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Correio da Manhã

Cultura
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EMBORA MÁRIO!

Corria o ano de 1981 e um pouco por todo o país não houve quem não tivesse trauteado “não há nada p’ra ninguém”. A canção dava a conhecer um novo músico português, Mário Mata de seu nome.
5 de Julho de 2004 às 00:00
Desde então para cá, o músico-autor como que se eclipsou, não obstante trabalhos em disco como ‘Que Grande Seca’ (’83), ‘Deixa-os Poisar’ (’86), ‘Nunca Mais É Sábado’ (’88) e ‘Somos Portugueses’, lançado há precisamente uma década.
Pois bem, quando se pensava que o irreverente cantautor se tinha finado (musicalmente falando, claro), eis senão quando surge ‘Dupla Face’. Surpresa. Afinal, Mário Mata ainda anda por aí a mostrar o que vale.
Àparte o apego ao ‘clássico’ ‘Não Há Nada P’ra Ninguém’, aqui recuperado numa versão marcada pela presença da guitarra eléctrica – assim a modos como que para o povo reconhecer de quem se trata –, o regresso de Mário Mata acaba por ser uma agradável surpresa. Atente-se, por exemplo, em canções como ‘Eu Vou À Bruxa’, ‘Um Homem Perde-se (Nas Ruas Desta Cidade)’ – tresanda a ‘New York’, de Lou Reed – ou ‘Então Ô Zé’ (um blues com um refrão que é uma história de vida: “Como é que é ô Zé/andar sozinho a lutar contra o sistema/Fónix é um problema”.
Estas serão, muito provavelmente as canções mais ‘orelhudas’ de ‘Dupla Face’, aquelas que mais facilmente poderão cair no go(s)to popular, mas outras há que traduzem um amadurecimento (inevitável) por parte do cantautor. São os casos de ‘Miúda Triste’, ‘Fiquei Tão Bem’, ‘O Que É O Amor (Não Te Sei Dizer)’, ‘A Chave do Carro’ ou o tema título ‘Dupla Face’, em que exibe um maior domínio sobre a poesia e sobre a música, arranjos em especial.
Dez anos depois, Mário Mata continua a saber esgrimir as palavras com uma invulgar habilidade e acutilância – o uso do calão urbano só encontrará paralelo no hip-hop, como se poderá conferir no refrão do funky ‘Wow (Que Cena marada)’ ou ‘Hoje É P’ra Loucura’, esta um verdadeiro retrato da noite lisboeta feita canção.
Sem se tratar de um golpe de génio, ‘Dupla Face’ é, no entanto, um disco que sustenta a convicção de que se está em presença de um tão talentoso quanto injustiçado músico. Pode ser desta que a ‘cena’ mude. Vamos embora, Mário!
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