Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
2

Eles estão como novos!

Logo aos cinco minutos de espectáculo, um homem, na casa dos 40, despe a t-shirt como se fosse um rapaz no início de um qualquer concerto de heavy metal e levanta as mãos para o céu. Fixa-se, assim, durante uns segundos. O frio que corre no interior do estádio de Twickenham, em Londres, não o demove. A t-shirt só a voltará a vestir quase duas horas depois, no final do concerto. A seu lado, a mulher abraça-o, talvez tomada por memórias de outros tempos. Beijam-se. Juntos, dançam e gritam o refrão de ‘Message In A Bottle’.
10 de Setembro de 2007 às 00:00
Sting e Andy Summers mostraram sempre uma cumplicidade muito grande, abraçando-se várias vezes durante o concerto
Sting e Andy Summers mostraram sempre uma cumplicidade muito grande, abraçando-se várias vezes durante o concerto FOTO: João Miguel Rodrigues
Duas filas acima, três jovens, na idade dos 20 e (muito) poucos, trauteiam a canção toda como se tivessem nascido com ela. A verdade é que, à data em que os Police a escreveram (1979), muito provavelmente nem os seus pais se conheceriam. Ao lado, uma criança com pouco mais de 12 anos, acompanha a canção do início ao fim. A mãe também lá está, de pé, radiante da vida. Os Police estão mesmo de regresso!
O tema que, quase por regra, tem servido de abertura aos espectáculos da nova digressão dos Police, a primeira em 20 anos, é recebida quase como um hino nacional. Há quem leve a mão ao peito, quem grite e quem se emocione. E há quem nada consiga dizer.
Sábado à noite, no majestoso estádio de Twickenham, na zona Sul de Londres, e perante quase 55 mil pessoas, Sting, Stuart Copeland e Andy Summers provaram que ainda têm tudo o que é preciso para fazer levantar um estádio: as canções, a vontade de tocar, o virtuosismo, a garra (apesar da idade) e, provavelmente, muito mais respeito do que tinham há 20 anos uns pelos outros.
Talvez por tudo isto – a que não será, obviamente, alheia a popularidade que Sting conseguiu granjear nas últimas duas décadas de carreira a solo – o regresso dos Police está muito longe de ser um espectáculo para a geração dos ‘entas’, como à partida se poderia imaginar.
Antes do concerto começar, muitos jovens passeavam nas imediações do estádio, a comprar t-shirts e outras lembranças com a marca do grupo. Com efeito, muito do público que assistiu ao primeiro concerto de estádio da tournée europeia, ou não era nascido quando os Police começaram em 1977 ou davam os primeiros passos de vida quando o grupo se separou em 1984, o que só mostra o poder das canções de Sting, Copeland e Summers.
E quando a música e as canções não passam de moda, nem público nem banda envelhecem. É verdade que, tirando a frescura invejável de Sting (o que mais se movimenta em palco), nem Andy consegue esconder os 64 anos, optando por uma postura mais reservada, nem Copeland os cabelos grisalhos parcialmente escondidos pela fita na testa à Bjorn Borg.
Mas, justiça lhes seja feita, no caso dos Police nem o aspecto físico nem a idade são para aqui chamados. Copeland, apesar dos 55 anos, revela-se um verdadeiro poço de energia, e o próprio Sting o reconhece durante o concerto ao afirmar “Welcome to The Stewart Copeland Show”. O músico provou--o com um final arrasador em ‘Can’t Stand Losing You’.
O espectáculo termina com um abraço dos três músicos. A amizade está de volta. E os Police também. Para confirmar no próximo dia 25 no Estádio Nacional.
UMA ESPÉCIE DE 'POLICEMANIA'
Quando, no final do ano passado, Sting desafiou Copeland e Summers para voltar a juntar a banda, nasceu uma espécie de ‘Policemania’, alimentada não só pelos saudosistas mas também pelos curiosos e pelos que sempre ouviram falar no mito. Inglaterra, terra natal da banda, teve direito a oito datas durante a presente digressão.
Os ingleses estão quase que mobilizados. Milhares de pessoas têm visitado a galeria Jill George, no centro de Londres, que desde 28 de Agosto acolhe uma exposição de fotografia da autoria de Andy Summers, com as mesmas fotos incluídas na fotobiografia ‘I’ll Be Watching You (1980-83)’.
A presente digressão, que visa celebrar os 30 anos sobre a gravação do primeiro single, ‘Fall Out’ (1977), já cumpriu 47 datas desde o início a 28 de Maio. Sempre esgotadas. À porta dos espectáculos, o merchandise quase desaparece. A banda passou pelos EUA e Canadá e em Dezembro e Janeiro tocará ainda na Argentina, Chile e Austrália.
NOTAS
FILHO DE PEIXE SABE NADAR
A primeira parte dos concertos dos Police está a ser assegurada pelos Fiction Plane, banda do filho de Sting, Joe Sumner.
"ESTA É A NOSSA CIDADE"
Um dos maiores aplausos da noite coube a Stewart Copeland quando disse ao microfone: “Esta é a nossa cidade. Eu sou americano, mas nós viemos daqui”.
AMIGOS PRESENTES
Na plateia, a assistir ao concerto, estiveram a modelo Naomi Campbell, a produtora Trudie Styler, mulher de Sting, e o músico Bob Geldof.
ALINHAMENTO
‘Message in a Bottle’
‘Synchronicity II’
‘Walking On The Moon’
‘Voices Inside My Head’
‘When The World Is Running Down’
‘Don’t Stand So Close To Me’
‘Driven To Tears’
‘Truth Hits Everybody’
‘Hole In My Life’
‘Every Little Thing She Does Is Magic’
‘Wrapped Around Your Finger’
‘De Do Do Do De Da Da Da’
‘Invisible Sun’
‘Walking In Your Footsteps’
‘Can’t Stand Losing You’
‘Roxanne
‘King Of Pain’
‘So Lonely’
‘Every Breath You Take’
‘Next To You’
Ver comentários