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Correio da Manhã

Cultura
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E VENHAM MAIS QUINZE

O apagão que se fez sentir na zona oriental de Lisboa na noite de sábado foi, de alguma forma, o prenúncio de que aquele não seria um serão igual aos outros. Como se a escuridão que, inesperadamente, se abateu sobre o Parque das Nações, dando lugar à lua minguante e às estrelas, fosse o prelúdio para algo diferente, que não acontece todos os dias.
10 de Março de 2003 às 00:00
De facto, quem não esteve no Pavilhão Atlântico este sábado, perdeu a oportunidade de testemunhar ao vivo um acontecimento que merece de todos nós, mais do que uma cuidada reflexão sobre a natureza das coisas, um sincero respeito por uma realidade que, por força de rótulos depreciativos e preconceitos, nos leva por vezes a tecer considerações pouco simpáticas sobre algo que, afinal, é uma parte de todos nós enquanto humanos e, especialmente, enquanto portugueses.

O que leva, afinal, um tão grande número de pessoas (17 mil), entre pais, avós, crianças de colo, casais de namorados, jovens “radicais”, gente de extractos sociais bem distintos, oriundos de tantas zonas de Portugal e do estrangeiro, a cantar, aplaudir, dançar e, até, a chorar, consoante a melodia?

Até o próprio Tony Carreira, em noite de celebração dos seus 15 anos de percurso artístico, deve ter alguma dificuldade em dar a resposta a esta questão.

Depois da consagração na França que o viu nascer para a música, com os já míticos concertos no Olympia, após ter lotado o Coliseu de Lisboa em dois anos diferentes, Carreira elevou a fasquia.

Arriscou,ultrapassou receios e hesitações mas superou o exame com distinção.

Tony Carreira é um artista de corpo inteiro, um profissional exigente, metódico e dedicado. Os pormenores comprovam-no. Os músicos são muito competentes, a produção é irrepreensível.

Chovem “confettis”, abundam os efeitos de luz, o artista muda de fato mais do que uma vez. Foram mais de duas horas e meia de concerto, por onde passaram êxitos de sempre, como “Ai Destino”, “Coração Vagabundo” e aquela que o cantor referiu ser a “canção mais importante” da sua carreira – “Aquele Menino” – com a companhia de um grupo de crianças do Coro de Santo Amaro de Oeiras.

O público não poupa as gargantas nem as palmas que acompanham as canções, acendem-se isqueiros, e em alturas mais intimistas, a lágrima assoma ao canto do olho...

Por duas vezes o cantor voltou ao palco e declarou: “Hoje sinto orgulho em ser português”.
É em Lisboa, mas poderia ser França, Luxemburgo, Canadá ou Pampilhosa da Serra. Podemos continuar a ignorar este fenómeno?

BEIJINHOS E AUTÓGRAFOS

Vieram de todo o lado: Viseu, Arouca, Coimbra, Alcobaça, Lousada, Gaia, Luxemburgo, França...
Eram várias as faixas empunhadas pelos admiradores (sim, que não eram só senhoras), denunciando a sua proveniência. Um verdadeiro mosaico da diversidade geográfica portuguesa que esteve representada no Pavilhão Atlântico.

Eram duas horas da manhã e havia gente que ainda faria o trajecto de volta a casa naquela madrugada mas não quis ficar sem um autógrafo ou um beijinho. “Oh, Tony, somos da Pampilhosa...”ou “Viemos de Gaia e ainda voltamos esta noite...” eram alguns dos recados que o cantor recebia enquanto, pacientemente, distribuia autógrafos e beijinhos.

COM A AJUDA DOS AMIGOS

Alguns convidados fizeram questão de juntar-se ao músico em palco. Ricardo Landum, um “cúmplice” destes 15 anos de carreira, à guitarra e à voz, acompanhou Tony em “Ai Destino” e “Adeus Amigo”.

Mas a surpresa maior foi a presença em palco do apresentador Carlos Ribeiro e da cantora Micaela, entre outros, para entregarem a Tony Carreira um prémio simbolizando mais de dois milhões de discos vendidos desde 1988 e mais o galardão de dupla platina (80 mil exemplares) para “Cantor de Sonhos”, o último CD.
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