em teatro, e pedi-lhes que me escrevessem peças não muito grandes que eu pudesse produzir e exportar. Estou em conversações para levar as peças a Barcelona, a Paris... Desde que o formato seja economicamente comportável. Falamos de Jorge Guimarães, João de Melo, Nascimento Rosa, Fernando DaCosta, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Jaime Rocha. Consegui o apoio da Câmara Municipal de Oeiras e a ideia é produzir, até 2014, duas peças por ano. No processo, pensamos editar os textos para serem traduzidos em várias línguas e divulgados junto das embaixadas portuguesas pelas grandes cidades da Europa.

 

Foram impostas algumas condições aos autores?

Nenhumas. Claro que a situação económica do projecto condiciona, à partida, a criatividade... De resto, o Auditório Municipal Eunice Muñoz também não permite encenações muito exigentes. Estamos a falar de teatro de câmara. Em termos de conteúdo, chamei apenas a atenção aos autores para que não se fixassem em Portugal, mas que pensassem em termos globais. Que escrevam peças que possam apaixonar um encenador italiano ou francês...

 

Entretanto, para este ano, continua em preparação a ‘Sabina Freire’, do Manuel Teixeira Gomes, com a Sofia Alves na protagonista?

Sim. Assumi essa responsabilidade perante a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Vou estrear o espectáculo a 5 de Outubro em Oeiras, depois levá-lo a Portimão e a Espanha. Faz todo o sentido: Manuel Teixeira Gomes viveu grande parte da sua vida em Oeiras e ali tinha as suas colecções de arte, os seus livros... Ao mesmo tempo vamos fazer uma exposição dos 150 anos de Manuel Teixeira Gomes e uma mostra de todo o teatro que se estava a fazer nessa altura: o que estava em cena a 5 de Outubro de 1910.

PERFIL

Celso Cleto, encenador e produtor de teatro, nasceu a 26 de Dezembro de 1964. Foi adjunto de Carlos Avilez no Teatro D. Maria II. Estreou--se como encenador com uma peça de Mário Cláudio no Porto. Desde aí montou peças de Eve Ensler ou Jaime Rocha, e dirigiu actrizes como Eunice Muñoz e Guida Maria. É casado com a actriz Sofia Alves.

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