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Correio da Manhã

Cultura
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Encenação de John Mowat prova que Camões tem graça

Até dia 19, o público de Lisboa ainda pode ver – no Chapitô, ao Castelo de São Jorge, Lisboa – ‘Talvez Camões’, uma divertida homenagem ao autor de ‘Os Lusíadas’ e mais uma brilhante encenação de John Mowat, aqui com interpretações de Jorge Cruz, José Carlos Garcia e Rui Rebelo.
7 de Dezembro de 2004 às 00:00
O princípio é o mesmo das anteriores criações deste encenador britânico, que trabalha regularmente em Portugal há 12 anos. O palco está vazio, não há cenário e há pouquíssimos adereços em cena, o texto está reduzido àquilo que é estritamente essencial e tudo vive do (excelente) trabalho dos actores.
Ingrediente principal desta ‘receita’: o humor. Aquele tipo de humor em que não é preciso ser grosseiro nem escavar ninguém para divertir o público...
VERDADE E FICÇÃO
Uma pergunta legítima: será que o espectáculo é fiel aos factos históricos? Na verdade, sabe-se muito pouco sobre a vida e a morte de Camões e o encenador até isso usou para fazer graça. ‘Inventou’, por exemplo, que o poeta teria sido filho ilegítimo de Ana de Sá e de Baco (sim, do deus Olimpo!). Depois, mostra-nos Júpiter a encomendar ‘Os Lusíadas’ a Camões (em sonhos) e Baco a tentar afogar o poeta no célebre naufrágio em que se salva, ‘in extremis’, o grande poema épico...
Mas pelo meio há dados verdadeiros. Em 1524, ano do provável nascimento de Camões, Portugal era o maior império do Mundo. Por volta de 1539 encontramos o jovem poeta a estudar em Coimbra mas poucos anos depois já anda nas suas deambulações pelo Mundo. Regressado a Lisboa no rescaldo do Terramoto de 1755, ainda tentou ganhar dinheiro com ‘Os Lusíadas’, mas, não conseguindo, morreu na pobreza.
PALHAÇOS POBRES
‘Talvez Camões’ é herdeiro do teatro pobre, tal como Grotowski o teorizou. Numa altura em que abundam – e ‘sobreabundam’ – os recursos cénicos e a máquina teatral se tornou hiper sofisticada, aqui dá-se um passo atrás e procura-se a simplicidade.
A simplicidade dos histriões romanos, a comicidade dos bufões medievais, a energia dos virtuosos da ‘commedia dell’arte’. É nessa tradição que este espectáculo se inscreve, com uma frescura a toda a prova.
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