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Correio da Manhã

Cultura
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Encontro de mestre

A eterna ‘portuguesinha’ do Brasil, Eugénia Melo e Castro, arriscou desta vez fazer uma releitura da genial obra de Chico Buarque, num novo disco com o apropriado título de ‘Desconstrução’.
7 de Novembro de 2005 às 00:00
A verdadeira ‘paixão’ de Geninha por Buarque remonta à infância da artista portuguesa
A verdadeira ‘paixão’ de Geninha por Buarque remonta à infância da artista portuguesa FOTO: d.r.
Intimista, clássico e imbuído de poesia, ‘Desconstrução’ vale precisamente pela ousadia dos arranjos e da intervenção autoral, bem como pela selecção brilhante do repertório de Buarque que, por ser tão vasto, não terá tornado fácil a missão.
A verdadeira ‘paixão’ de Geninha por Buarque remonta à infância da artista, quando o pai (o escritor Ernesto de Melo e Castro) lhe trouxe do Brasil o disco ‘A Banda’, corria o ano de 1966. Então com oito anos, Geninha estava longe de imaginar que aquele pedaço de vinil seria crucial no seu futuro e nas suas escolhas de vida.
A partir desse momento mágico, apenas iria preocupar-se em encher a sua vida de música e poesia brasileiras, da sua gíria, estilos e autores. O ‘processo de aculturação’ continua até 1980, altura em que viaja para o Brasil e por lá começa uma carreira musical que já dura há 25 anos, com 20 discos editados em ambos os lados do Atlântico.
‘Desconstrução’ é, por isso, o encontro do ‘mestre’ com a sua ‘pupila’. Não que seja um encontro inédito (em 1990, Geninha e Buarque gravaram juntos ‘Contrastes’ para a colectânea ‘Amor é Cego e Vê’), mas é o primeiro em que a cantora concretiza as inúmeras afinidades na conduta poética e musical de ambos.
Além da colaboração de Adriana Calcanhotto (em ‘Bem Querer/Futuros Amantes’), Geninha contou com a ‘bênção’ do próprio Buarque, que com ela partilhou as vocalizações em ‘Bom Conselho’, ‘Olê, Olá’ e ‘Injuriado’. Este último é a manifestação máxima da ousadia da intervenção da artista, a par com o tom de samba vanguardista que imprimiu a ‘Corrente’, as nuances jazzy que deu a ‘Olhos nos Olhos’ e ‘Com Açúcar, Com Afecto’, ou a dimensão dramática que emprestou a ‘Teresinha’.
‘Desconstrução’ é, ainda, o primeiro disco feito por um português exclusivamente sobre a obra do compositor brasileiro e pela cantora que ‘inventou’ as parcerias musicais entre portugueses e brasileiros.
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