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Correio da Manhã

Cultura
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Em Portugal há uma cultura do lamento

Violinista de gabarito e reputado pedagogo, Gerardo Ribeiro está em Portugal para participar no concerto da Orquestra Os Violinhos, esta tarde no CCB. Ao CM, o ‘professor’ toma o pulso ao estado do ensino da música entre nós.
1 de Maio de 2005 às 00:00
Em Portugal há uma cultura do lamento
Em Portugal há uma cultura do lamento FOTO: Vítor Mota
Correio da Manhã – Começou a estudar música aos quatro anos. Quando teve a certeza de que queria profissionalizar-se?
Gerardo Ribeiro – Na verdade, não tive grande voto na matéria. Desde a infância, toda a gente achava que tinha óptimas possibilidades de fazer uma brilhante carreira como violinista, de forma que foi quase impossível não a seguir.
– Quanto tempo toca por dia?
– Trabalho 12 a 14 horas por dia, a dar aulas, estudar e praticar. Mas se falarmos na preparação de um concerto, toco o menos possível! Não é preciso tocar muitas horas, antes fazê-lo com a máxima concentração. Quando alguns alunos me dizem que tocam oito horas por dia fico assustado. Isso é do tempo da URSS. Não é produtivo, porque ninguém está concentrado a cem por cento durante oito horas. No entanto, é necessário estar sempre em forma, porque nesta profissão não há nada adquirido: somos tão bons quanto a última vez que tocámos, apenas.
– Como é a vida de um músico?
– Noventa e cinco por cento de suor e cinco de talento. É uma vida de sacrifícios. Para se ter um minuto de glória é preciso um ano de trabalho. Mas o importante é amar aquilo que estamos a fazer.
– Qual o desafio de ensinar?
– É uma missão difícil. Por mais jovens que sejam os alunos, têm de saber aquilo que estão a fazer e, sobretudo, aprender a escutar, porque isso permite-lhes progredir. Depois, é preciso determinação, rigor e uma grande organização.
– Em Portugal, muitos afirmam que é quase impossível viver da música...
– Não é verdade. Em Portugal, há sempre um discurso pessimista, uma cultura do lamento. Hoje em dia, a carreira musical é uma combinação de várias coisas: música de câmara, orquestra, concertos, leccionar, escrever ou editar discos. Há muitas orquestras em Portugal, só que este é um País de solistas. Os dias do solista acabaram ou é quase impossível fazer uma carreira como tal. Há muita gente a tocar bem mas, por uma questão de marketing, só pode haver uma estrela de cada vez. Aos outros, por melhores que sejam, compete avançar e abraçar outras vertentes. Se ficarem a vida toda à espera do papel de solistas e não se prepararem para outras coisas será, obviamente, impossível sobreviver.
– Esta é uma profissão bem paga?
– Considero-me bem pago para aquilo que faço. O dinheiro depende do talento e da produção artística de cada um.
– O que falta em Portugal para o desenvolvimento da música?
– Falta profissionalismo, disciplina, organização e informação. Muitos não compreendem que esta é uma das profissões mais competitivas do Mundo. Não compreendem que para entrar numa orquestra para tocar nos segundos violinos há uma concorrência tremenda, mesmo para quem ganhou prémios em concursos internacionais.
– Como se pode iniciar estudos de violino em Portugal?
– O ideal é um professor privado. Claro que é necessário fazer sacrifícios: nos EUA uma aula custa 150 dólares (117 euros). Há outras opções, como as escolas ou projectos como Os Violinhos, que é formidável para descobrir talentos e desenvolver bons hábitos. Depois, se houver talento, a criança pode ingressar no ensino convencional.
– Qual a idade ideal para começar?
– Seis anos.
– Quem é para si o maior violinista do Mundo?
– É difícil dizer. Há 20 anos havia uma mão-cheia, mas actualmente há muita gente nova a tocar formidavelmente bem. Por outro lado, há muitos violinistas perfeitos a nível técnico, mas sem o cunho individual dos intérpretes mais antigos. A formatação parece ter chegado a toda a parte.
– O que pensa da Orquestra Os Violinhos?
– Tem miúdos a tocar bastante bem, sobretudo os mais velhos. Tudo é óptimo neste projecto, inclusivamente porque permite trazer outras pessoas à música erudita: os pais, os amigos, os avós.
PERFIL
Gerardo Ribeiro nasceu em 1951, no Porto. Frequentou o Conservatório de Lucerna (Suíça) e concluiu o curso do Conservatório do Porto, com 20 valores. Passou pela Juilliard School (Nova Iorque) e, como solista, actuou com algumas das orquestras sinfónicas e filarmónicas mais importantes do Mundo. Como pedagogo, leccionou na Universidade do Michigan e na Eastman School de Nova Iorque, sendo hoje professor catedrático na Universidade de Northwestern (Chicago). Tem dois filhos e vive há 20 anos nos EUA.
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